Parmalat a Leila: do jejum a um Palmeiras sem ideias

Terça-feira, 7 de abril de 1992. A capa da Folha de S. Paulo bate na gente e estampa: "Palmeiras empata e mantém lanterna". O empate, em casa, em 1x1 contra o Santos, nos deixou na última colocação do Brasileiro, empatados com o Galo Mineiro e o Paysandu. Na foto que ilustra a reportagem, Paulinho McLaren tenta driblar nosso camisa 3, que aparece de costas e é o zagueiro já falecido Marques. Um dos últimos retratos da camisa esmeraldinha com o patrocínio da Coca-Cola, até hoje um xodó para colecionadores.


Naquele mesmo dia, o clube assinou o contrato com a Parmalat - se é que assinou mesmo, já que existe a lenda de que a relação de confiança era tão grande que o papel nunca foi de fato assinado. O dia 7 de abril, aliás, foi mesmo agitado: Facchina, nosso presidente, foi suspenso naquela noite por 50 dias pela tentativa de agressão a Márcio Rezende de Freitas em um recente Palmeiras x Vasco. No dia 9, deu na mesma Folha de S. Paulo que o acordo Palmeiras/Parmalat não era muito bom: "em termos financeiros, o acordo firmado anteontem é o menor entre clubes de São Paulo. Durante três anos, o Palmeiras receberá U$1,5 milhão, ou 42 mil mensais. O Corinthians recebe 60 mil por mês da Kalunga e o São Paulo 83 mil mensais da IBF". A Coca-Cola pagava, vejam a diferença, 16 mil dólares por mês ao Palmeiras.


Gazeta Press
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O Palmeiras de 1992, longe de ser uma seleção


97% do conselho foi favorável à chegada da Parmalat (220x6 no placar deliberativo), e o jornal ouviu um membro dos 3% contrários ao acordo. "Foi um péssimo negócio", disse Roberto Gobbato. Pois bem. Uma vitória matinal sobre a Lusa no domingo nos tirou da lanterna, e só nos últimos dias do mês veríamos detalhes do acordo com os italianos, incluindo a nova camisa, listrada, verde clara, que estreou dia 26 de abril de 92, Palmeiras 1x0 Cruzeiro. A Parmalat, é bom lembrar, não veio só para o Palmeiras. Patrocinou Boca Juniors, Peñarol e Universidad Catolica de Chile, outras equipes entre as maiores de seus países. Era um desejo continental de exposição de marca - no escândalo que prendeu os líderes da multinacional na virada do século, não encontraram irregularidades na relação com nenhum dos 4 clubes.


Os primeiros meses foram de adaptação, e os outros oito anos foram de sonho - mas um sonho com um preço, econômico e conceitual - até a parceria acabar naquele polêmico e muito mal apitado Palmeiras 3x4 Vasco de 2000, ano em que o mesmo Vasco, sabe-se lá como e porquê, jogou o mundial de clubes no lugar do campeão da américa de 99. De 1993 em diante, compramos quem queríamos. Se o Rivaldo estava no Corinthians, não tinha problema, a gente pagava. Se Roberto Carlos não jogara em time grande nenhum, pouco importava. Se Edmundo custava 1,2 milhão de dólares, quase a totalidade do que a Parmalat daria ao Palmeiras no triênio, e daí? Era só pegar dinheiro do cofre da empresa.


O Palmeiras fez o time de 93-94, depois fez o mágico esquadrão de 96 e terminou por montar o de 98-99, este último bem diferente dos dois primeiros, em nome de um desejo maior: a Libertadores. Felipão bancou a troca de perfil das contratações, montando um Palmeiras mais duro, mais físico, embora ainda com traços técnicos preservados. Deu certo, mas deteriorou a qualidade do elenco a médio prazo.


Enquanto isso...


Também em 1992, em Manchester, a base do United enchia os olhos do manager Alex Ferguson, que, ao assumir pouco antes, determinou a multiplicação de olheiros do clube para garimpar jovens. Daí surgiu o grupo chamado por lá de "Classe de 92", formada entre outros nomes por Scholes, Giggs, Beckham e os irmãos Neville. Quando deu tudo errado em 95 para o Manchester, e havia dinheiro para trazer Roberto Baggio e outros craques, Ferguson freou as boas intenções dos cartolas ricos: bancou o grupo, manteve o espaço para a molecada e teve paciência com ela. A Inglaterra dos anos 90, machucada com uma cinzenta década de 80 com Margareth Thatcher no poder, via o reflexo no futebol, clubes suspensos da Uefa, hooligans no auge, enfim, a década de 90, da princesa pop Diana, das Spice Girls e do Oasis tinha na Premier League com estádios reformados e maiores e no Manchester campeão de tudo uma tradução possível do momento do país.


Não era a mesma coisa com o Palmeiras rico em uma época de impeachmeant, mudança de moeda, tudo aquilo que você sabe. O alviverde era uma bolha no mercado e foi protagnista do aceleramento da inflação dos valores praticados no futebol brasileiro. A despeito de todo o dinheiro que tinha, nem por isso a gestão foi exatamente boa, e isso serve para quem não aceita discutir o legado de Paulo Nobre, por exemplo.


