Ancelotti x Zidane: criador e criatura se enfrentam

Na manhã dessa sexta-feira foram sorteados os confrontos das quartas de final da UEFA Champions League. Recheado de times fortes, os confrontos, em tese, mais fáceis seriam contra Leicester e Monaco, mas não teve jeito: o adversário do Real Madrid é o gigante bávaro Bayern de Munique.


Atual líder da Bundesliga, o Bayern tem um dos elencos mais fortes do mundo e alguns já apontam esse confronto como uma final antecipada. Exagero? Talvez sim. Mas uma coisa é certa: ambas equipes têm reais condições de conquistar a orelhudinha no dia 3 de junho, na final que será realizada no Millennium Stadium, em Cardiff.


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A final de Lisboa foi o ponto alto dessa parceria


Mas esses confronto marca outro encontro histórico. Carlo Ancelotti, técnico que levou o Real Madrid a conquistar a tão sonhada La Décima, perseguida pelo time madrilenho por doze anos, e Zinédine Zidane, ídolo que já havia conquistado a Champions como jogador e na temporada passada, contra todos os prognósticos possíveis e imagináveis, comandou o time no caminho até da La Undécima, escrevendo seu nome na história do clube também como treinador.


O curioso é que em 2014, quando Ancelotti comandava o Real Madrid, seu assistente técnico era justamente Zidane. Foi a primeira experiência do francês na beira do gramado, aprendendo como dirigir uma equipe durante os jogos e, principalmente, no caso do clube merengue, como administrar um elenco com tantos talentos e egos na mesma proporção. Carletto é um mestre em fazer isso e sua passagem pelo time naquele momento foi essencial para o equilíbrio entre os jogadores, já que o final da gestão anterior, de José Mourinho, foi um pouco traumática e desgastante. 


Na sequência da La Décima, Ancelotti seguiu mais uma temporada como técnico do Real Madrid e Zidane encarou o seu primeiro desafio no comando de uma equipe, assumindo o Real Madrid Castilla e tendo contato direto com jogadores que poderiam ser aproveitados futuramente na equipe principal (incluindo seu filho Enzo).


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Um líder nato e em quem os jogadores se espelham e confiam


Enquanto isso, as coisas em Valdebebas não andavam maravilhosas e, após os desastrosos primeiros seis meses de Rafa Benítez na temporada 2015-16, Zizou foi promovido ao time principal cercado de dúvidas. Seu trabalho no Castilla não era algo que o credenciava e o lado do ídolo certamente pesou na decisão de Florentino Pérez, mas sem dúvida havia um projeto em curso para transformar o francês no comandante na equipe principal no futuro. Algumas etapas só haviam sido puladas até que isso acontecesse.


Mas a realidade era essa e Zidane mostrou a mesma personalidade forte e comprometimento da época em que ostentava a camisa 5 do Real Madrid. Assumiu o time ciente do tamanho da responsabilidade e logo deu uma nova cara à equipe. E é aí que voltamos a Ancelotti, pois o estilo apresentado por Zizou assemelhava-se, e muito, com o do italiano.


Com a fala mansa e linguagem próxima a dos jogadores, algo conseguido por suas experiências como atletas (por mais que a carreira de Ancelotti já seja extensa, seu passado como jogador é vitorioso), Zidane teve o elenco ao seu lado desde o primeiro minuto. E em campo o que se foi um time muito próximo àquele comandado por Carletto na temporada 2013-14. Meio campo sólido, combativo e criativo ao mesmo tempo, e uma forte tendência aos contra ataques.


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Zidane foi um aluno atento e disposto a aprender


Mas como todo bom aluno e comprovando sua forte personalidade e desejo constante de se renovar e evoluir, Zidane não ficou apenas nisso. Por mais que ainda demonstre inexperiência em alguns jogos, algo já citado aqui, o francês foi além do óbvio, já prevendo que os adversários aprenderiam a anular o time caso o esquema fosse sempre o mesmo. Investindo em mais posse de bola, Zizou transformou o setor de meio campo do Real Madrid em um dos melhores do mundo e passou a ter mais opções além do forte contra ataque. A defesa, que no começo de seu trabalho era um problema, passou a atuar de forma mais compacta e segura (ainda que nos últimos jogos tenha demonstrado falhas preocupantes), e o jogo aéreo se tornou uma das armas mais fortes da equipe - para muitos, sendo o time que melhor põe em prática esse recurso durante os jogos. E a potência e velocidade do time após as recuperações de bola seguiram sendo letais.


O conhecimento que Ancelotti tem dos jogadores e até do próprio Zidane podem ser fortes armas para o italiano. Por outro lado, Zizou já mostrou grande vocação para comandar o time nesses jogos decisivos, escalando de forma consciente e, principalmente, mexendo quando necessário e de maneira precisa. Será um confronto dificílimo, em que a mão dos técnicos será decisiva, e o Real Madrid tem plenas condições de passar para a semifinal.



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