O perigo da contratação de Dani Ceballos pelo Real Madrid

Na última semana o Real Madrid anunciou mais um importante reforço para a próxima temporada. Trata-se de Dani Ceballos, meio campo espanhol de apenas 20 anos e que foi o grande nome da seleção espanhola na Euro Sub-21, onde foi vice-campeão e eleito o melhor jogador do torneio.


O jovem formado nas divisões de base do Real Betis já foi campeão europeu sub-19 e da segunda divisão espanhola, quando ajudou a levar a equipe bética de volta à primeira. Ceballos era objeto de desejo do Real Madrid há algum tempo. A negociação, finalizada em 16,5 milhões de Euros por seis temporadas de contrato, marcou mais um embate entre a diretoria merengue e o Barcelona, que chegou em cima da hora manifestando interesse em contar com o jogador. Mas já era tarde: o desejo de Ceballos em ser um madridista falou mais alto.


Com talento e competência inegáveis, Dani Ceballos já foi comparado com Andrés Iniesta, devido ao seu estilo de jogo. Exibindo as caracterísiticas de um clássico camisa 10, o jogador alia uma excelente visão de jogo e qualidade de passe com dribles curtos, rápidos e objetivos que são comuns no futebol de salão. Também conduz a bola com maestria, esondendo-a dos marcadores e chegando com facilidade ao gol adversário. Sua habilidade com a bola nos pés chama atenção e, do ponto de vista tático, o jogador mostrou uma grande evolução na última temporada, sendo o grande nome do Betis e se estabelecendo como um dos melhores atletas espanhóis de sua geração.



Mas, apesar de todos esses pontos positivos, uma preocupação deve ser levantada em relação a sua chegada e ela pode ser resumida em apenas uma palavra: maturidade.


O interesse do Real Madrid por Ceballos não é novidade. Desde 2015, época em que o clube contratou Marco Asensio, a diretoria ensaiava essa movimentação e seguia acompanhando o jogador. Se o lado técnico nunca foi impeditivo, a maturidade do jogador era considerada como um possível problema. Isso porque talento e temperamento forte caminhavam juntos, e quando o segundo se sobressai ao primeiro, o resultado tende a ser desastroso.


Após contribuir ativamente para que o Betis voltasse para a primeira divisão, Ceballos teve uma grande queda de produção. Algo normal para a idade, sem dúvida, mas muitos acreditavam que ele havia se deslumbrado com o interesse do Real Madrid. O jogador chegou a ser acusado de esconder-se em campo quando o time mais precisava dele e a torcida bética começava a perder a paciência com ele. O interesse merengue esfriou e o jogador seguiu no clube onde havia se profissionalizado.


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Em pouco tempo Ceballos se tornou uma referência no Betis


Com o início da temporada passada, novos horizontes se abririam para o jogador. Mas o então técnico Gustavo Poyet parecia não concordar com isso e pouco utilizou o atleta - nos onze jogos em que o uruguaio comandou o Betis, Ceballos esteve em campo apenas cinco vezes, sendo que só em uma delas jogou os 90 minutos. O desânimo era perceptível e isso só começou a mudar com a chegada de Víctor Sánchez ao comando da equipe. A partir daí, Dani Ceballos voltou a jogar com mais frequência e, percebendo o talento e a versatilidade do jogador, o técnico passou a lhe dar cada vez mais liberdade em campo, o que possibilitou a evolução e o senso de responsabilidade que o jovem tanto precisava.


Isso foi essencial para que Ceballos crescesse no aspecto psicológico. Até então, ele era uma jóia que todos queriam ostentar, mas que não soube lidar tão bem com o fato de ser preterido por um técnico. Ele esperou e seguiu trabalhando, porém visivelmente abatido e, consequentemente, sem mostrar que necessitava apenas de oportunidades. E quando as teve (já com o novo comandante), a agarrou com ainda mais vontade do que em seu início como profissional. Essa virada de chave foi importante para que começassem a enxergar nele, além do talento, a certeza de que não se tornaria um jogador problema.


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A derrota para Alemanha na Euro Sub-21 não ofuscou o desempenho do atleta


Mas aí nós chegamos no Real Madrid e na atual formação de seu elenco. Um elenco formidável, sem dúvida. Para muitos, o melhor do mundo. Mas um elenco com um meio campo já bastante povoado. A solução, então, seria finalizar a contratação do jogador e mantê-lo emprestado, talvez para o próprio Betis. Ele não aceitou. Ceballos deixou claro que queria se tornar jogador madridista, mas queria que isso acontecesse agora, e não que fosse emprestado como aconteceu em outros casos. Um sinal do tal amadurecimento desejado, mas que também deve ligar o sinal de alerta em Chamartín. Afinal, onde ele vai jogar?


O atual meio campo do Real Madrid é formado por Casemiro, Modric e Toni Kroos. Além destes, o elenco ainda conta com Kovacic, Marcos Llorente (que ainda será apresentado), Isco. Excluindo Marco Asensio, que joga mais no ataque do que no meio, já são seis nomes de grande qualidade. Pensando na formação com três meias, os reservas imediatos, em tese, seriam esses acima. Ceballos chega para brigar no setor mais disputado do elenco madridista e achar um espaço ali será bastante complicado.


Mas outra opção é uma mudança de esquema tático. O trio BBC, em tese, segue estabelecido lá na frente, mas, pensando nos últimos e decisivos jogos da temporada passada, o Real Madrid apresentou uma considerável melhora de rendimento quando atuou com quatro jogadores no meio campo. Dessa forma, os três atuais titulares podem ser mantidos e a quarta opção do meio ficaria entre Isco e Ceballos. E aí a briga pegaria fogo.


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Agora a disputa entre eles é interna


É claro que quem tende a ganhar com isso é Zidane e o Real Madrid. Ter um maior número de opções de qualidade é o sonho de qualquer técnico, mas será que Ceballos está disposto a esquentar o banco por mais tempo? Será que, após toda essa festa em torno dele, o jogador entenderia que um eventual passo atrás poderia significar dois na frente daqui a algum tempo? A grande dúvida é em relação ao ambiente no vestiário, que Zizou já precisou intervir para conter alguns ânimos na temporada passada, quando Isco estava insatisfeito, e a história pode se repetir agora, mas com outro protagonista - ou até o mesmo, caso o camisa 22 perca espaço para o jovem recém contratado.


As rotações serão ainda mais frequentes agora. E os jogadores - sobretudo os de meio campo - precisarão entender que fazem parte de um conjunto e que todos têm a mesma importância. Os que estão lá já começaram a absorver essa filosofia, então fica a torcida para que esse amadurecimento de Ceballos também o faça perceber isso o quanto antes. Para o bem dele e do Real Madrid.



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