Amor inexplicável: uma jornada com a torcida da Ponte no Paraguai

É cansativo. Muito. Requer bastante esforço, inclusive financeiro. Mas que experiência fantástica é poder estar ao lado da Ponte Preta fora do Brasil e levar o nome da Alvinegra pelo mundo! A Copa Sul-Americana é uma delicia e, para a Macaca, óbvio, ainda mais especial. Se hoje é futebolisticamente muito complicada por estar mais longa e com times de forte expressão no cenário continental, isso não vai afastar a obsessão que o pontepretano tem por conquistá-la. Uma pena que em 2013 quem mais deveria estar interessado no título, DENTRO da Ponte, fez pouco caso para o que seria a principal honraria da história do clube e o mudaria completamente de patamar.


Estivemos em Assunção, capital do Paraguai, nesta quarta-feira, e acima do jogo que vocês devem ter acompanhado - vitória por 3 a 1 com show de Lucca e Sheik, a importância de Aranha debaixo das traves e outro bom resultado da Macaca fora de casa - o que fica mais marcado para mim é novamente uma prova da paixão inexplicável do torcedor da Ponte Preta. E ela deve ser cada vez mais valorizada, mesmo quando o próprio clube e sua cúpula fazem questão de tentar desgastar essa relação. 


Getty Images
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Lucca comemora com Sheik e Cajá seu segundo tento na partida


A cidade


Confesso que esperava muito menos da capital paraguaia. É, num todo, organizada, me pareceu segura e conta com diversas opções de lazer. Sobretudo na área mais moderna, com bonitas construções de vidro, hotéis e shoppings. No quesito turístico, fica devendo bastante para outras capitais do continente, embora eu não tenha conseguido, por falta de tempo, explorar a margem do Rio Paraguai, por exemplo, onde dizem ser muito bonito. Num país pobre e majoritariamente rural, a primeira impressão foi boa.


Particularmente, o que mais me incomodou foi o baixíssimo índice de umidade do ar. Os nativos explicaram que não chove por lá há mais de um mês e, inclusive durante o jogo, se via uma neblina fina ocasionada pela fumaça das frequentes queimadas.


A cancha 


André Sales
André Sales

O acanhadinho estádio Luís Alfonso Giagni estava abarrotado


O Club Sol de América tem sua principal sede social e seu estádio localizados em Villa Elisa, subúrbio de Asunción, aproximadamente meia hora de carro do centro da capital.


Na bilheteria, foi lamentável o abuso aos torcedores visitantes. A entrada para locais custava $ 5000 gs., moeda local, algo equivalente a R$ 2,83. Para os visitantes, US$ 30 ou R$ 100. Comprado os ingressos, percebemos que a entrada para ambas as torcidas era a mesma. Tudo levava à mesma arquibancada de qualquer setor do estádio, menos às cadeiras. Nem havia catraca. Na revista policial, apenas abriram as bandeiras que levei para checar se não continham nenhuma mensagem violenta ou política, mas não me revistaram.


O Sol divulgou público de mais de 9 mil presentes, 7 mil pagantes, em um estádio que, no Brasil, dificilmente seria liberado para mais de 5 mil pessoas. Aliás, não seria habilitado nunca para uma partida profissional. Sabemos que a CONMEBOL é sediada no Paraguai e suas regras e condições têm outro teor completamente diferente ao que é aplicado aos clubes brasileiros.


Muita terra no chão, pedras por todos os lados e arquibancadas pequenas e vazadas. A divisão das torcidas era simbólica, mas o banheiro era compartilhado entre ambas, por exemplo. A criançada aproveitou para usar a grade divisória de baliza e bateram uma pelada com goleiro e tudo, enquanto o jogo rolava. Foram várias as vezes em que a bola deles veio parar no setor pontepretano e prontamente devolvida para o seguimento da brincadeira. O gramado parecia bom e a proximidade dele foi interessante para a experiência do jogo.


Na diferença extrema e apaixonante de se estar na cancha, conto para vocês um dos melhores momentos. Foi com o maranhense Lucca e, por incrível que pareça, não foi um dos dois gols que o artilheiro marcou.


No segundo tempo, Lucca foi cobrar escanteio perto de onde estava a torcida da Macaca e o amigo Alex Garutti gritou das arquibancadas: "Manda um abraço para Palmas, Tocantins!". O atacante riu e balançou positivamente a cabeça, enquanto ajeitava carinhosamente a bola no quarto de círculo. Natural de Alto Parnaíba-MA, Lucca é radicado em Palmas e foi lá que nasceu para o futebol. Pequenas coisas assim são tão especiais que emocionam. O contato do jogador, ídolo, mas ser humano, com sua torcida apaixonada. A proximidade que faz toda a diferença.


Nessa altura da partida eram apenas aproximadamente 15 torcedores alvinegros no estádio Luís Alfonso Giagni. Foi só depois do terceiro gol, na metade da segunda etapa, que chegou o ônibus - que teve um problema de documentação na fronteira - trazendo as torcidas organizadas. Sempre muito solícitos e receptivos, os policiais paraguaios deixaram entrar os mais de 40 torcedores sem sequer cobrar pelos ingressos para assistir os minutos finais. 


André Sales
André Sales

Organizadas da Macaca chegam pelo caminho de terra que leva às arquibancadas


A partir dali começou o batuque e era só festa no improvisado e acanhado setor visitante. A polícia, obviamente, chamou reforço. Nenhum incidente foi registrado, num ambiente bem tranquilo entre as duas torcidas. Os paraguaios, inclusive, adoraram o samba que saia da arquibancada pontepretana e se colocaram em massa com os celulares na mão a filmar e tirar fotos dos malucos que vieram de longe para acompanhar, nem que fosse por 20 minutinhos, o seu time do coração em campo. Faltou mais um gol para coroá-los depois de mais de 24 horas de estrada. 


Vinicius Bueno/Rádio Bandeirantes Campinas
Gazeta Press

Jogadores agradecem presença e apoio da torcida após o jogo


Isso, contudo, pouco importava para aqueles torcedores. Era visível o quanto estavam felizes e aliviados e conseguir chegar, depois de todo o perrengue que passaram.  


Prova de amor mais puro, não há. E a nação pontepretana saiu de Villa Elisa ainda mais fortalecida para o que vem pela frente. Para o confronto das oitavas de final contra o Sport, tanto aqui quanto no Recife. Mas principalmente para a história de um time tradicional que demorou demais para escrever capítulos internacionais, porém, agora, os faz com maestria. E quer continuar batalhando para conhecer cada vez mais e, quem sabe, conquistar o continente.


André Sales
André Sales

Após a partida, torcida se prepara para mais um longo caminho da viagem de volta


  

 

Reprodução/Fox Sports
Reprodução/Fox Sports

Macacada reunida no acanhadíssimo setor visitante paraguaio