De modo que quando Palmeiras e Manchester se encontraram em Tóquio, em 1999, confrontavam-se também dois modelos de futebol dentre vários possíveis, ambos de alguma forma iniciados em 1992 e com objetivos comuns claros: o topo. Enquanto os garotos de sete anos atrás se tornaram homens vestindo vermelho, o Palmeiras, que tinha por exemplo Evair, homem que viu de perto e de um ângulo nada agradável o Palmeiras pré-Parmalat, optou por aquilo que era da natureza da Parmalat: gastar. Pagou por Asprilla, que mal sabia de que cidade era o Palmeiras.


Não quero fazer juízo de valor sobre os dois modelos. Porém, me parece que venceu, em Tóquio, o formato mais orgânico de se tratar o futebol. Algo que o Palmeiras não podia se dar ao luxo de fazer na época, diga-se. Mas a reflexão cabe, sim, e mesmo assim.


E qual é?


A primeira coisa é: se você vai usar muito, muito dinheiro, esqueça essa ideia de que vai dar certo imediatamente. Pode dar, como deu ao Corinthians em 2005 com aquela estranha MSI, mas os exemplos do contrário são esmagadora maioria. A Parmalat demorou sete anos para alcançar seu objetivo maior. Não foi soberana no cenário doméstico. Montou ao menos três times diferentes nessa época. Não é gastando mais, e mais, e mais, que esse período se abrevia. Claro que o futebol desdiz quem algo diz e surpreende quem dele duvida, mas você não trata como obsessão uma primeira experiência internacional de um time formado agora.


E formado com vários buracos, é bom dizer, atendendo a diversos caprichos individuais. O perfil do elenco montado é discutível, de Michel Bastos, tentativa palmeirense de ser heróico e mudar um ser humano sem comprometimento, a Raphael Veiga, o meia promissor que só recebe promessas de que jogará como meia. Não acho que é Cuca o homem que tem em mente exatamente o que queremos do futebol nos próximos dois ou três anos - até porque vive de namorico com as tais propostas da China. Seguimos sem uma ideia clara de uso do que temos. Parecemos um marido que, sem saber como falar a palavra mágica que restaure o amor, opta por encher a esposa de jóias. Pensar ainda é de graça, embora Cuca ganhe muito bem para isso.


Isso esquecendo a base, que simplesmente não tem o menor espaço no clube. Vitinho é a sexta opção e, quando chega a vez dele, o time prefere mudar o esquema tático a usá-lo. Iacovelli só jogou poucos minutos porque foram embora todos os atacantes, e aqui acaba a relação, embora jovens em formação vindos de outros times, como Róger Guedes, às vezes são bem-vindos. É, eu realmente não entendo esta parte, mas a pensata que proponho é a seguinte: estamos dispostos a, com todo este dinheiro que temos, pensarmos em um Palmeiras que jogue o mesmo futebol por três ou quatro anos, mantendo os mesmos principais jogadores? Temos dinheiro pra isso, mas temos disposição? Se a reação for tardia e insuficiente no Brasileirão e não vier a taça continental, estamos dispostos a pensar um 2018 jogando Sul-Americana sem xilique?


Porque é burrice entrar no jogo de futebol sem considerar o que fazer se tudo der errado, e mais estúpido ainda achar, quando algo dá errado, que é só trocar tudo de lugar. Nessas horas de revés, quem tem uma ideia clara do que quer da vida se recupera mais cedo. Tendo dinheiro, melhor ainda. Mas às vezes eu acho que os dirigentes do Palmeiras não fazem a menor ideia do que querem da vida. "Ser campeão" todo mundo quer. A resposta demanda um pouco mais de reflexão. A torcida, gritando pelo "mago" carente perto do desemprego, bancando o lateral que só representa o passado, mas não o presente e nem o futuro do clube e querendo o nome da moda em cima do nome da moda, mesmo que esteja na China, nos Emirados, na putaquepariu, não ajuda muito.


Não que eu ache que somos um time para ganhar a Libertadores só em 2024. Não estamos formando base para tal, e o exemplo de Manchester só serve para ilustrar um outro caminho possível que saia dessa loucura de passar os 365 dias do ano monitorando jogadores que ganham meio milhão por mês, enquanto não temos um lateral esquerdo há dois anos. Quarta que vem os confrontos continentais serão sorteados, renovaremos nossa ansiedade, lembraremos que a organização da Libertadores nos sacaneou e tirou nosso torcedor dos jogos fora de casa e vamos, claro, enxergar a chance de ganhar. A imprensa vai voltar a dizer que o elenco é um dos melhores do país (nunca foi tão elogiado, o Palmeiras, por esta imprensa "antipalmeirense") e o segundo jogo será de estádio lotado e temperatura alta. Ótimo. Que dê tudo certo. E se não der?


Se não der, bem, 2015 e 2016 foram tão vitoriosos que, puxa, eu aguento a frustração. Não estou em jejum. Só não aguento arrogância, e esta eu não banco. Deste Palmeiras sem norte e soberbo eu não banco a derrota. Fizemos dois ou três jogaços no ano. Só. E temos o dinheiro que anos atrás achávamos que não teríamos nunca mais. Um dinheiro que pode sustentar uma ideia de futebol longeva, com contratos responsáveis, com decisões que não sejam imediatistas e desesperadas, com atletas que sejam como Prass, e não como Asprilla, ou seja, que saibam ondem estão. É este o Palmeiras que eu quero. Não o Palmeiras que põe as costas na parede e só diz "sim" a Leila, cuja entrada nas artérias políticas do clube são bem diferentes, por exemplo, da entrada da Parmalat. Mas isto a gente discute depois.