Leila ressuscitou o discurso vazio que assolou o Palmeiras em 2017

O Palmeiras venceu o São Paulo e deu, possivelmente, o primeiro passo em alguma direção que faça sentido com Cuca. Vimos um time interessado na forma de chegar ao gol rival, com algum repertório nas jogadas criadas. Moisés e Guerra se entenderam bem, Willian fez excelente partida e, sem os enfadonhos "pontinhas" desde o princípio, viraram, eles, armas para o decorrer do jogo, para abrir uma defesa cansada - Keno entrou e Róger Guedes estava para entrar quando este marcou o gol da vitória. Um time com uma proposta e, ufa, alguma estética, algum propósito, o que é diferente de dizer que fez uma boa partida. O preço da performance ofensiva foi muita exposição defensiva, poderíamos ter levado pior sorte, o 0x2 ou o 2x3, e há muita estrada para percorrer nesta direção escolhida. Fazendo sentido para além dos resultados pelos resultados, a gente percorre junto.


Então estava assim a nossa segunda-feira: quatro gols para festejar, uma voz meio rouca de quem viveu, um gostinho de cerveja no fundo do palato, a manutenção do quarto posto, um vídeo com troca de passes (meu deus! Então vocês também gostam de passes? Eu não estou sozinho no mundo!) até o quarto gol, um olhar malicioso para a tabela na esperança de que ela mude pouco na metade de baixo, uma foto maravilhosa e emocionante dos campeões de 1972 reunidos 45 anos depois na Academia de Futebol. Tudo isso só com o returno do brasileiro pela frente e a chance de viver um pouco sem o peso daquelas papagaiadas de "obsessão", de melhor elenco do Brasil, de "título é obrigação", a chance de concentrar no futebol jogado, não no futebol falado, nos darmos um pouco de paz e nos tirarmos um pouco daquela medonha ilusão vazia, enfim, afastar de nossa rotina os vícios que adquirimos e nos deixaram meio xaropes.


Mas aí veio a festa de gala de aniversário da Sociedade Esportiva Palmeiras, a reunião anual da qual quero a mais absoluta distância - como quase tudo que seja de gala, que minha festa é e será sempre na rua. À parte a sequência das homenagens aos senhores de 1972, gesto de muito bom gosto e bem executado por quem o fez, era evidente que Leila Pereira, que não consegue resistir à chance de falar para a imprensa - pois, quando fala, aparece, e aparecer é irresistível -, nos ofereceu uma promessa inusitada: "Fico no clube até sermos bicampeões mundiais". Notem que ela não considera a hipótese de um dia o Palmeiras optar por outra empresa para patrociná-lo. É realmente cheia de confiança, a Leila. Como foi homenageada na festividade de gala ao lado do marido, acho natural que se sinta mesmo autorizada a falar algo que cabe ao departamento de futebol, e não ao patrocinador deste. 


Gazeta Press
Gazeta Press


Trocando em miúdos, Leila Pereira, que não faz a menor ideia do que é o prejuízo emocional e diário de um torcedor de verdade, não entende ou não quer entender a dinâmica do futebol e faz o que faz por interesse pessoal em transformar seu dinheiro em poder político independente dos resultados em campo que ela mesma finge ser importante para si, conseguiu, ontem, reafirmar, trazer consigo, chamar de volta a mesma narrativa que tanto nos castigou ao longo de 2017 - e que ela, se tivesse alguma experiência dentro do futebol, teria percebido, e não percebeu, preferindo reacender a fogueira de um discurso que já deu, e muito, no saco. Leila Pereira nos tirou o direito de vivermos mais uns dias sem esta insuportável arenga irresponsável de que existimos em função de sermos campeões do mundo.


E repito em parágrafo isolado: opiniões sobre conquistas, classificações e resultados esportivos, quem dá é quem joga, treina ou dirige o departamento. Não quem patrocina.


Ou Leila faz uma destas coisas, ou acha que faz, tão habituada que está ao medo que a rodeia, ao ambiente que ela mesma ajudou a criar à base de rumores ameaçadores de que o contrato seria rompido ou descontinuado se fulano saísse, se cicrano vencesse eleição ou se beltrano não respeitasse um capricho. É uma das almas sensíveis do Palmeiras, que acumula agora também a função de conselheira, uma conselheira com instagram e comportamento bem diferente do normal, que conseguiu a vaga no conselho de um jeito bastante incomum e parece querer mais. É preciso começar já, imediatamente, o processo de proteção do elenco para que ele não absorva, em 2018, este tipo de discurso que não cai bem para time algum.


A Crefisa oferece um patrocínio excelente. É interessante ter este patrocínio por um longo tempo. Mas é fundamental colocar cada coisa e cada pessoa em seu lugar. Seja por intermédio do presidente Galiotte, ou da diretoria de futebol. Já na gestão Paulo Nobre atletas chegavam com um discurso pronto na apresentação que consistia em falar sobre o "sonho do título mundial". Leila entende muito do negócio da Crefisa, o tal do crédito financeiro. Dos destinos esportivos do time de futebol, nada sabe, e pode se ausentar do debate sem nenhum prejuízo. Temos uma boa chance de montar em 2018 o time espetacular que em 2017 não aconteceu. As melhores chances disso dar certo é com cada um cuidando da sua área - e 2018 será, pode esperar, um ano de processo eleitoral de nível bastante baixo, ou seja, ou a gente discute agora quem fala e quem não fala sobre o time de futebol, ou ficará difícil lá na frente.


Dá para comprar um time que se torna imediatamente campeão. A Parmalat fez isso em 1993. Mas na maioria das vezes, a compra de talento é também acompanhada por um processo de construção. O jogo em si é um processo de construção, jogada por jogada nos 90 minutos, treino por treino nos dias sem jogo. Se vamos ser campeões do mundo com esse ou aquele patrocinador, neste ou naquele ano, é a bola quem vai dizer. Se colocarem um microfone na boca da bola, ela vai permanecer muda.


Sábia, a bola.