Real: os bastidores da novela envolvendo a contratação de Theo Hernández

Na última quarta-feira, o Real Madrid anunciou de forma oficial a primeira contratação para a próxima temporada: trata-se de Theo Hernández, lateral esquerdo francês de 19 anos que jogou a última temporada pelo Alavés.


O que seria apenas mais uma negociação para reforçar o elenco madridista transformou-se em uma verdadeira novela. Mas nada envolvendo o jogador ou o clube que ele defendia. O grande motivo de toda a confusão era o detentor dos direitos do atleta: o arquirrival Atlético de Madrid.


Theo Hernández estava emprestado ao Alavés, clube pelo qual jogou 38 partidas na última temporada, anotando dois gols - um deles na decisão da Copa del Rey, quando foi vice-campeão. Sua primeira temporada como atleta profissional foi excelente, confirmando as expectativas que vinham sendo depositadas há anos nele. O atleta é considerado uma das maiores revelações do futebol francês, mas, curiosamente, todas as suas divisões de base foram feitas na espanha, no clube colchonero.


Deportivo Alavés
Deportivo Alavés

Apesar da derrota, Theo teve boa atuação na final da Copa del Rey


E aí está o grande "x" da questão. O Atlético de Madrid o emprestou ao Alavés para que ganhasse experiência e fosse aproveitado em futuro próximo. A ideia era tê-lo de volta para a próxima temporada, mas a diretoria não contava com o interesse do Real Madrid e, mais ainda, o desejo do jogador em vestir a camisa merengue. Por conta disso, desde abril passado, quando a possibilidade da negociação começou a ganhar força, o Atlético endureceu a postura e mostrou-se descontente com tudo que vinha acontecendo.


O atleta assinou um contrato de seis temporadas, e o valor pago ficou na casa dos 26 milhões de Euros. O Atlético, derrotado na queda de braço, emitiu a seguinte nota:



Atlético de Madrid e Real Madrid chegaram a um acordo para a transferência de Theo Hernández. O defensor, que jogou a última temporada emprestado ao Deportivo Alavés, juntou-se a nossa Academia no verão de 2008, com 11 anos de idade. O jogador francês passou por todas as categorias de base, do Alevín A até o Atlético de Madrid B na temporada 2015-16. Theo Hernández realizou a pré-temporada 2016-17 sob as ordens de Diego Pablo Simeone, tendo disputado dois amistosos contra o Numancia e o Melbourne City, mas nunca estreou de maneira oficial com a primeira equipe. O jogador, que tinha contrato até 2021, rejeitou várias propostas de renovação do Atlético de Madrid e ofertas de diversos clubes europeus ao mesmo tempo que manifestou, repetidas vezes, seu desejo de jogar pelo Real Madrid.



Mas qual o motivo de tanto alvoroço por essa transferência?


Além do inegável talento do jogador e do fato de que transferências envolvendo rivais diretos não são tão comuns - a última entre Real Madrid e Atlético foi há mais de 15 anos -, há outro elemento importante nessa história: a quebra de pacto de não agressão envolvendo as duas diretorias, um acordo que inviabilizava negociações entre os dois maiores clubes da capital espanhola.


Getty Images
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Jogando pelo Atlético, contra o Melbourne City


Mas esse pacto é algo que funciona muito bem na teoria - e quando atende exclusivamente aos desejos da diretoria colchonera. É inegável que o clube, por mais que tenha recebido um polpudo aporte financeiro nos últimos anos, não tem poderio econômico para disputar com outros clubes europeus, então essa boa relação entre dirigentes é sempre muito bem-vinda. Entretanto, quando consideram algum atleta descartável, não veem problema algum em negociar com rivais - como aconteceu com Pulido e Cabrera, dois jovens que foram negociados com o Real Madrid para jogar no Castilla. Por outro lado, quando a situação é inversa, fazem questão de manifestar insatisfação e esfriar qualquer possibilidade de negócio - como aconteceu recentemente com Agüero e Giménez, jogadores que chegaram a despertar o interesse madridista.


Não havia muito para onde correr dessa vez. Em fevereiro o jogador comunicou ao Atlético que não pretendia renovar seu vínculo com o clube. Foi então que o diretor executivo Miguel Ángel Gil Marín apresentou os clubes que haviam manifestado interesse por ele: Barcelona, Liverpool e Bayern de Munique. Porém, para seu espanto, a resposta do agente de Theo Hernández foi a de que o atleta desejava jogar pelo Real Madrid, algo que certamente não foi bem aceito pela diretoria rojiblanca.


O Real Madrid, até então, não havia procurado o Atlético para tratar de qualquer negociação envolvendo Theo. Apenas duas semanas depois houve o contato e, a partir daí, as notícias começaram a circular. Inconformado com a situação, Gil Marín chegou a declarar que, caso a diretoria madridista realmente quisesse o jogador, teriam de desembolsar 30 milhões de Euros - seis a mais do que estipulava a multa rescisória do atleta.


A partir daí não houve mais contato entre as diretorias e a guerra fria estava declarada. Em maio, Theo realizou exames médicos que o consideraram apto a vestir a camisa merengue na próxima temporada, mas nada era oficial. Acreditava-se, nos corredores do Vicente Calderón, que o Real Madrid pagaria os 30 milhões de Euros pedidos pela diretoria.


Getty Images
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Antes rivais, agora companheiros


Os clubes voltaram a conversar apenas após a semifinal da Champions League e o clima continuava não sendo dos melhores. De um lado tínhamos o Atlético de Madrid decidido a não baixar a pedida dos 30 milhões de Euros. Do outro tínhamos o atleta e o Real Madrid, que, a esta altura, já havia decidido pagar a "cláusula Figo". Isso quer dizer que que não havia necessidade de negociação. Desde que o clube pagasse o valor da cláusula estipulada, o atleta se tornaria jogador merengue.


Normalmente o que ocorre é que os clubes cheguem a um acordo um pouco superior ao da cláusula de rescisão, referente aos impostos devidos em cada negociação, mas isso não é algo obrigatório. Foi exatamente isso que Florentino Pérez fez na temporada 2000-01, quando tirou Figo do Barcelona. Não é algo comum de acontecer, mas é algo totalmente legal e, neste caso específico, ocorre pela histórica má vontade da diretoria rojiblanca em situações como essa. O Real Madrid entendeu que, dessa vez, não iria se submeter a esse "pacto de não agressão" e decidiu seguir com a contratação de Theo dentro da normalidade que as regras permitem. Azar o do Atlético que preferiu manter uma postura fechada, sem dar atenção ao desejo do jogador e ao desfecho mais do que natural, criando um desnecesário clima tenso.


Ainda que o valor final seja superior ao da cláusula - 26 milhões em três parcelas contra os 24 estipulados - é inferior aos 30 pedidos pelos rojiblancos. Ou seja, no fim, as duas diretorias cederam em alguns pontos e chegaram a um acordo. Se as relações ficarão estremecidas, só o tempo dirá, mas o que importa é que o Real Madrid consegue um reforço de peso para o seu elenco e o Theo Hernández atinge seu objetivo, deixando clara sua felicidade através do Twitter e recebendo as boas vindas de Marcos Llorente, seu companheiro no Alavés e outro possível reforço merengue para a temporada.









A apresentação de Theo será na próxima segunda-feira, 10 de julho, no salão nobre do Santiago Bernabéu. Após a solenidade envolvendo a diretoria e a imprensa, o atleta irá ao gramado para ser recepcionado pela torcida do Real Madrid, que já irá se acostumar com o possível futuro ídolo merengue.



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