Entrevista com Casagrande: Porto, doping e rock and roll


Acervo/FC PortoGetty Images

Casagrande comemora com Madjer o título sobre o Bayern, em Viena


O jogador mais rock and roll da história do futebol brasileiro já vestiu azul e branco. Uma passagem que durou apenas seis meses, é verdade, mas o suficiente para ficar marcada no Porto.


Casagrande chegou à Invicta credenciado pela participação na Copa de 1986, no México, e fez parte do time que venceu a Liga dos Campeões no ano seguinte, primeira conquista internacional dos Dragões, que completa 30 anos nesta semana.


Em entrevista ao blog À Moda do Porto, o comentarista da Rede Globo falou sobre o histórico título diante do Bayern, relembrou a boa relação com o presidente Pinto da Costa, não deixou o rock de lado e, sem papas na língua, confirmou o uso de doping quando defendeu o clube português.


À moda do Porto: Você foi para o Porto ainda jovem, numa época em que não era tão comum como hoje trocar o futebol brasileiro pela Europa. O que te levou até lá?

Casagrande:
Foi depois da Copa de 1986, ali o caminho ficou mais curto para sair do país. Os contratos estavam ficando caros para os clubes brasileiros, e o Porto estava disputado a Copa dos Campeões. Na verdade, o Porto ainda não era tão reconhecido no Brasil, não tinha a visibilidade que tem hoje. Foi uma aposta, tanto do clube como minha.


À moda do Porto: Como foi a experiência de morar na cidade do Porto? Como bom roqueiro, deu para acompanhar algo da cena local?

Casagrande:
Quando eu cheguei em Portugal, o que estava pegando era David Bowie, Cult, The Cure, Eurythmics. Lá já tinha a MTV, que no Brasil ainda não existia. Então eu via muitas bandas pela televisão. Mas não deu para curtir muito a cidade. Meu filho era muito pequeno. Eu estava casado e era muito novo, não saia tanto de casa.
 


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Casão defendeu a seleção brasileira na Copa de 1986, no México


À moda do Porto: Desde os anos 60, Portugal não conquistava um torneio europeu, e o Porto acabou com esse jejum. Como foi essa experiência?

Casagrande:
Olha, foi alucinante. Quando voltamos de Viena e o avião desceu no Porto, nossa! A cidade ficou totalmente acordada durante a madrugada toda, parecia dia. Nós fomos para o Estádio das Antas, que estava lotado. As ruas também estavam lotadas. Foi uma loucura. Ninguém esperava o título. A final foi contra o Bayern de Munique, que era uma potência. A gente sabia que o nosso time era bom. Tínhamos 13 jogadores da seleção de Portugal, mais eu, que jogava pelo Brasil, o Mlynarczyk, que era da seleção polonesa, e o Madjer, que era da Argélia. A equipe era muito boa. Foi surpresa para quem não conhecia, mas a gente sabia que era possível.


À moda do Porto: Na final o Porto enfrentou o Bayern, que também tinha um timaço e já tinha sido campeão europeu. Até por ser em Viena o jogo, havia um clima de "já ganhou" por parte deles?

Casagrande:
Clima de já ganhou não rolou. O alemão é muito focado, muito determinado. O que aconteceu é que na época o futebol não tinha tanta visibilidade como hoje, ninguém sabia muito bem como era o time do Porto, e o Bayern todo mundo conhecia. Eles já tinham sido campeões europeus, eram base da seleção alemã finalista na Copa de 1986. Então todo mundo sabia da potência que era o time do Bayern. Eles também sabiam disso. Estavam muito confiantes, mas o alemão nunca menospreza ninguém. Foi o Porto quem teve mérito de virar a partida.


À moda do Porto: Você começou como titular diante do Brondby, nas quartas de final, e sofreu a lesão no tornozelo. O que passou na sua cabeça naquele momento? Ali a história poderia ter sido diferente?

