Palmeiras: dissecando um ano que já nasceu morto

A última vez em que fui plenamente feliz com o Palmeiras, o time se comportava como um grupo de operários que se dedicava ao sucesso da instituição. E pouco se falava sobre ambiente. O capitão do time ainda apresentava um futebol decisivo e a sua menor preocupação era em, sutilmente, pedir a volta do ex-presidente pelas redes sociais. A obrigação da camisa 7 estava em dar o tom ofensivo de um ataque eficaz, não a voz para uma desordem externa.


Para mim, hoje, Dudu é a tradução do que nos tornamos. Apesar da capacidade em resolver o placar em uma jogada, durante os 90 minutos de muitas outras partidas deste ano ~esquisito~ ele mal é foi visto em campo. Sua grande virtude em prender a bola e conseguir faltas ao nosso favor se mostra desnecessária diante do fato de que não temos bons cobradores. 


Não é pessoal, respeito a dedicação à camisa, mas futebol é resultado, e tudo o que vejo dos jogadores que deveriam ser um diferencial é um pouco de omissão. Mas, é claro, fato do capitão representar meu descontentamento não o torna responsável.


Dito isso, é necessário admitir que na busca incessante por culpados que possam explicar este 2017 desastroso, estamos completamente envolvidos emocionalmente com as questões dentro e fora do campo. E, por tal motivo, a desatenção nos impede de olhar o cenário geral e avaliar o que aconteceu no intervalo entre dezembro e começo de fevereiro - que deu início a tragédia que se consumou na eliminação da libertadores.


Gazeta Press
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Do goleiro ao centroavante, onde erramos?


A troca de técnico


O ano começa a se direcionar ao parapeito do 39º andar do prédio quando Cuca anuncia a sua saída após a conquista do enea. Apesar de desavenças com alguns jogadores por conta de seu temperamento difícil, é como abandonar um filho que mal aprendeu a andar sozinho. Um planejamento que demoraria alguns meses para ser pensado e trabalhado foi, repentinamente, resolvido em 15 dias (o intervalo até a chegada do novo técnico).


Um time com presunção de campeão tem que se adaptar, à força, às metodologias de um recente profissional desse mercado. Diante de um elenco caro, mimado e uma torcida imediatista, os resultados não vêm, torna-se um ambiente insustentável e todas as escolhas feitas pela nova comissão técnica se desfazem com a volta do antigo treinador (que há poucos meses havia entregado o cargo e destruído o planejamento). Novamente, quase no meio do ano, é hora de começar o planejamento do zero: com jogadores novos e uma desorganização que nos traz más recordações do longínquo ano recente.


A diferença é que o técnico que foi recebido aos cantos pela torcida não demonstrou nem um fragmento do dedicado e motivado treinador que garantiu o título brasileiro após 22 anos. Com muito respaldo que lhe foi dado, hoje, pergunto: nos entregamos nas mãos de quem?


Jaílson (Fernando Prass)


Se equipe vencedora conta com um pouco de sorte ou fatos inesperados. A grata surpresa foi encontrar um terceiro goleiro com gana e qualidade para se manter invicto até o ano atual. Sem ter disputado a série A do nacional, Jaílson, após a lesão do Prass (em seu melhor momento pelo Palmeiras e convocado para a seleção Olímpica), se mostrou, naturalmente, um líder em campo. Explosão, precisão e dedicação debaixo das traves.

No último jogo de 2016, como se era esperado, Prass retorna a sua vaga de titularidade. Simbólico e comemorado. A torcida e a comissão técnica só não imaginavam que a sombra do Jaílson se faria tão presente a ponto de colocar o goleiro no banco novamente.

O campeão de 2016 volta tão bem quanto saiu e mantém a invencibilidade, mas se machuca (com todo o azar que tem se apresentado ao elenco de 2017). Ironia do destino ou não, voltamos a perder. A impressão às vezes foi de ter dois grandes goleiros e ao mesmo tempo nenhum.


Zagueiros (Vitor Hugo e Mina)


Vitor Hugo e Mina se encaixaram como dupla do eneacampeonato e com muita presença de área era possível garantir as vitórias sem depender de um futebol bonito. Com características diferentes, eles quase se completavam. V. Hugo apresentava um estilo mais agressivo e prezava, inclusive, pelos botes (in)seguros dentro da área em um último instante. Mina dedicava-se na marcação com a força física e qualidade de saída. Vantagem? Mina tem algumas falhas graves, principalmente quando apenas cerca o atacante adversário dando tempo para ele abrir e bater no gol. Vitor cobria essa sobra por ser extremamente dedicado dentro da pequena área.

