Um pulmão a menos: a luta e a lição de Lucas Neres

Vou, pra sempre, bater na tecla e me manter repetitivo para, assim, compensar o pouco que se sabe e fala sobre: em pleno ano do centenário do Palmeiras, foi no ginásio, com o time de basquete, que nossa dignidade encontrou morada. Perto do rebaixamento, o time de futebol, que milagrosamente escapou sem merecer, nos machucou mais que os elencos rebaixados e encerrou o primeiro mandato de Paulo Nobre representando exatamente o que a gestão era até então: uma vergonha. O inferno eu topo, mas nunca mais aquele 2014.


Em 2014, Lucas Neres tinha 16 anos. O menino, de Planaltina-DF, era apaixonado pelo Palmeiras e adorava basquete. Lucas nasceu com uma doença respiratória que lhe tomou todo o pulmão esquerdo e 75% do direito. Usava um balão de oxigênio, carregado por alguém, geralmente sua mãe. Precisava de um transplante com urgência, no Canadá, único lugar onde a delicada cirurgia acontece, e para isso seriam necessários trezentos mil dólares, algo como o salário mensal do Barrios, ou mesmo agora do Cuca. O basquete do Palmeiras tentou ajudar, e o menino visitou inclusive a academia de futebol, quando esteve em São Paulo.


Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

Lucas Neres homenageado pelos jogadores


Lembro de quando o cumprimentei, em jogo, acho, contra o Goiânia. Lucas era, naturalmente, de aparência muito frágil, e sua mão apertou a minha quase sem força. Lembro que o sorriso era imenso no rosto dele, e os olhos se mexiam como se mexem os olhos dos mais astutos. Uma breve conversa e percebi que ele tinha bom vocabulário e muita educação. O vi outras vezes, não sei se duas, talvez três, naquele ginásio. Lucas aparentava cansaço e tinha carisma, o danado. Sereno, sempre, e grato, falava "obrigado" pra todo mundo. Mas - fazer o quê? - a arrecadação conseguida nos jogos do Palmeiras, que separou a renda para ele, não passou dos 5 mil Reais, talvez 1% do salário de um jogador de futebol que fala na sexta-feira que o treinador antigo o usava fora de posição, mas no domingo atua em três lugares diferentes cheio de vontade.


O que eu repito, na verdade e sem trepidar, é que a mais aquecedora, arrebatadora, emocionante, humana e inesquecível fase de minha vida como torcedor do Palmeiras foi enquanto o basquete profissional existiu. A fuga que o ginásio oferecia, sem a necessidade de tratar o posto mais alto do mundo como uma obsessão, sem a megalomania que a gente reproduz na vida para fabricar frustrações de medio e longo prazo, com gente de verdade em quadra, e após os jogos, sem medo da torcida e do clube, sem pressa de ir pra casa, e digno apesar de tudo, e forte enquanto o futebol, na época sem casa, nos negava sinais básicos de saúde. Era tão frágil o Palmeiras, é tão frágil a vida.


É tempo de agradecer cada jogador de nosso basquete, pelo que ajudaram, emocional ou financeiramente, e também abraçar cada torcedor que fez o que pode para que esta história chegasse o mais longe que desse, a Vanessa (que o fez encontrar São Marcos!), o Pepe, o Jairo, todos. Lucas Neres, 20 anos completados dias atrás, morreu ontem, dia das mães, e que mãe foi Dona Irani, guerreira humilde que fez tudo que era possível para seu menino sonhar um pouco enquanto vivo - e esta foi a parte do Palmeiras em sua vida. Enquanto o Palmeiras jogou, deu tempo do Lucas esquecer um pouco o desafio que era o simples ato de respirar. Logo o Palmeiras, que nos tira o fôlego aqui e ali.


A história é essa. Um carinha bacana que amava o Palmeiras não conseguiu 300 mil dólares para viver mais do que 20 anos e dez dias. Olho a folha salarial do Palmeiras, e me perdoem se fizer as contas. Deixem que só hoje eu questione para que serve dar 400, 500, 600, 800 mil por mês a qualquer profissional de qualquer ramo de atuação, sobretudo se este profissional só guarda, só acumula, mas nada pratica em nome de algo comum àquilo que lhe deu a chance de ser milionário. Hoje eu me permito este julgamento.


E com uma frustração que me amarra o coração, lamento e sigo em frente. Quem chegou até aqui conheceu uma história nova, a do Lucas Neres, um dos nossos, e isso aqui, me disse o editor quando me convidou, é um blog para torcedores, é de torcedor que eu quero falar, então tá aqui, Lucas, torcedor Lucas, tá aqui família Neres, o registro, é o que posso fazer em nome de vocês, pra essa história ficar um pouco mais conhecida, não tive muito dinheiro para dar, e vocês devem achar uma calça cor-de-vinho bastante cara, mas agora nada disso importa mais.


E que o clube ajude o próximo. Sempre. 

ps.: meu abraço sentido e especial ao amigo Bruno Graziano, que também precisou dar o adeus mais difícil da vida neste final de semana.