A evocação poética de uma lenda chamada Jaílson

“Um dia eu vou ser goleiro do Palmeiras”.


Lembro de ter conhecido o goleiro na Academia de Futebol do Palmeiras durante alguma tarde tranquila do ano passado em que caminhávamos confiantes (e quase que tranquilos) rumo ao título. O treino estava chegando ao fim, Dudu era o goleiro (imaginem essa cena) e Jailson chutava ao gol. Todos sorriam. Prass corria separado naquele incessante empenho de voltar para o time. Fiquei sorrindo durante aqueles minutos em que única sensação que tinha é a de que seríamos campeões. O ambiente era bom. A gente sabe quando a hora chega.


Alguns jogadores caminharam para fora do treino. Jailson saiu, sorridente, e parou na grade ao lado de onde eu estava. Apoiou as mãos, se inclinou quase com um cansaço pós-treino e diminuiu a formalidade de forma amistosa.


Fomos apresentados e começamos a conversar:



- E aí, vamos ser campeões?
- Com certeza, ninguém ganha da gente, não.
- Disseram que você vai pular o muro, hein?
- Tão dizendo, é? Hahahaha! Cê tá maluco, eu sou Palmeirense. Não saio daqui não. Se não me quiserem mais, vou jogar em algum clube longe daqui, mas não pulo o muro nem f*dendo. Além do mais, a rapaziada viria atrás de mim (ele se referia, provavelmente, a alguns amigos).



A primeira vez em que Jailson esteve debaixo das traves, eu olhava atentamente pra cada movimento que ele fazia. A explosão nas bolas, a atenção, a movimentação dos jogadores e a prontidão em saltar, sem hesitar, em qualquer bola que viesse em sua direção. Era quase um receio meu a dedicação em avaliar o novo goleiro. Me parecia inconcebível que mais ninguém acertasse a mão naquele gol. Depois de uma falha da defesa que exigiu sua primeira demonstração de competência, ele levantou, bateu as luvas uma contra a outra e saiu gritando com os seus marcadores. Existia uma revolta nos gritos.


A luz acendeu de novo. Tínhamos um goleiro. Aquela atitude era coisa de gente que sabia agarrar as oportunidades que apareciam. Sempre nos referimos à escalação do goleiro ao centroavante, subentendendo que ele é sempre o número um. Naturalmente se espera liderança do jogador que tem a melhor visão da partida.


Diz a vó de Jailson que, antes mesmo de falar direito, ele já confessava seu desejo pelo destino entre as nossas traves, sem ao menos saber se um dia chegaria.


Quando jogador do Guaratinguetá, pedia ao nosso lateral Wendel que desse camisas oficiais e chuteiras do Palmeiras, sem nem imaginar que o seu nome estaria estampado em uma delas um dia, enquanto a torcida viria a gritar o seu nome.


Em sua volta, este ano, foi o melhor jogador da partida, tornando o Ninho do Urubu, definitivamente, um ninho. 


O fato é que a lesão do Jailson é rara como encontrar um goleiro tão torcedor que seja incapaz de perder dentro de campo.


Se ele esperou durante 33 anos a sua hora chegar, a gente espera o tempo que ele precisar para voltar. É uma questão de gentileza com o destino. 


#ForzaJailsãoDaMassa


Gazeta Press
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