A sinfonia única da orquestra desafinada de Cuca

A fase ruim do Palmeiras se calca em dois problemas.


O primeiro é psicológico. É evidente que esse time despencou do céu ao se ver fora da Copa do Brasil e Libertadores e não está encontrando motivação para lutar pela quarta posição na tabela do Brasileiro.


O segundo, ainda mais preocupante, é Cuca acreditar que não precisa repensar nada no trabalho mediano que fez até agora como comandante do time, conforme declarou em entrevista coletiva após a derrota para a Chapecoense, no último domingo (20), por 2 a 0.


Quem assistiu ao jogo viu uma combinação das duas questões em campo. Com seu bonito terceiro uniforme, o time que perdeu a segunda seguida em casa pelo Campeonato Brasileiro esteve inoperante como conjunto, ineficiente individualmente e perdido em campo.


No domingo, quando eu mesmo não a pensava ou dizia, ouvi muitas vezes a frase “mas nada dá certo” ser dita no Allianz Parque. Nada. 


Carla Carniel/ Gazeta Press
Carla Carniel/ Gazeta Press

A careta de Cuca é a mesma dos torcedores


Eles correm, sim. Os jogadores dão carrinhos, se esforçam, tentam. Cumprem a obrigação. Mas falta faísca. Falta algo que os empurre além. Algo que os faça ver nos lances mais do que o mero dever profissional.


Essa sensação fica ainda pior quando a estratégia do chefe não está funcionando. O Palmeiras é uma orquestra que se apresenta, em todo espetáculo, com uma sinfonia só no repertório. E nunca consegue tocá-la bem por inteiro. Acerta em alguns momentos, desafina em vários outros. E, no fim, a música fica intragável.


É difícil trabalhar quando não se concorda com a orientação do chefe. E se eu, das cadeiras superiores, estou percebendo que o esquema não está dando certo, e que tampouco é promissor, é inocente acreditar que os jogadores não estão.


Por favor, tentemos evitar aquele papo raso de que “jogando num clube com a estrutura e a grandeza do Palmeiras, recebendo em dia, ganhando milhões em um país onde se passa fome etc”, os jogadores têm de estar sempre motivados.


Esse discurso-chavão fica lindo bradado numa roda de amigos pré-jogo, numa caixa de comentários de portal de internet ou na boca de ex-jogadores âncoras e comentaristas em mesas-redondas pela TV.


Se vamos falar da realidade, temos de encarar o futebol como ele é de fato, e não a visão romantizada que a gente ama.


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Um grupo de jogadores de futebol é muito semelhante a qualquer outro grupo profissional. E, quando perde a meta e tem de se contentar com menos - um “menos” que nem mesmo é fácil de se obter, e cuja obtenção será vista somente como obrigação cumprida - fica difícil ir adiante. Ainda mais quando já ficou claro que o chefe vai insistir num comando único, que o grupo não consegue seguir.


A marcação não está encaixando. Os jogadores não estão tendo condições físicas de sair para tentar essa roubada de bola com chances de, verdadeiramente, roubá-la para iniciar uma ação ofensiva. Por fim, nas poucas vezes em que os rivais deixam o time contra-atacar, há erros excessivos de passe e finalização.


Se o futebol não fosse tão propenso a mudanças de conjunturas inesperadas, tão movido a aleatoriedades e fatos novos que parecem brotar do nada, o palmeirense já poderia desistir da temporada. Nada indica uma reversão nesse quadro sem um fato novo. Mas nada indicava, há pouco tempo, que eu estaria escrevendo, em 21 de agosto, um texto tão carregado de melancolia e desânimo.


E há nada menos que um Choque-Rei, contra um São Paulo desesperado, no próximo domingo.


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