A garganta e o pescoço do Cuca

O Cuca que o Palmeiras quis não era o que o Palmeiras precisava. Foi contratado porque a torcida o desejava. A conquista nacional estava fresca na memória, a diretoria morre de medo de se tornar ainda mais impopular do que já é, e decidiu atender os pedidos de sua coletividade. Até aí, nada de muito novo no front, diretor de quase time nenhum entende alguma coisa de futebol, é muito fácil atender a massa, e o atual presidente, além de nada entender, tem no cangote os olhos estalados do casal Crefisa, disposto a pagar dinheiro além do que o contrato prevê, para tentar transformá-lo no que ambos, Galliote e Leila, desejam: aceitação popular, algo que está amarrado de alguma forma ao nosso desejo, que é levantar taças.


Embora o Palmeiras tenha jogado muito pouco contra times sem treinador ou com treinadores estreantes, como foi contra Inter e Santos, ainda dá para falar em começo de trabalho, ausência de pré-temporada e tempo entre os jogos para trabalhar a equipe. Discordo desta tese pelo seguinte motivo: Cuca já está entregando o que dele se espera. Nunca foi promessa de Cuca encaixar um time de futebol dinâmico, objetivo, bonito. Após fazer, por pequeno período de tempo, um Botafogo vistoso e um Cruzeiro lindo, Cuca ainda era sinônimo de derrota e choro no país até quatro anos atrás. Seus times não venciam coisas importantes.


Então veio o Atlético-MG de 2013, campeão da Libertadores. Time que encarnou o espírito do "Galo Doido", que consistia em atuações elétricas, intensas, corridas, mas pouco pensadas. Mesmo com Ronaldinho Gaúcho, o time investia mesmo no balão para o Jô, lançamentos para Bernard, laterais na área de Marcos Rocha e um Diego Tardelli em estado de graça. E isso a gente via sobretudo nos jogos em casa. O Galo esteve por um fio quatro vezes na competição. Todas como visitante. Lúcio, expulso de bobeira, os ajudou no Morumbi, nas oitavas. Um empate agônico no México melhorou tudo nas quartas. Newells na semi, e Olimpia, na final, meteram 2x0 como mandantes, com gols nos finais dos jogos inclusos. Sem contar o pênalti do Riascos. O Galo flertou com o precipício mais do que deveria. Deu certo, mas quem viu, viu.


Discurso


"Nós temos que tentar olhar onde é que nós erramos, porque é que nós erramos, pro jogo do dia 16, e caprichar, pra que a gente chegue lá e possa fazer com eles o que fizemos com todo mundo: sair dando em cima deles, pegando, amassando, dalí a pouquinho é um, é dois, e tchau, entendeu? Agora, não podemos aceitar, dizer 'ah, tá tudo bem', não, não foi bem, mas tá dentro daquilo que a gente podia fazer (...) temos que sair daqui acreditando".


Este foi o discurso de Felipão nos vestiários de Cali após a derrota por 1x0 na final da Libertadores de 1999. Fé, mas crítica. Confiança, mas correção. Pelo amor de Deus, parem de fugir das críticas como o Diabo foge da cruz. Elas são necessárias, e, no caso, justas. Cuca, inclusive, adora conviver com elas, já que um de seus principais recursos é criar a narrativa do inimigo externo, a política do calar a boca de quem não acreditava.


"...É dar uma pressão, é 30 mil no nosso estádio, nóis vamo virar, pode ficar tranquilo, tá legal? Parabéns pra vocês, legal...como é que é? (alguém fala "tamo junto" ao fundo) Até o fim. Até o fim".


Este foi o Felipão em Nuñez, após a derrota por 1x0 para o River Plate, na semifinal. Fomos amassados, Marcos fez seu melhor jogo, e o elenco recebeu um parabéns de um treinador convicto. Ou seja, perder a ida em casa não é um problema imenso quando você está seguro, pronto, em sintonia com seus jogadores. Me pergunto se é o caso de Cuca com seu elenco atual.


