Entrevista: Carlos Pracidelli, o criador de São Marcos

Junho de 1992. Nelsinho Baptista, técnico do Palmeiras, abre as portas da academia para Carlos Pracidelli. Sua função é trabalhar com os goleiros do departamento amador, e uma de suas primeiras missões é avaliar um arqueiro que chegara da Lençoense. Era Marcos. "Aprovadíssimo", disse Carlão para a diretoria. Começava ali uma parceria necessária para os dois. Essencial para o Palmeiras.


Se o intratável e colérico Cus D'Amato, homem que lapidou Mike Tyson, era o tipo perfeito para cuidar da personalidade endiabrada do lutador, Pracidelli fazia o mesmo com São Marcos. Ambos tinham temperamentos harmoniosos, se entendiam na leveza, no papo, faziam da academia de goleiros do Palmeiras um ambiente gostoso e, também, vitorioso.


Entre idas e voltas, foram quase duas décadas de Pracidelli no Palmeiras. Marcos sempre esteve para dar oi e tchau. Primeiro treinador de goleiros que o departamento amador teve, lapidou mais que apenas este busto. Em um dia comum de trabalho um funcionário do clube veio lhe contar de seu parente bom debaixo das traves. "Posso trazer pra você ver?", foi a pergunta, e Pracidelli deu sinal verde, sem compromisso. No dia seguinte Diego Cavalieri começava sua carreira como goleiro. Olho bom, o do Carlão.


Tem um burburinho leve falando em Cavalieri de volta para 2015. É justa a percepção de que ele poderia ter esperado um pouco mais no clube e herdado a vaga do Marcão. Ele partiu e batemos cabeça com nosso ego e nossa certeza ferida de que temos goleiros perfeitos. Contratamos Prass, e olha que o último vindo de fora para ser o camisa 1 foi Gato Fernández, vinte anos atrás. Desde o frango de Bruno contra o Tijuana, a escola de goleiros parece exposta, vulnerável. Por isso O Periquitão foi atrás daquele que foi o dono das chaves da academia.


Pracidelli, pai de palmeirense e muito grato ao clube, tratou o repórter com a gentileza e a calma que sempre tratou seus comandados. O resultado do papo está abaixo.



O que o Palmeiras tem que os outros não têm no quesito goleiro?


Trabalhei praticamente só no Palmeiras. É difícil avaliar os outros. Posso dizer que em 94, quando eu assumi todo o departamento profissional do Palmeiras, a Parmalat contratou o professor dos professores: Valdir Joaquim de Moraes. Ele era um diferencial, e foi um casamento perfeito entre a experiência dele e a minha juventude. A integração entre o amador e o profissional era total, a garotada vinha treinar conosco no time de cima, e isso dava amadurecimento para eles. Quando eram chamados, não sentiam muito o peso da camisa. Isso também contribuiu para formarmos grandes goleiros.


Não precisar contratar goleiro era uma questão de honra para vocês?


Nunca precisamos. A contratação do [ex-goleiro da seleção] Carlos, e também do Gato Fernández, aconteceu em uma entressafra. Um problema interno envolvendo o Velloso e o Ivan fez com que o Palmeiras negociasse ambos. O Velloso foi para o União São João, depois Santos, e a garotada não estava pronta para assumir a posição que seria, do ponto de vista do campo, do Velloso. Mas depois disso nunca foi uma preocupação procurar goleiro. Eu era o responsável, e tinha sob o meu comando todo o departamento amador. Eu queria formar goleiro, manter a tradição do clube, e fui feliz. Eu trouxe de volta o Velloso, o Sérgio também estava sendo emprestado e eu quis que voltasse. E ao mesmo tempo trabalhamos com grandes goleiros que não chegaram a ter sequência, como o Marcelo e o Gilvan.


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Os pupilos, o Santo e Pracidelli em 2008


O que você pode falar sobre o Bruno, que não tem mais chances no time? E o Deola?


Quando o Marcos estava para encerrar, o substituto era o Bruno. Mas uma fratura no pé deu chance ao Deola, que virou o reserva imediato, e depois o titular. Nós no clube tínhamos certeza que estávamos bem servidos. Um jogo determinante foi aquele que nos eliminou do Paulistão de 2012, contra o Guarani. O Deola teve participação direta nos gols, e todos nós sofremos muita pressão. Achei, conversando com o Felipão, que era o momento do Bruno ter sua chance e do Deola ser preservado. O Bruno estava pronto e ninguém o questionava. Foi campeão da Copa do Brasil tendo ótimas atuações, e vinha muito bem no Brasileirão. Isso até o Felipão ser demitido, e eu ir embora junto. Até aquele dia, eu via nos dois, e também no Fábio, goleiros fantásticos e com toda condição de dar sequência na dita escola. Mas, após eu sair, não posso dizer mais nada.


O que você lembra de quando o Diego Cavalieri decidiu ir embora do clube?


Foi em 2008, e ele era inclusive uma indicação do Felipão para o Chelsea, onde fui trabalhar nesta mesma época. Mas ele acabou indo para o Liverpool, que começou as negociações mais cedo. Ele seria o substituto natural do Marcos, sem dúvidas, mas, quando houve o interesse do Liverpool, nós tínhamos mais garotos para substituir, e o Marcos estava jogando tranquilamente. Tanto que só encerrou a carreira quatro anos depois, e se não fossem as lesões teria jogado mais duas ou três temporadas. Eu sabia que os jovens que estavam subindo, Bruno, Deola e Fábio, iriam responder. O que fugia da minha alçada era a parte financeira, e a proposta era irrecusável para quem ainda não era nem titular. O Diego tinha que ir. Mas, volto a dizer, até 2012 quando eu saí do clube, os goleiros que vieram depois do Cavalieri estavam respondendo bem e eram praticamente inquestionáveis.


Valdir Joaquim é o professor dos professores. Você foi fundamental para o renascimento desta tradição. E Marcos? O que o futuro reserva a ele?


Acho que o próprio Marcos não se dá conta do quanto é importante para o Palmeiras. Acredito que ele pode fazer muito pelo clube. Ele viu todo o processo que foi feito, e é sabedor de cada detalhe. Eu e ele temos uma história muito bonita juntos lá dentro. Começamos juntos no departamento amador. Toda essa trajetória foi vidida juntos, com muitas conquistas. Chegamos juntos até na seleção brasileira. Não nos separamos na hora terrível do rabaixamento. Ele teve oportunidade de sair do país mas ficou em função da ligação com o Palmeiras, e, como tinha que ser, encerrou a carreira comigo. Ele tem muito a oferecer ao Palmeiras ainda, por tudo que viu e sentiu desde a sua formação.