Os Doces Bárbaros: a torcida do Palmeiras fez história

O Periquitão, feliz da vida, abre alas para o Rodrigo Barneschi, que você provavelmente já conhece. Abraçar este cara antes do jogo é uma espécie de apito inicial, e, como o texto abaixo diz, sair do estádio quarta passada nunca se pareceu tanto com entrar em um estádio. Nós fizemos história, e o Barneschi fez a crônica abaixo.


Por Rodrigo Barneschi


Dezenas de ônibus estacionam em fila por todo o corredor exclusivo. Impossível avançar. Param os veículos e também a multidão que se aglomera mais à frente, ao lado, atrás, nas duas mãos da avenida. Rojões espocam, sinalizadores iluminam a noite, bombas-fumaça dão uma coloração esverdeada a um ambiente já explosivo. Os passageiros, sem alternativa, descem dos coletivos, o motorista desliga o motor, o cobrador filma aquela gente extasiada.


Um sujeito mais afoito se pendura na janela do ônibus. Dá um impulso e projeta o corpo para o teto. Outro vai atrás. Depois mais um. Logo são dúzias de torcedores em cima dos coletivos e das paradas do canteiro central da Avenida Matarazzo. Pulam, cantam, vibram. Erguem rojões, os fogos sacodem as janelas bem acabadas da nobre zona oeste, os gritos de guerra tomam conta de toda vivalma a vestir verde e branco. Ao chacoalhar dos ônibus, transeuntes se assustam e atônitos policiais não sabem bem o que fazer – acabam por fazer nada.


Rodrigo Barneschi
Rodrigo Barneschi

Passageiros de uma viagem bárbara


Um desavisado que passasse pela avenida na noite visceral de 2 de dezembro pensaria estar diante de um cenário de barbárie. Não deixa de ser verdade: o que se viu em todo o entorno do antigo estádio Palestra Itália nas horas anteriores e seguintes à decisão da Copa do Brasil foi uma demonstração absolutamente selvagem do amor de uma torcida pelo seu time. Por mais de 12 horas a vizinhança da moderna arena palmeirense testemunhou cenas capazes de transformar a mais despudorada noite de carnaval do mundo em uma festa de criança. Cenas de um amor desesperado e uma obsessão pelo título que acabou vindo muito por conta dessa devoção toda.


A verdade é que não houve, em toda a história centenária do estádio Palestra Itália, uma festa comparável à que fez a torcida palmeirense para celebrar a Copa do Brasil. Nem a final da Libertadores, nem os tantos duelos continentais disputados durante a efervescente era Felipão, nem qualquer clássico contra rivais históricos: não há termos de comparação. O dois de dezembro de 2015 do palmeirense foi amor puro e intenso, tão bárbaro quando doce, fruto tanto da carência de títulos quanto do ambiente criado nas semanas anteriores aos jogos.


O elenco alviverde era tido pela mídia esportiva como o azarão diante de um adversário que encantava pelo futebol rápido, vistoso e eficiente. O torcedor se alimentou dessa descrença ‘especializada’, dos palpites que davam o alvinegro praiano como virtual campeão, das provocações de jogadores rivais, da editora que publicou um pôster antecipado do oponente e de tudo mais que pudesse servir de combustível emocional.


Criou-se, pois, um clima de ‘nós’ contra ‘tudo e todos’. E, sob essa ótica, caberia ao torcedor virar um jogo que parecia perdido. Caberia a nós, os da arquibancada, dar o empurrão que faltava para que o time superasse a pretensa superioridade do rival. Se a vitória por 1x0 havia colocado o alvinegro em vantagem, servira também para manter o Palmeiras vivo e com relativa confiança, mais ainda depois de ver o adversário perder tantas oportunidades.


Incumbido desta tarefa, o palmeirense depositou naquela finalíssima toda a sua energia, como se fosse aquele o momento de salvar um ano que teve lá seus grandes momentos, mas que poderia terminar decepcionante sem o título. Toda essa energia foi canalizada artesanalmente por cada torcedor que trocou o sofá e todos os outros lugares do mundo pelas imediações do estádio.


Evitar aglomeração?


A multidão alviverde tomou toda a região desde a tarde de quarta. Era a nossa resposta contundente ao patético apelo da gestora do estádio para que evitássemos aglomerações e nos comportássemos como escoteiros. Pois aglomeramo-nos. Fizemos festa. Colaboramos – e muito – com a “prática do comércio ambulante”. Compramos tudo o que nos foi oferecido e, lá pelo meio da madrugada, demos por encerrado todo o estoque de cerveja dos que aproveitaram nossa festa para, honestamente, fazer uns trocados. A catuaba foi vendida como nunca antes neste país. E cantamos, vibramos, entramos em campo e jogamos com o time muito antes da noite chegar.


