Mesmo superior, Ponte abdica da vitória para garantir empate

Como era sua vida um ano atrás?


Até na longeva história da Associação Atlética Ponte Preta - o clube mais antigo do Brasil em atividade ininterrupta -, esse período recente já proporcionou alguns feitos notáveis. A melhor campanha em Campeonato Brasileiro de pontos corridos, em 2016, e mais um vice-campeonato paulista, em 2017.


Tudo isso aconteceu sem que a Veterana conseguisse conquistar uma vitória sequer fora de seus domínios pelo principal campeonato nacional. Se você não se lembra, torcedor, foi numa belíssima atuação de William Pottker, no Mundão do Arruda, em Recife, que a Ponte bateu o Santa Cruz por 3 a 0, a última vez em que ganhou fora de casa pelo Brasileirão. Mais exatamente no dia 30 de junho de 2016.


Besteira? Não, não. Esse dado reflete tão somente a visão de quem hoje comanda a Macaca. Tanto fora, quanto dentro dos gramados. Ou você consegue olhar para o elenco atual da Alvinegra e dizer que ele foi preparado para disputar competições de alta intensidade simultaneamente? Ou não viu que a Ponte fez um primeiro tempo superior ao Avaí, ontem, na Ressacada, mas preferiu voltar para a segunda etapa retrancada e garantir o empate, em vez de buscar três pontos que a levariam ao alto da tabela novamente?


Tem gente que ainda não se acostumou com o crescimento de patamar da Nega Veia. Onde já se viu achar um empate como esse um "bom resultado"? Ainda mais quando parece que a Macaca não partiu para cima para vencer o cotejo pois, aparentemente, não quis. Mesmo vendo que a equipe adversária é uma das piores do campeonato e ter a faca e o queijo na mão na primeira etapa.


Desde o retorno de Gilson Kleina (que hoje estava ausente, por conta da morte de um familiar) ao comando da Alvinegra, ele ganhou apenas um jogo longe do Majestoso. Curiosamente em sua estreia, ante o São Bento, em Sorocaba, ainda pelo Campeonato Paulista.


O esquema do treineiro para as partidas fora não tem funcionado e isso é óbvio, mas está longe de ser um problema tático. O principal quesito que freia a Nega no campo adversário é sua atitude, inofensiva e sem agressividade, e a recomendação de que um pensamento defensivo, visando o empate, é o suficiente. Nem sempre é.


A Macaca perdeu a penúltima rodada, em casa, para o Palmeiras. Na ocasião, após o jogo, cheguei a citar que a derrota doeria menos e seria facilmente esquecida em caso de vitória contra o Avaí. Era o correto a se pensar e o objetivo a ser trabalhado, já que a equipe campineira ainda não havia demonstrado nada que desse ao seu torcedor a esperança de que poderia somar três pontos em outros domínios. Para ter um campeonato seguro, é necessário recuperar pontos perdidos dentro de casa, fora dela. Seja contra quem for. E o rival talvez fosse o ideal, fraco, o pior ataque do campeonato. Que tal mandar no jogo e se impor como uma equipe mais qualificada que é?


Superior em posse de bola, ocasiões de perigo e chutes a gol, mesmo passando alguns sustos na defesa, o primeiro tempo foi animador e até bom de se assistir. O que torna ainda mais inaceitável a postura adotada para a etapa final. Que foi horrível de ambos os lados, diga-se de passagem. Será que a recomendação do auxiliar Juninho e demais componentes da comissão técnica foi realmente se preservar para garantir um ponto, mesmo ciente de que a equipe poderia batalhar por mais? Mesmo após um ano sem ganhar fora?


Gazeta Press
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Goleiro Douglas, do Avaí, é destaque do jogo por suas defesas no primeiro tempo


Com nova oportunidade para provar o bom futebol que mostrou ter em suas primeiras aparições pela Alvinegra, Leo Artur foi novamente discreto. Ao ser substituído, deu lugar a Jadson, outro volante. O mais intrigante de tudo isso é perceber o quanto Wendel está em baixa no elenco. Sempre muito bem quisto pelo torcedor pontepretano, o polivalente meia chegou a fazer bem a zaga em 2016, além de vestir a 10 e demonstrar poder de ataque marcando gols bonitos. É absurdamente melhor do que Elton - titular absoluto de Kleina, que só saiu dos 11 iniciais de ontem por desgaste físico -, o limitadíssimo Naldo e Jadson. Nada dentro dos gramados explica tamanha insensatez.


Claudinho, o outro atleta que veio de graça do Corinthians pela negociação de Clayson, tem habilidade... para o futvôlei. Domina bem a bola, faz dribles, toques e lançamentos de plasticidade. Mas incrível é que tudo para trás e inútil para uma jogada ofensiva que machuque o adversário.


E Negueba, hein? Entrou andando em campo e assim permaneceu. Além de errar tudo o que tentou com a bola nos pés, fez questão de não contribuir no momento defensivo da equipe, mesmo descansado. Tem dancinha característica dentro do grupo, mas e ajudar a marcar ou criar algo na frente? Nada. Assim como Lins, também bastante discreto e inofensivo.


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Mesmo muito bem marcado, Lucca foi quem mais levou perigo à meta catarinense


Faltou ambição para a Ponte vencer na Ressacada. Assim como faltou no último ano em que a Macaca não soube ter espírito de buscar a vitória fora de casa. Tanto na hora da formação de um plantel que seja capaz de ter essa qualidade, quanto na atitude passada pelas comissões técnicas responsáveis. Essa palavra significa, mais do que tudo, o principal motivo da ausência da torcida no Majestoso e total falta de conexão da Ponte Preta atual com seu torcedor.


E agora?


Se já está difícil bater nos rivais em suas casas, só imagine agora com a sequência que vem por aí. Corinthians e Grêmio em suas arenas. Não sei se a vontade é de rir ou de chorar.


Em meio a essas duas dificílimas guerras, a partida contra o Bahia toma tons dramáticos de obrigação de três pontos. Se seguir colecionando empates e derrotas, a Macaca tem tudo para complicar um campeonato que sinalizava ser seguro.


Faltam reforços e atitude. Ambos os quesitos podem e devem ser resolvidos simplesmente ao entenderem a grandeza que a camisa da Ponte ganhou nos últimos anos. Empatar com um time do Z-4, mesmo fora, jamais será um resultado satisfatório.