Ponte de 2017 vende jogadores, faz 'caixa', mas não qualifica elenco

Não é segredo para ninguém que acompanha este blog e, sobretudo, a Ponte Preta que a grande marca da gestão diretiva atual da Macaca é ter o pé no chão no que diz respeito às finanças. Aliás, ela própria se orgulha disso e de ter colocado o clube em uma situação financeira confortável. Realmente, essa parte é de se elogiar. É uma obrigação que quase nenhuma outra gestão anterior conseguiu.


Porém, estes mesmos balanços possuem uma peculiaridade complicada. Ao contrário do restante das dívidas, principalmente trabalhistas e com órgãos públicos, preocupa a estagnação do saldo devedor com o presidente de honra Sérgio Carnielli, orçado - de acordo com os balanços financeiros do clube - em mais de R$ 100 milhões. Sem esse apoio, a Macaca nunca teria conquistado tal saúde, que está ainda bem distante de ser uma independência financeira. Isso sem contar com alguns - perto desse valor - pequenos empréstimos junto a bancos privados.


Reforçado isto, vamos ao que interessa como principal assunto desse post.


Gazeta Press
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Ponte ficou praticamente sem ataque após Paulistão e sofre sequelas na falta de gols


Desde o início do ano, a Ponte Preta viu-se obrigada a negociar alguns jogadores importantes do time. Se não por preferência esportiva, a decisão foi tomada pela vontade do jogador em seguir a carreira em outras equipes, propostas salariais maiores, além de garantir contrapartidas ao clube de Campinas.


Dentre as transferências mais notáveis, estão os atacantes Pottker (R$ 6 milhões - pechincha) e Clayson (R$ 3,5 milhões), destaques no Campeonato Brasileiro de 2016 e Paulistão 2017, vendidos para Internacional e Corinthians, respectivamente. Os meias Ravanelli (€ 800 mil, cerca de R$ 3 milhões) e Matheus Jesus (também por aproximados R$ 3 milhões) pintaram como promessas da base da Macaca. Sem desenvolver futebol que brilhasse aos olhos, tanto de torcida quanto de diretoria, ambos também foram negociados. O primeiro para o Terek Grozny, da Rússia, e o segundo para o Estoril, de Portugal - mesmo que para ser redirecionado, via empréstimo, ao São Paulo.


* Entre parênteses estão os valores aproximados dos negócios divulgados pela imprensa. Infelzimente, a Ponte Preta tem como política não informar oficialmente ao seu torcedor valores de suas transações, diferentemente de qualquer outro clube do mundo.


Em alguns dos acordos, a Macaca recebeu compensação esportiva. O zagueiro Yago, que está lesionado, e o atacante Lucca, craque do time no Brasileirão, chegaram via empréstimo do Corinthians num acerto por Pottker, ainda no início do ano, e ficaram mesmo após o negócio ter melado. Ao vendê-lo ao Internacional, então, a Ponte recebeu o volante Fernando Bob, também por empréstimo. Na ida de Clayson ao clube da capital, chegaram o meia Leo Artur e o atacante Claudinho, dessa vez por definitivo e porcentagens de seus passes.


Com tanto dinheiro assim entrando seguidamente em caixa, algo anormal na história da Alvinegra, o que se esperava era uma atuação marcante do Departamento de Futebol no mercado antes que se fechem as janelas de inscrição dos campeonatos que disputa. Correto?


Gazeta Press
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Com a venda de Matheus Jesus concretizada, entra mais dinheiro grande no caixa pontepretano


Pelo menos até antes da concretização da venda de Matheus Jesus, a Macaca seguia muito discreta na contratação de necessários reforços ao seu limitado elenco, ainda mais debilitado após tantas negociações. Não exatamente para cada momento, mas essas ausências foram supridas por atletas que não demonstraram a mínima condição de fazer frente aos que se foram. E isso a diretoria sabia bem.


Foram jogadores baratos e/ou em baixa no mercado, como Negueba para o ataque, João Lucas e Fernandinho para a lateral-esquerda, Luan Peres na zaga e algumas outras apostas que ainda sequer atuaram. Isso obrigou que os dois garotos provenientes do Corinthians com status de promessa também já fossem queimados na fogueira do time titular. Entre as excessões, ao menos no preço de salário, o zagueiro Rodrigo assumiu a titularidade absoluta, o meia Renato Cajá segue deixando a desejar, fora de forma e ritmo de jogo, e Emerson Sheik mostra jogo a jogo ser diferente e uma das poucas contratações elogiáveis.


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Ponte jogou finais do Paulistão com lateral-esquerdo que não tinha em seus planos e contratou dois para o Brasileiro: Fernandinho e João Lucas


Outro fato que incomoda bastante os torcedores é a estreita participação da empresa Elenko Sports em praticamente todas as contratações recentes da Nega Veia. Seria até interessante - e prometo tentar em breve - fazer um levantamento de quantos atletas do atual elenco fazem parte da gama da gestora, que inclusive está relacionada diretamente ao negócio de Matheus Jesus com o Estoril e o São Paulo.


