Por que a Ponte sempre vai atrás de quem a esnobou?

Mesmo já calejado e acostumado, muitas vezes ainda me impressiona tamanho amadorismo na Ponte Preta. Beira a infantilidade. A diretoria da Macaca pode ser comparada com uma criança sem muitos amigos no colégio. Sem aqueles de fé. Que sentam com o garoto no refeitório porque gostam de estar com ele ou com vontade de ajudar e somar. Ela está sempre sozinha.


Seja treinador ou jogador, é raríssimo algum profissional lá de dentro se identificar com a Alvinegra e querer crescer junto, fazer parte da história, mesmo que por pouco e determinado tempo. Ninguém se interessa pelo planejamento furado que lhe é apresentado. Não tem projeto. Muito pelo contrário. Na maioria dos casos, a Ponte é feita de trampolim imediatista por todos eles e isso é explícito pelos próprios, inclusive em entrevistas à mídia. Demonstrando ainda mais que sequer existe uma resistência de dentro do Majestoso para que não fique tão nítido.


Não cobro amor à camisa mais de ninguém. No futebol de hoje esse tipo de relação de trabalho é muito incomum. Atualmente se exige de ambos os lados o mínimo de profissionalismo. Que se vê, nesse caso, exageradamente de um lado, o do contratado, enquanto em Moisés Lucarelli ainda se romantizam coisas em amores platônicos digno de adolescentes.


Vamos aos exemplos. Sem ter um camisa 9 de ofício – Pottker sempre atuou melhor como centroavante, apesar de ter começado a temporada deslocado para a ponta –, a diretoria esperou e esperou e esperou por Luis Fabiano e apostou no “carinho especial” do atleta pelo clube para contar com sua contratação. Levou chapéu do Vasco e não tinha um plano B para a vaga. William Pottker vai embora após o Paulistão e deixará essa lacuna.


Gazeta Press
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Gilson Kleina deixou a Macaca para assumir um virtualmente rebaixado Palmeiras. Hoje, volta ao clube para tentar 'se redimir'


A aposta em Felipe Moreira como treinador efetivado para a temporada de 2017 era um erro crasso muito óbvio para qualquer um que entenda o mínimo de futebol. Só que, de novo, a direção não parecia ter uma saída para a crise anunciada. Ao insucesso de Brigatti, correu desesperada atrás de Gilson Kleina, treineiro com um único trabalho bom no currículo: aqui. E que, na época, não pensou duas vezes em deixar Campinas de madrugada para assinar com o virtualmente rebaixado Palmeiras.


São inúmeros os que deixaram a Ponte na mão para alçar voos mais altos que não enxergavam por aqui e depois foram recebidos de braços abertos como ‘bons filhos’ ao retornar. A maioria deles volta por se ver numa pior, necessitando outra vez da vitrine alvinegra. 


O principal exemplo de todos é Renato Cajá, conhecido por alguns em Campinas como “O meu Mercenário Favorito”. Nunca teve destaque fora da Ponte Preta, sabe muito bem disso, porém, sempre preferiu contratos à qualidade de futebol e sucesso na carreira. Ou se tornar um ídolo da Nega, quem sabe.


Renato passou três vezes pela Macaca. Na última (2015), em sua melhor fase, saiu inclusive pela porta da frente, pois realmente estava voando e seria muito difícil segurá-lo diante de uma proposta exorbitante do Mundo Árabe. Novamente insatisfeito no Oriente e querendo retornar ao Brasil, fez leilão, ignorou sua família estabelecida em Campinas, sua história no clube e voltar a disputar uma Série A, por um salário mais alto no Bahia. E bem alto.


Não o culpo, jogador quer dinheiro, Cajá sempre foi prova disso. Culpo a cúpula alvinegra por se balançar, agora em 2017, depois de tudo, pela contratação do jogador. Renato rescindiu seu contrato amigavelmente com o Tricolor Baiano, após desentendimentos em sequência lá em Salvador e deve pintar em Moisés Lucarelli pela quarta vez. E, se chegar, vem badalado pelos puxa-sacos.


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Renato deve desembarcar na Macaca em breve para sua quarta passagem pelo clube


Só do meia paraibano essa mesma diretoria sofreu bullying diversas vezes. Apanhou, sofreu e choramingou em seguidas ocasiões. Como um adolescente de baixa autoestima, segue perseguindo o jogador, Kleina e outros, com o rabo entre as pernas, perguntando se pode sentar com eles na cafeteria para não almoçar sozinho. Mesmo sendo o último na escolha de times da educação física.


“Ah, então você prefere um time sem meia a outro com Renato Cajá?”


Não. Se o Departamento de Futebol da Ponte Preta fosse bom e sério, já teria contratado algum meia decente desde o começo do ano, ao invés de lamentar o mercado e dar desculpas. Vou aprofundar isso em outro post em breve, mas a ausência de ‘scout’, de observadores de futebol dentro do Moisés Lucarelli, é revoltante. Todos os times do Brasileirão contrataram, se movimentaram, foram buscar muitas vezes fora do país uma peça importante para montagem do elenco. Aqui? Absolutamente nada.


Continua-se vivendo de passado. Andando para o lado, para o outro, às vezes para trás, como nos casos de Gilson Kleina e Renato Cajá, porém nunca para frente. Desse jeito fica difícil acreditar que algo maior no futuro esteja reservado para quem tem uma diretoria que trabalha dessa forma: como uma criança de 117 anos.