Ponte é eleita como a melhor gestão de 2016. Mas o torcedor está feliz?

Gazeta Press
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Se a Ponte Preta tem a melhor gestão de 2016, porque seu torcedor não está contente? A resposta é uma só


Divulgada nessa última semana do mês de maio, a pesquisa do instituto CIES Football Observatory – um dos principais sites de análises e estudos estatísticos de futebol no mundo – indicou a Ponte Preta como o clube de melhor gestão no futebol brasileiro em 2016.


O discurso é muito bonito e o primeiro lugar chamou atenção de muitos meios de comunicação esportivos do Brasil, que enxergam a Macaca cada vez mais emergente. Claro, isso foi amplamente difundido pelas redes sociais oficiais da Nega Veia, sem grande apelo por parte da massa. Mas por que então que isso, na prática, vale pouco em Moisés Lucarelli?


Simples: o maior patrimônio de todo clube de futebol, sua torcida, pouco se importa e não está feliz com isso. Não sou eu quem estou dizendo, isso é fato. Aborde qualquer pontepretano que encontrar na rua e o pergunte se está feliz e completo como torcedor. Se o que o anima é um time bem construído dentro de campo ou o superávit do final do ano.


Fez isso? Vamos lá. Ele pode até dizer que se sente seguro, que a primeira divisão é um consolo, a situação financeira do clube é boa, como tem de ser, suas estruturas, como estádio e CT, estão bem cuidadas, como não poderia ser diferente. Porém, ele não está contente. Não está satisfeito. Os 3 mil pagantes diante do Sport, na primeira rodada do Campeonato Brasileiro, falam por si só.


O macaco nunca vai deixar o orgulho de ter seu sangue alvinegro e seus valores criados na bancada do Majestoso, entretanto, chegou um ponto em que ele NECESSITA de algo mais. Esse algo mais que ‘a melhor gestão do Brasil em 2016’ não o entregou, que a mesma gestão há mais de 20 anos ainda não o contemplou e, dessa maneira, nessa visão de administração austera, mais pé no chão do que deveria, não o dará.


O próprio modo como o estudo foi construído é bem frágil e não leva em conta quesitos importantes. A Macaca aparece em primeiro por ter o maior ‘GAP’, ou seja, a maior diferença de posições entre o investimento em salários no departamento de futebol comparado ao seu resultado final do campeonato nacional. Mais especificamente, a Ponte teve a 18º folha salarial entre os 20 participantes do certame e terminou o Brasileirão em 8º lugar.


“O site CIES Football Observatory, da Suíça, efetuou uma análise comparativa entre salários dos times das cinco principais ligas da Europa e a performance em campo. Baseados nesses dados, eles criaram um ranking para medir a eficácia da gestão dos clubes. Nesse mês, foram publicados os balanços dos times brasileiros e, com esses mesmos critérios, efetuei uma análise similar para os 20 times que disputaram a Série A em 2016”, explicou Marcelo Paciello da Silveira - graduado em Marketing pela FAAP e com mestrado em Gestão do Esporte com ênfase em Marketing Esportivo -, responsável pela publicação da análise.


A dinâmica de uma agramiação esportiva, seja ela qual for e qual esporte contemplar, é completamente diferente de gerir um pet shop ou uma padaria. No fundo, ter as contas no azul e exercer bem o trabalho administrativo não é mais do que a obrigação de qualquer empresa que se preze.


Entretanto, o que acontece dentro dos gramados não é matemático. Estrelinha no caderno por bom comportamento na aula de cálculo, não é estrela bordada na camiseta. Torcedor apaixonado, aquele que viaja horas, sua sangue, passa perrengue nas mãos de polícia despreparada e torcedores adversários violentos, o que discute futebol com os amigos no bar, não é CLIENTE. Por mais que o futebol moderno hoje em dia insista em disseminar essa ideia goela abaixo. Torcedor não é cliente! Torcedor de FUTEBOL não comemora renda anunciada no placar, comemora gol!

Ilusão


Por outro lado dos números (não camisas) azuis, a taxativa propaganda de saúde financeira vai de encontro com a realidade dos balanços do clube. De acordo com o documento relativo a 2016, divulgado publicamente em meados de abril e aprovado por unanimidade pelo conselho, a diretiva da Macaca se gaba de ter diminuído as dívidas passivas e valores em aberto com fornecedores e estar em dia com parcelamentos do Profut e impostos mensais. Se analisado com minúcia, o balanço também aponta algumas preocupações com empréstimos a bancos como BMG e Bradesco, resultante em altos juros, dívidas com alguns grupos de empresários e, óbvio, o que o pontepretano mais conhece e teme: os mais de R$ 100 milhões em débitos com membros internos.


A dívida com o presidente de honra Sergio Carnielli segue viva e não se vislumbra um fim para isso - pelo menos dentro da Ponte - que não seja a venda do estádio Moises Lucarelli e a complexa construção de uma Arena no Jardim Eulina.


Divulgação/Ponte Preta
Divulgação/Ponte Preta

Balanço de 2016 foi divulgado em abril de 2017 e enviado à FPF


O que poderia resultar em uma solução, pode ser apenas a transferência de um problema para outro. Dificilmente um novo palco para jogos seria saudável e rentável a um time do calibre atual da Macaca. Se o Corinthians, com programa de sócios de extremo sucesso e jogos praticamente cheios toda rodada, não consegue fechar as contas de sua arena em dia, o que nos leva a pensar que a Nega Veia seria capaz de fazer diferente e sobreviver com boletos de vencimentos absurdos?


Apenas o funcionamento de uma arena já é consideravelmente superior ao de um estádio mais simples. Vale ressaltar aqui que são pouquíssimas as partidas em que a Ponte Preta realiza no Moisés Lucarelli e sai com a conta final positiva.

Muita gente pode criticar e dizer que o alvinegro que quer de todo jeito e exige uma taça é “corneteiro”, “está errado”, “deve mudar de time” ou cita o ex-rival como exemplo. Ora, para que vivem os clubes se não para disputar e almejar conquistas?


Antigamente muita coisa já manteve a Ponte Preta viva. A batalha pioneira pela inclusão dos negros num esporte antes elitista e predominantemente branco, o empenho de seus seguidores na construção do estádio com as próprias mãos, o amor incondicional nas horas mais difíceis e divisões inferiores. Agora, para manter esse clube vivo, é primordial que haja um apoio em modo de cobrança visando o tão sonhado título de expressão. Só assim o pontepretano poderá assumir sua satisfação e contentação total e, quem sabe, eleger sua gestão como a melhor do país. Sem isso, nada feito.