Lá pelas 18h o sagrado cruzamento da Turiassu com a Caraibas já sinalizava o tamanho da festa que estava por vir. Éramos milhares, e mais dos nossos chegavam por todos os lados, como se houvesse espaço para mais gente. Em meio a todo o estoque de rojões e sinalizadores da cidade, o vento trazia um cheiro característico para os mais antigos: o das bombas-fumaça. “I love the smell of napalm in the morning”. Bandeiras desfraldadas na rua, a bateria da Mancha Verde a ditar o ritmo, todas as músicas de arquibancada entoadas em sequência.


Tenho pra mim que só foi tão exacerbada a festa porque o novo estádio acabou por excluir muitos dos que estavam habituados a fazer a festa na arquibancada em tempos áureos – gente das organizadas, em especial. Sem poder comprar os ingressos, que passaram agora às mãos de um novo tipo de público, esses torcedores se viram obrigados a fazer a festa na rua. Antes. Durante. E depois. Se não seria possível cantar lá dentro para empurrar o time à vitória, então o jeito era participar do Corredor Alviverde na Matarazzo ou preencher cada centímetro quadrado das ruas que circundam a nossa casa. A história mudou para eles, e eles arquitetaram a noite histórica da torcida.


A coexistência de duas multidões distintas (a que entrou e a que sempre esteve lá) explica a dificuldade para se locomover ao redor do estádio durante toda a noite. Levava-se, tranquilamente, 10 minutos para percorrer um quarteirão, sendo carregado pela massa por sobre um caminho repleto de garrafas e latas. Não era possível virar o corpo para o lado sem esbarrar em alguém. E, como acontece em qualquer local com grande concentração de pessoas, houve quem se aproveitasse para praticar atos ilícitos ou cometer excessos. Contra emissoras de TV, jornalistas, indivíduos ou o patrimônio público.


Fato é que uma multidão desordenada abraçou um estádio por toda a noite, como quem fica de prontidão para garantir que tudo vai terminar bem, e que um espetáculo belíssimo aconteceu dentro do nosso estádio graças ao entendimento entre a diretoria do clube e lideranças da organizada. Que o adversário sentiu o peso da torcida já no primeiro lance do jogo – e que o nosso se fortaleceu graças ao grito de cada um que vestia verde. E, uma cena belíssima, que nem todos os stewards do mundo seriam capazes de evitar: a torcida acompanhou o jogo em pé à beira do campo.


Fizemos história


Entendo, e até respeito, que alguém queira classificar tudo isso como selvageria. Que os vizinhos se sintam incomodados por não conseguir dormir. Que há quem tenha sido prejudicado pela exacerbação de todo esse sentimento. Que muitos possam ter queixas ainda mais graves a fazer ou até mesmo que os bravos, valorosos e destemidos homens do 2º BP Choque tenham ficado sem saber como agir diante de tão incomum manifestação – porque a verdade é que ficaram, e devemos a isso o fato de não termos tido mais um massacre na porta de casa.


Mas que não venha a gestora do estádio me dizer que uma noite como a que vivemos neste 2 de dezembro é “tão importante quanto o respeito aos moradores do entorno”. Até porque muitos deles não nos respeitam. Sobretudo porque nunca o entorno esteve tão dentro do jogo. Todo torcedor que girou a catraca pensou, em vários momentos da final, naquele inédito mar elétrico de gente em pé na rua esperando, sem arredar pé, o desfecho daquele dia selvagem. De modo que sair de um estádio nunca se pareceu tanto com entrar em um estádio. Esse pessoal abriu mão de ver o jogo com clareza, em troca de sentir o Palmeiras com todos os sentidos. Isto a crítica especializada em HD nunca vai entender. Não há mapa de calor para isso.


Além da Copa que fomos buscar no grito e da festa sem igual, travamos uma disputa por território. Não apenas o físico, o do entorno do estádio, mas o território simbólico, aquele do confronto entre o modelo das novas arenas e a cultura da arquibancada, entre interesses corporativos e a manifestação popular, entre o autoritarismo e a espontaneidade, entre a agenda de domesticação do torcedor e a certeza de que mandamos na nossa casa.


Fizemos história, senhores! Vencemos essa Copa junto com o time. E, para que isso acontecesse, tivemos também de vencer essa batalha. Nunca é só um jogo que está em jogo. Avanti!