Receio de saída repentina para ser técnico de outro clube causou demissão de Alberto Valentim

Alberto Valentim foi demitido do Palmeiras por uma questão de convicção - ou falta de.


O Società soube de pessoas de dentro do clube que o Palmeiras duvidava que Alberto ficaria satisfeito como assistente de Roger Machado, tão pouco tempo depois de ter deixado escapar pelos dedos a chance de ser efetivado.


Desse modo, receosa de que um convite para ser o comandante principal de uma outra equipe pudesse levar Alberto a deixar a comissão técnica em breve, a diretoria alviverde optou por seu desligamento formal nesta terça, 5. E, pelo fato de Valentim ser contratado pela CLT, a demissão era a única saída para seu afastamento.


Embora justificável, a decisão de "desconvidá-lo" para seguir no clube não deixa de ser um tanto bizarra. Tal receio só foi medido após o convite? Ou já existia e, para manter a harmonia nas rodadas finais, esperou-se o término do campeonato para anunciá-lo?  


Roger Machado não se opôs à permanência dele no clube, embora sua presenção pudesse representar um risco. Afinal, querido pelos jogadores, Alberto poderia fazer sombra ao novo chefe.


Delmiro Junior/ Gazeta Press
Delmiro Junior/ Gazeta Press

Roger não se opôs à permanência de Alberto como seu assistente


Empáfia


Não faz muito tempo, Alexandre Mattos e Mauricio Galiotte cogitaram seriamente a efetivação de Valentim, embora houvesse duas grandes dúvidas a seu respeito. A primeira, mais óbvia, era se ele, tão próximo e amigo dos jogadores, estava preparado para comandar, como chefe de fato, com o pulso necessário, um grupo tão recheado de cobras criadas.


A segunda era entender como ele se comportaria sob pressão por resultados positivos. Dentro do clube, havia a percepção de que o técnico, sempre alçado ao comando do time interinamente, após demissões, não havia ainda sido testado com uma folha em branco à frente, com a obrigação de estabelecer metas e planejar uma temporada de um clube que entra em todos os campeonatos com a obrigação tácita de conquistar o título.


De um interino, espera-se sempre pouco e perdoa-se muito. Afinal, ele está ali só tapando um buraco.


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A verdade é que Valentim teve duas provas de fogo no comando do Palmeiras, e acabou reprovado em ambas. O empate com o Cruzeiro em casa, por 2 a 2, em 30 de outubro, embora a arbitragem tenha anulado um gol legítimo de Borja, foi um problema até maior do que a derrota por 3 a 2, em Itaquera, na rodada seguinte.


Por fim, a insistência dele em montar o time com uma linha defensiva muito alta e, principalmente, em negar que ela estivesse sendo a causa do número absurdo de gols que o time vinha levando, deixaram claro que o treinador não estava pronto para treinar o Palmeiras.


Não que haja algo filosoficamente errado em montar um time para jogar assim. Muitas equipes de ponta usam esse expediente. Mas as ações no campo sempre deixaram muito claro que esse grupo não havia se adaptado à proposta - ou que, no mínimo, não teve tempo para tal.


Foram 13 gols em oito rodadas. Para efeito de comparação, o campeão sofreu 30 em 38 rodadas: pouco mais do que o dobro em um número de jogos cinco vezes maior.


Valentim demonstrou, sim, qualidades. O Palmeiras chutou muito mais a gol com ele no comando. Também é fato que o time esteve muito mais bem organizado e racional sob o seu comando do que na segunda Era Cuca.


Mas Alberto mostrou também um enorme defeito, comum a outros técnicos de sua geração: o apego a números e teorias em detrimento do óbvio, do que está acontecendo no gramado, além de uma enorme empáfia em não reconhecer o próprio erro.


No caso dele, como no de Rogério Ceni, que foram jogadores de alto nível, esse erro é ainda mais imperdoável.