O Periquitão indica: livros sobre o Palmeiras

Então é isso, amigos e amigas: a história escrita é extensa, profunda, ainda cheia de rombos e vai muito, muito além da leitura de blogs como este em que você está. Então de tempos em tempos vou trazer três dicas, ou mais, ou menos, não importa, vou trazer dicas que, quem sabe, te aproxime e convença a ler também.


O blog aceita dicas, quer ler coisa nova também e indica, para começar, vivamente estes três livros descritos abaixo:


Coadjuvantes
Livro de Gustavo Piqueira
Editora Martins Fontes, 2006


Ilustração
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Tive o prazer de entrevistar Piqueira certa vez, sobre Palmeiras, para um documentário. Uma figura que se amaldiçoou por ir com um abrigo preto para uma ocasião desta. Estava ali, pensei, de fato, a mente que teve a ideia que todos de sua geração gostariam de ter: contar, com auto-ironia e um pouco de humor, o drama não só do jejum de títulos do Palmeiras, mas de uma fase da vida que parece espelhar o desastre esmeraldino nos gramados, aquela adolescência dura, insegura, ociosa, as grandes descobertas que a gente vê depois que não eram nada de mais, enfim. Este é o romance definitivo do nosso jejum de títulos, e me fez rir muito, mas chorar um pouco também. O nome é perfeito: 'Coadjuvantes' é a transformação de uma história maldita em um tempo bom, usando, claro, uma dose de piedade e outra de doçura.


Ponto alto: em certo momento da juventude e já com anos acumulados de fila, o personagem principal, junto de um amigo, decide montar a sua própria torcida organizada, algo que muitos de nós também já pensamos em fazer. O desastre começa já na confecção da faixa, no uso das tintas, na medição das letras, e a "estreia" da torcida acontece em uma jornada no Pacaembu que atiça o lado supersticioso de qualquer torcedor, já que os acontecimentos em campo estão diretamente ligados ao posicionamento da faixa. Não é preciso dizer que não foi neste ano que o Palmeiras saiu da fila...



Alma Palestrina
Fernando Galuppo
Editora Leitura, 2009


Ilustração
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Heitor, o maior artilheiro da história do palmeiras, atuou pelo clube também nos quadros de basquete, tênis de mesa, vôlei e atletismo. Este livro é a biografia deste personagem sui generis, nossa primeira unanimidade, que, ao longo da década de 20 e rasgando também os anos 30, fez juz ao título escolhido por Galuppo: 'Alma Palestrina'. Galuppo, um querido amigo, mostra no livro, mais que Heitor, um bom pedaço de si. As páginas são carregadas de adjetivos, exclamações, emoção, mas também o máximo possível de informação, fichas detalhadas, ano por ano, ordenamento de fotos, o que faz da história, que por vezes esbarra no surreal (Heitor fez muita, MUITA coisa), também um excelente e fácil material de pesquisa a respeito de campeonatos disputados naquela época.


Ponto alto: eram outros tempos. Heitor atuava pelo Palmeiras, mas também era árbitro dos campeonatos! E, pasmem, foi ele que, em 1921, beneficiou imensamente o Corinthians em um duelo contra a A.A. Palmeiras, que seria a equipe cujo nome inspirou o Palmeiras em 1942 ao abandonar o "Palestra". Ele redigiu uma carta aos jornais explicando e assumindo o erro, foi interpretado como um árbitro digno de confiança, mas seu erro causou muita confusão. Então durmam com essa: o maior artilheiro da história do Palmeiras já apitou e "roubou" a A.A. Palmeiras e favoreceu o Corinthians em uma partida. Quer mais? Foi ele quem apitou o jogo de abertura do Pacaembu.



1942: O Palestra Vai à Guerra
Celso de Campos Jr
Realejo, 2012


Ilustração
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Celso de Campos Jr, a quem tive uma breve chance de conversar sobre Palmeiras em um dia de aniversário do clube, consegue fazer a gente mergulhar em 1942 de um jeito assustador - pela imersão detalhada e pela história contada. Muito se combate, hoje, o que para os detratores era um exagero conspiratório dos palestrinos - mas também não parecia uma fantasia exagerada que um time fosse obrigado a mudar de nome? O livro enfileira detalhes sórdidos de tudo que envolveu 1942, não só no Palmeiras, não apenas no futebol paulista, muito além do futebol brasileiro, tocando o governo do país, viajando à Europa para sentir o cheiro de pólvora da guerra e caindo, de um segundo para outro, na entrada em campo de um Palmeiras disposto a ser campeão paulista logo em seu primeiro jogo sob esta alcunha. Sobram relatos jornalísticos da época, as ilustrações são belas, e a gente passa a conhecer tramas até então ocultas de uma época bem esquisita de nosso futebol recém-profissionalizado.


Ponto alto: é muito controversa a história envolvendo o terreno onde hoje é o Canindé e o esforço do São Paulo F.C. em ter um estádio para chamar de seu. A Associação Allemã de Esportes, dona do Canindé, foi, por conta de sua origem, destituída de seu patrimônio através de um processo que reunia alguns vícios de origem, já que nas secretarias responsáveis pelo remanejamento do terreno haviam diretores de clubes, notadamente do São Paulo, o que deixava turva qualquer decisão a respeito, por conflito de interesses. O detalhamento desta história no livro faz a gente entender de onde veio o "delírio" palestrino em forma de medo de que acontecesse o mesmo com o nosso estádio. Vale ressaltar que a Rádio Record, cujo dono era Paulo Machado de Carvalho, de intensa ligação com o São Paulo, também faz parte desta trama que vale ser lida - sem carregar no maniqueísmo, os fatos já são suficientes.