Prancheta


O discurso otimista entre jogos de ida e de volta não é novo. No entanto, aquele Palmeiras inspirava mais confiança que este - era mais time. Cuca tem tomado decisões discutíveis. Nas derrotas para os rivais Santos (Zé Roberto na meia) e São Paulo (Felipe Melo de 3º zagueiro), um Palmeiras paralisado só agiu quando ficou atrás no placar. Contra o Barcelona no Equador, o Palmeiras foi o time do Cuca: voltou do vestiário disposto a não jogar nem deixar que jogassem - mas deixou, e muito. Decisão pobre, placar ruim, só dois visitantes perderam nestas oitavas e fomos um deles. As vitórias contra Bahia, Atlético Goianiense e Ponte Preta, adversários bem mais fracos, nos colocaram lá em cima na tabela e são o ponto positivo da trajetória de atuações claudicantes.


O 3x3 com o Cruzeiro, emoção à parte, não foi, não é, suficiente, sobretudo quando nosso parâmetro de mata-mata com o Cuca é a covardia calculada (?) como visitante e a loucura desmedida como mandante. Sem resultado diante de tão irrefletida estratégia, nada sobra para elogiar, e foi o caso. De modo que ainda esperamos a consistência e os resultados dos times pensados por Cuca. A pobreza na forma de pensar o futebol faz parte do pacote Cuca, e nisso nunca mentiu ou enganou a gente. O campeão de 2016 jogou bom futebol por um curto período de tempo, e foi estritamente competitivo na maioria do tempo - o que não é necessariamente um ponto negativo, ano passado foi um ponto positivo, inclusive.


Com um acréscimo: suas decisões e, agora falo como jornalista, o que já se ouviu do próprio técnico, indicam que ele não acredita em Borja. Não importa o que a torcida pense, apoie ou critique. O treinador, no dia-a-dia, sem influências externas, não parece satisfeito com o seu atacante mais caro, já disse isso a gente de fora, e a atividade palmeirense no mercado em busca de um centroavante só corrobora com isso. É, mais que um pedido, um apelo de Cuca. Ele também parece em conflito com as duas laterais, o que é perfeitamente compreensível dada a nossa má atuação no mercado para reforçar o setor, e decidido a não apostar em uma juventude que pede um pouco de moral - quando prefere Zé Roberto a R. Veiga na criação, dá a entender sua hierarquia. Base, nem pensar. 


O Palmeiras tem urgência de vitória no dérbi de quarta, uma missão duríssima no Mineirão pela volta da Copa e a necessidade de um jogo consistente, em que tomar um gol será desastroso, contra o Barcelona. Entre estes três passos, jogos "fáceis" contra Vitória em casa, e "difíceis" contra Flamengo fora. Durante este tempo todo, pouco respiro. Os dispostos jogarão suas muletas para Cuca seguir defendendo a lógica estranha de um futebol mal jogado e decisões mal tomadas. Eu acho que Cuca merece a cobrança. Domingo, contra o Cruzeiro, houve quem considerasse uma boa atuação, mas só criamos via cruzamentos. O gol que tomamos, o primeiro, foi em uma jogada de infiltração simples, mas rara por aqui. O sistema defensivo muda todo jogo e falha sempre. Falta muito.


E não compro o discurso da falta de tempo, pois a crueza das atuações é deliberada na maioria das vezes. É uma opção, não uma condição. Creio que são poucos os palmeirenses satisfeitos com o que este time entrega, e muitos os que sentem medo de cobrar. Dá para ser na marra. Com Eduardo Baptista, foi aos 55 do segundo tempo, mais de uma vez. As viradas na Vila Belmiro pelo estadual e em Montevidéu sobre o Peñarol não são explicáveis por vias lógicas. Mas será que é assim que a gente tem que ir? Nunca é a hora. Ano passado não importava o jeito, era o jejum. Hoje de novo não importa o jeito, pois é a obsessão. Acho função nossa dizer que o jeito importa, sim. E o resultado também. Enquanto a bola rola, a gente aceita tudo se vier o resultado. Mas Cuca foi muito desejado para ser poupado de uma avaliação séria enquanto a bola não rola. Então, Cuca, menos desculpas, mãos à obra, e vamos Palmeiras.