É inegável que o grupo atual de jogadores ainda está muito aquém da necessidade do clube. Para que esteja completo, forte e consiga lidar bem com as duas competições simultâneas que disputa, o Brasileirão e Copa Sul-americana - obsessão de todo pontepretano -, faltam ainda, no mínimo, cinco reforços de qualidade. Vamos às posições mais carentes:


A primeira não poderia ser outra: o camisa 9. A Ponte está sem centroavante desde a venda de Pottker, em fevereiro. FEVEREIRO. É bem verdade que, na época, havia Ramon, outro atleta com essas características no elenco. Porém, logo após o Paulistão, Ramon foi dispensado e a única opção se tornou o jovem Yuri. Ainda inexperiente, o garoto retornou recentemente às divisões de base por recomendação do treinador Gilson Kleina. A 'sorte' da Macaca é que Lucca tem dado conta do recado em uma posição que ele mesmo sabe não ser seu ponto forte.


Lins e Negueba não têm condições de assumir a titularidade nas pontas do ataque pontepretano. Claudinho, que não é bem um velocista, tem participado dos 11 iniciais por pura falta de opção. Agora, a bola da vez é o boliviano Luís Ali, que deve desembarcar em Campinas em breve. Resta saber se os olheiros da Macaca souberam enxergar num atleta desconhecido as qualidades que o time necessita.


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Com o pífio futebol apresentado até agora, Negueba não pode ser considerado um 'reforço'


No meio-campo, ainda se espera de Renato Cajá uma atitude diferente. Contratado do Bahia com um salário caro, ele chegou completamente fora de forma, mas todos sabem, sobretudo na Ponte, o dom que tem com a bola no pé. Mesmo assim, falta um jogador de criação para fazer sombra à ele e Leo Artur não tem demonstrado ser essa pessoa. O departamento de futebol estuda, então, a situação do meia paraguaio Jorge Mendoza, ex-Olimpia.


Em ambos os casos, isso mostra que a Macaca superou as recentes decepções com o mercado sul-americano. Trauma que não teria acontecido se antes o seu pessoal de observação tivesse contratado gringos realmente capazes de se adaptar e desenvolver bom futebol no Brasil. Esperamos que dessa vez seja diferente.


Na volancia, o problema não é a ausência de peças como nos outros setores, e sim a qualidade delas. Elton, Jadson e Naldo são limitados e não estão de bem com a torcida. O capitão Fernando Bob parece ser a única unanimidade, apesar de ser um jogador diferente do que saiu em 2015, mais violento e com uma autoconfiança que as vezes custa caro. Inexplicavelmente, Wendel - sempre bem quisto pela arquibancada - não tem vaga no time titular e não é aproveitado sequer saindo do banco de reservas. Sendo assim, talvez reste um reforço para a posição, já que ainda será necessário observar Jean Patrick, recém-chegado do Japão.


Na defesa, após a surpreendente solidez apresentada por Rodrigo na dupla do incontestável Marllon, o maior problema ainda mora na lateral-esquerda. Curiosamente o grande trunfo do time de 2016. Após o fim do empréstimo de Reinaldo, hoje na Chape, ninguém conseguiu se firmar e a comissão técnica mostra ter muitas dúvidas de quem merece mais a titularidade. João Lucas começou bem o Brasileirão, mas caiu de produção e sequer foi inscrito nessa fase da Sul-americana, preterido por Fernandinho. O segundo, por sua vez, também está longe de jogar grande futebol.


Grande parte, e me incluo, dos críticos mais ferrenhos à chapa política que comanda a Ponte Preta há mais de 20 anos - e não me refiro à oposição política, já que esse grupo é pequeno e ainda cru dentro do conselho alvinegro, a esses não me incluo - bate forte, e com razão, sempre na mesma tecla: a austeridade, visando cegamente o bem estar financeiro da instituição, freia a equipe dentro do gramado. Como não haveria de ser diferente?


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Venda de Ravanelli rendeu bons euros para a Ponte, que preferiu esconder o valor. Divulgado depois pelos russos


Obviamente, e deveria ser de conhecimento geral de quem está gerindo a Macaca, um clube de futebol não é uma padaria ou uma pet-shop. Ter suas contas organizadas é uma obrigação que está longe de significar sucesso. A fase futebolística de chegar em finais mais do que antigamente, não será valorizada até que se conquiste uma taça. Muito pelo contrário. E esse troféu não será nunca logrado enquanto o pensamento dentro dos próprios corredores do Majestoso ecoar que o mais importante é estar com o balanço no azul.


Quer a prova? Pergunte ao torcedor pontepretano nas ruas. Pergunte se ele acha que o clube tem obtido "sucesso" nos últimos anos, se o deixou feliz. Ou, mais simples ainda, é só prestar atenção nas vazias arquibancadas de Moisés Lucarelli. Elas falam por si só. Isso mesmo com um crescente número de associados. O que só reforça que o amor do alvinegro não sumiu, está ali. O torcedor está ali. Mas sem o algo a mais, o sentimento de ambição, que o motive a sair de casa para apoiar o clube rumo à uma conquista.


Sem um elenco reforçado, apenas com as peças que estão atualmente e já demonstraram suas limitações, corre-se o risco ainda maior do que simplesmente não ter sucesso, mais uma vez, nos mata-matas que disputa. Se não ainda complicar um Campeonato Brasileiro que parecia seguro. Infelizmente não vejo nem no grupo de atletas, nem na comissão técnica, uma força de recuperação caso o time se envolva em uma sequência negativa e entre na zona de rebaixamento por algum instante desse equilibrado certame.


Dinheiro em caixa agora sabemos que existe. Por isso, a cobrança por contratações de qualidade tende e precisa ser fortalecida.