Casagrande:
Eu fiz de tudo para me recuperar até a final e me recuperei. Eu só não joguei aquela partida porque no teste da véspera eu ainda não tinha confiança em cima do tornozelo. O Artur Jorge, que era o treinador do Porto, ia me colocar para jogar porque era contra o Bayern, que tinha jogadores fortes. Ia me colocar de centroavante para bater com a defesa dos alemães. Infelizmente eu não senti segurança, não tinha confiança ainda. Eu joguei 20 minutos no domingo anterior, mas não foi o suficiente para pegar confiança. Mas acho que foi legal, sim. Seria ruim se eu não tivesse conseguido me recuperar. Eu tinha confiança de que o time iria chegar. Eu fiz fisioterapia, treinei, fiz o máximo para poder estar naquela final. Eu fico contente por ter ido ao banco. Sei que mesmo não estando 100%, se precisasse o Artur Jorge iria me colocar.


Divulgação
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Sem citar o Porto, Casagrande revelou em sua biografia o caso de doping


À moda do Porto: O Porto foi o último campeão da Liga dos Campeões que não pertence às quatro maiores ligas da Europa (Alemanha, Espanha, Inglaterra e Itália), e lá se vão 14 anos. Como você observa a desigualdade financeira no futebol europeu?


Casagrande: Eu acho que o futebol português perde pela parte financeira e pelo mercado ser aberto. As equipes dos outros países têm mais dinheiro e conseguem contratar mais jogadores de alto nível. Tem time, por exemplo a Inter de Milão, que venceu a Champions League sem escalar um italiano sequer na final. Então tem essa possibilidade, fica muito difícil mesmo. As equipes têm mais dinheiro e conseguem contratar os melhores e com volume, porque você pode trazer cinco, seis, sete grandes jogadores. Aí fica muito difícil.


À moda do Porto: O presidente Pinto da Costa completou em abril 35 anos à frente do clube. Como foi trabalhar com ele?

Casagrande:
Foi muito bom. Ele me recebeu muito bem, deu todo o apoio na época. Era muito fácil conversar com ele. Eu ia na sede do Porto, entrava na sala do presidente e ficava conversando com ele. Era muito acessível, e isso eu acho que foi um dos pontes fortes daquela época em que eu estive no Porto. Tinha muita facilidade de falar com a direção. Não tinha muita separação entre diretoria e jogadores. Ainda tinha o Teles Roxo, um diretor que morreu em um acidente de carro, que fazia esse meio campo. Você tinha facilidade de chegar e conversar com eles. Para quem era estrangeiro, isso te deixava mais tranquilo. Você ficava mais sossegado.


À moda do Porto: Apesar da revelação sobre o caso de doping, te procuraram para alguma possível homenagem ao time campeão em 1987?

Casagrande:
Não procuraram, até porque eles ficaram chateados pelo o que eu escrevi no meu livro, que tive uma experiência com doping na Europa. Eu não havia citado o Porto no livro, mas no Programa do Jô eu citei, e eles ficaram chateados com isso. Infelizmente é verdade. Eu não posso desmentir uma coisa que realmente aconteceu. O Porto foi muito importante para mim, adoro a cidade. Encontrei com os jogadores do Porto depois que paramos de jogar, na Áustria, em um mundial de masters. O Futre ainda é meu amigo. A gente se encontrou algumas vezes nas últimas Copas do Mundo. Infelizmente, não conseguiram entender que foi verdade aquilo. Era muito mais fácil a gente assumir o que aconteceu. Foi uma falha de todo mundo na época. Ninguém é culpado, ninguém é inocente. Era uma coisa que acontecia naquela época e aconteceu comigo no Porto. Não tem do que reclamar.


À moda do Porto: Como bom roqueiro, Beatles ou Stones?

Casagrande:
Rolling Stones, porque eu acho mais rebelde. Eu acho que é mais a minha cara do que os Beatles.