Cuca e Os Sensíveis

E Cuca explicou a derrota para a Chapecoense, que passou a semana no Japão, como fruto da "falta de confiança". 


Por respeito aos atletas dos anos 80, de 1993, de 1942 e de outras épocas da história do Palmeiras (que é e será sempre contada por quem a vive ao longo de toda a vida, e não por um período de tempo com carteira assinada), rejeito qualquer tentativa de afirmar que este elenco e diretoria vivem sob forte pressão. Não vivem. São tempos de blindagens múltiplas (inclusive os carros), indignados de (e só nas) redes sociais e bastante gente com tempo para pensar por eles as muletas mais legais, as formas mais bacanas de se justificar fracassos. A "falta de semana inteira para trabalhar" dará espaço para o "elenco está pressionado" e o "falta confiança".


Aqui, não cola. Este é o Palmeiras dos aplausos na arena em várias eliminações, de Libertadores inclusive. Longe de mim com esta narrativa fácil, cômoda, que outra vez vai poupar um grupo que tudo teve e terminar culpando a torcida mais que os homens do outro lado da mesa, estes os verdadeiros responsáveis pelo frustrante 2017 vivido.


Sendo bem generoso, mas assim, bem generoso mesmo, aprovo que Cuca tenha bancado Moisés e Guerra juntos por 90 minutos, mesmo longe da forma ideal, na derrota dominical, com chuva, frio e mais de vinte mil na arquibancada. Fazendo o esforço da (pedida!) agenda positiva, existe aí uma mensagem de que o treinador enxerga um caminho alternativo ao delirante Porco Doido que alguns admiram pela "intensidade". A notícia da semana era a escalação de ambos, tarde demais do ponto de vista da Libertadores, coisas da vida, mas boa notícia mesmo assim. Duas cabeças pensantes, dois corpos menos velozes do que a tevê em HD está habituada a cultuar, com o que isso tem de bom e de ruim. Não existe futebol sem risco, você põe mais de algo e fica com menos de outra coisa, e é função de quem tem dois excelentes meias, como Cuca tem, fazer o time jogar o melhor que puder com eles.


Porque eu e talvez você não saímos de casa para fazer três pontos de qualquer jeito. Hoje isso não cola como colou em 2016. São 18 (agora 17) chances de fazer o time jogar bem uma vezinha só no ano, um mísero mês de qualidade. O nível do campeonato está baixo, jogar bem será sinônimo de fazer os pontos necessários para algumas das 850 vagas para a Libertadores, mas ainda acho as ideias mais importante que as vagas - e vagas não são o mesmo que taças, devem ser tratadas como algo menor que a qualidade de jogo, que, via de regra entre torcedores impacientes, inverte valores de causa e consequência. Por isso pode ter custado caro demais a derrota para a Chape: Cuca pode desistir rápido daquela que é a mais confiável possibilidade de reconstrução técnica da equipe.


Antonio Cícero/Photopress/Gazeta Press
Antonio Cícero/Photopress/Gazeta Press


Pois é: possibilidades de reconstrução de um jogar futebol. A mesma torcida que banca Guerra e Moisés pelo que jogam está disposta a bancar um time que jogue mais no ritmo deles e se torne menos elétrico (e burro) do que geralmente é? Ou vamos aplaudí-los por serem ilhas de lucidez entre um Dudu de verdade e vários Dudus de mentira? E Cuca, vai correr para seu refúgio clássico, o time dos chutões e cruzamentos que reza pai nosso e veste calça vinho para ver se dá certo, ou vai trabalhar em nome do que é certo, e não do que é fácil?


Sensíveis


É trabalho malfeito, sem mistificações. Noto o esforço que vem de dentro do clube em represar as análises que chegam, sem desvios, a esta conclusão. Sensíveis demais a tudo que soe crítico, me fazem lembrar daquela máxima de que muita bajulação vicia. Vicia tanto que a primeira reação de alguns, quando contrariados, é tentar encontrar elos entre a crítica e um interesse escuso de quem a fez, como se impossível fosse haver gente disposta espontaneamente ao antipático papel de não oferecer as tais muletas que facilitam todo o trabalho. Outra coisa é confundirem a opinião pública das vozes esganiçadas das redes sociais, esta mesma que legitimou a contratação de um atacante que ninguém tinha visto jogar, com uma espécie de pensamento oficial, nos dois sentidos da palavra, manipulável até o fim dos dias e acrítica por medo de "perder a amizade" que nunca existiu entre o camarote dos diretores e nós, da torcida, ou de deixar o posto cibernético de torcida que mais apoia, sei lá, uma merda dessa qualquer.



Não. Nem todo mundo vai se acostumar a falar com uma jovem e sonolenta funcionária com tablet na mão decidindo quem entra na rua do clube, e muito menos será todo o mundo a apoiar o Cucabol e aceitar as entrevistas bizarras do treinador para "desexplicar" o que "desaconteceu". Limpar a barra com a opinião pública não depende de fazer uma boa política com blogueiros. Depende muito mais da forma como se encara os momentos ruins, e esta diretoria está encarando de um jeito lamentável. O futebol pobre, quando não te dá resultados, não te oferece nada para se agarrar. O nosso futebol, horroroso mais uma vez neste domingo, é só o resultado final de um trabalho que é incapaz de ser convicto até sobre o número de dias a se hospedar em Atibaia. 


E de repente o clássico contra o São Paulo se torna importante para a continuidade de Cuca no Palmeiras. Se, um mês atrás, este blogueiro falasse o que acha do treinador, seria contestado por 99% da torcida. Hoje posso bater na tecla: nunca teria trazido, nem na primeira e muito menos na segunda vez, e, apesar do otimismo no começo do texto, não tenho quase nenhuma esperança do futebol do Palmeiras evoluir nas mãos dele. Resultados, pode ser. Futebol, não. É a cabeça mais fácil a se cortar, no entanto. No Brasil, técnico não dá volta por cima, pois não dá tempo: ou está bem, ou é demitido. No caso do Palmeiras de agora, não creio que o futebol jogado incomode tanto a "quem demite" - Mattos, por exemplo, acha que a campanha não está ruim, o time está em quarto lugar, afinal de contas!


O que incomoda é a habilidade de Cuca em outras frentes. Daria para blindá-lo. Não querem. O homem que saiu forte e vitorioso nas recentes questões internas do clube, que fez valer seu juízo sobre Felipe Melo e está à frente (nesta, coberto de razão) da, digamos assim, decisão de "poupar" Borja, entre outras coisas, não é mais, agora, um cara por quem valha tanto a pena engolir sapo. Se tornou dispensável pois não oferece mais o que antes oferecia. Estamos falando de bom e vitorioso futebol? Não, claro que não. Estou falando de blindagem. Cuca não é mais o nome "que toda a torcida quer". É meio caminho andado para Galiotte romper com o que um dia jurou que era a escolha convicta.