Proibições sem motivo estragam experiência nos estádios

É triste a realidade dos estádios paulistas em pleno 2017. Sem avançar em medidas reais e efetivas contra a violência em campos de futebol, a Polícia Militar do Estado de São Paulo se especializou, nos últimos anos, em ações inúteis e paliativas, que transformaram as praças esportivas paulistas em icebergs sem festas e, pior, cada vez mais inseguros.


Torcida única em clássicos e a proibição – a palavra mais usada no momento nos estádios – de instrumentos musicais, faixas, bandeiras, sinalizadores, mosaicos, bexigas e outros objetos comprovadamente inofensivos tiram a graça do futebol como ele é e tudo o que o evolve. Futebol não é e nunca será o teatro em que eles transformaram. Resultado disso, é que as decisões tomadas por quem não entende, e não gosta de ir à cancha, contribuem muito com o afastamento de público e diminuição brutal do interesse das pessoas em pagar ingresso e girar a catraca. Esse futebol de plástico, descartável, está tudo chato demais.


Difícil é não ouvir praticamente nada que seja contrário a essas mundanças vindo de grande parte da imprensa, que aceita calada essa transformação na experiência de torcer do brasileiro.


O que a Polícia Militar tem a ver com o que eu pinto nos muros da minha casa?


É o que a Ponte Preta está se perguntando essa semana. Desde o Paulistão do ano passado, por conta de uma das inúmeras brigas entre grupos de torcedores na capital paulista – tantas que nem sei qual foi especificamente o estopim que causou a decisão –, tudo relacionado às torcidas organizadas foi proibido nos campos do Estado de São Paulo. Inclusive instrumentos de bateria e suas faixas.


Antes, só era permitido, na burocracia militar, a entrada de faixas e bateria das torcidas organizadas, e ainda de maneira limitada. Torcidas que, aos olhos das autoridades, são as principais responsáveis pela violência nos estádios. O torcedor comum não tinha a menor chance de entrar com sua decoração ou seu barulho nas arquibancadas. Não sei dizer se uma medida burra ou mal-intencionada.

Reprodução Twitter
Reprodução Twitter

O jornalista Arnaldo Ribeiro pontou curiosidade da cidade e também Estado

Um ano depois e sem abrandamento da punição, para tentar dar um pouco mais de ornamentação visual e diminuir o cinza das bancadas, alguns clubes de São Paulo decidiram pintar mensagens ao clube, como se fossem faixas fixas. O Santos, por exemplo, o fez na Vila Belmiro. Se inspirando provavelmente nisso, a Ponte Preta entrou na onda e já havia grafitado uma frase no Moisés Lucarelli exaltando a maior torcida do interior do Brasil. Na semana passada, foi a vez de pintar, onde comumente fica a Torcida Jovem na arquibancada, a frase “Amor Maior” (foto). E ficou lindo.


Reprodução Instagram
Reprodução Instagram

Instagram oficial da Torcida Jovem chegou a postar sobre a pintura


O que os mandões da polícia provavelmente não sabem é que essa expressão nasceu primeiro na história da Macaca, muito antes de ser aproriada pela principal organizada da Alvinegra campineira, incorporada, inclusive, no nome da torcida (Torcida Jovem Amor Maior). Em mais uma decisão arbitrária e desrespeitosa, a Polícia Militar ordenou que a Ponte Preta  apagasse a pintura, que durou apenas uma partida na bancada. Mais uma prova de mandos e desmandos de quem não entende nada de futebol e tem um único objetivo: criar empecilhos e complicações sem motivo aparente.


Fica o desafio tentar entender o que uma pintura de declaração de amor ao clube pode ocasionar de ruim para o espetáculo futebol. Ou, que seja, incitar violência. E mais, se a decoração está dentro de uma propriedade privada, o que a Polícia Militar tem a ver com isso?


Quem manda no Majestoso?


Reprodução Facebook
Reprodução Facebook

Cordão da polícia já aconteceu duas vezes nesse Paulistão 2017


 Nas últimas partidas no Moisés Lucarelli, o torcedor que prestigiou os jogos na arquibancada geral do Majestoso se deparou com uma grade e um cordão de soldados separando e fechando o acesso aos portões monumentais, perto do apito final, impedindo a saída tradicional por debaixo do salão nobre do estádio.


Imaginando que fosse uma medida protetora e medrosa da atual direção, grande parte dos pontepretanos, inclusive aqui no blog, dirigiu críticas aos gestores, que prontamente se defenderam soltando uma nota culpando e pedindo explicações da Polícia Militar pelo ocorrido. A segunda questão pontuada no ofício da Ponte foi a acusação de uma torcedora de que sua família foi impedida de entrar no estádio porque um dos integrantes tinha na camisa uma macaca, símbolo do time, nela estampada.


Ou seja, torcedores proibidos de entrar em sua própria casa e depois privados de seu direito de ir e vir dentro dela. Sem nenhum motivo plausível aparente.


Imagine você


O pontepretano nunca foi de ver espetáculos e desfiles de grande futebol apresentado em campo pelo seu time. Talvez até por isso sempre se orgulhou e se acostumou em fazer grandes festas fora dele, tanto em Campinas quanto no Brasil inteiro.


No sábado de carnaval, a Macaca entrou em campo pelo Campeonato Paulista contra o São Bernardo e venceu. Ao invés de samba nas arquibancadas para embalar e divertir o povão, o silêncio e as proibições seguiram seu papel em afastar dos estádios quem gosta de futebol e sua festa. No feriado em que blocos de rua arrastam multidões, apenas 2.800 testemunhas giraram as catracas de Moisés Lucarelli.


Inveja do futebol de verdade


O gelo teatral dos estádios paulistas gera o pior dos sentimentos: a inveja de quem pode curtir e torcer de verdade nas arquibancadas. Experimente assistir qualquer jogo sul-americano pela televisão. Parece uma tortura.


Exemplo alemão


Getty Images
Getty Images

Torcida do Eintracht Frankfurt é uma das mais festeiras da Alemanha


Longe de serem completamente seguros e isentos de confusão, os estádios alemães passaram por modificações drásticas causadas pelo futebol moderno. Porém, diferentemente do que passa nos ingleses, em que as torcidas organizadas foram banidas e o clima de teatro predominou, nos campos germânicos ainda se sente a atmosfera criada pelos torcedores que gostam de apoiar suas equipes e proporcionar suas festas, tanto em jogos de local ou visitante.


Ao contrário de se importar com faixas e batuques, a Polizei se preocupa em investigar e punir quem pratica algum tipo de violência. Sem generalizar grupos ou descontar em quem não tem nada a ver com o assunto.


O que acontece na Alemanha é um modelo de sucesso a ser seguido pelo resto do mundo e uma prova de que é possível, sim, ter um futebol como festa popular mesmo em arenas – algo parecido, estruturalmente, com o que fez Grêmio e Corinthians nas suas -, seguro e que dê resultado financeiro para o modelo de negócio que tudo se tornou.