Em 2017, nosso zagueiro canhoto que desempenhava muito bem seu papel na nossa área e na até na área adversária fazendo gols foi sacado após alguns falhas e cobranças da torcida. Algum meses depois foi vendido.

Ao lado de Mina é possível ter Luan (que passou um bom tempo em recuperação), Thiago Martins, Antônio Carlos (destaque do Brasileiro 2016) e Juninho (idem). Não parece improvável que, com tantos zagueiros, a comissão técnica não consiga encaixar uma dupla que não tome gols de bolas aéreas? Acontece que nossa parte defensiva se quebra tão facilmente que o time adversário sempre ataca com um número maior de jogadores do que temos na defesa.

Sem acertar a mão, com o Mina se lesionando e a diretoria preocupada em trazer um atacante, não encontramos a dupla ideal para a reconstrução da parte mais importante de um time hoje e num campeonato como o Brasileiro: a defesa.


Laterais (Zé/Egídio e Jean/Fabiano)


Não é novidade que as laterais do Palmeiras não eram a nossa melhor qualidade nem no elenco campeão. Acontece que o time era bem treinado defensivamente e os volantes e zagueiros ajudavam, quase que harmonicamente, a cobrir as falhas da área lateral do campo. Gabriel era preciso como primeiro volante, os desarmes já ajudavam a construção do ataque devido à boa qualidade de saída de bola. Na falta do camisa 18, Thiago Santos, tranquilamente, assumia a posição e não deixava a bola passar - mesmo que isso lhe custasse o corpo do jogador adversário.


Como segundo volante-meia-lateral-cobrador de tudo, Moisés já recuperava a bola e reconstruía o ataque tabelando com o Tchê Tchê, que, na época, incrivelmente veloz e incansável, se apresentava para o jogo correndo por todo o campo distribuindo a bola com toques de primeira que garantiam um tempo ainda maior para o atacante fazer a jogada, antes de chegar a marcação.


Com o meio campo defasado, nossas laterais se tornaram mais expostas e os erros, mais perceptíveis.


Volantes/meias (Gabriel/Thiago/Moisés/Tchê Tchê)


Desastre 1: Moisés se lesiona e perdemos nosso melhor jogador. A esperança do meio campo de 2017 fica em cima do Guerra - que chega sem condições para ser titular durante 90 minutos e, em campo, claramente sente falta de um apoio de criação. Perdemos a individualidade que fora o grande trunfo do ano anterior.


Desastre 2: Tchê Tchê cai de rendimento nas únicas coisas que faz bem no futebol: tocar a bola e se movimentar.


Gabriel é entregue ao rival (sem apresentar o melhor do seu futebol), enquanto Felipe Melo é recebido aos gritos pela torcida no estádio. Entre as desconfianças e dúvidas, sabemos como terminou: sem o “pitbull, cachorro louco” apresentar um terço do futebol esperado, perdendo a vaga pro Thiago Santos e afastado do grupo. Guerra chega, não à toa, como melhor jogador da América e apresentando seu futebol classe que dá prazer de assistir - mesmo que em uma derrota. Mas, como eu disse acima, sozinho nada pode ser feito.


Diante do cenário, nos colocamos atrás do Bruno Henrique na esperança de ter um primeiro volante seguro e com saída e bola novamente. O dinheiro continua rodando pelo mercado do futebol. É só pedir.


*Michel Bastos, Arouca, Veiga, Hyoran se mostram coadjuvantes de um elenco inflado e pouco utilizado, incapazes de aproveitar qualquer oportunidade como titulares.


Atacantes (Borja, Dudu, Erik, Keno, Guedes, Willian)


Difícil apontar para os atacantes quando, durante a maior parte do ano, passamos fazendo chuveirinho na área ou cruzando bolas (não efetivas) das laterais do campo. A base do ano anterior já havia sido desmanchada.


Sem um meio campo de criação, nossos atacantes ficaram separados por um espaço do campo em que a bola nunca chegava. Por isso, prefiro expor, exclusivamente, a questão Borja.


Apesar da aparente dificuldade emocional e psicológica de Borja se firmar como camisa 9, o esquema tático de Cuca nunca ajudou a desenvolver mais caro da América do Sul, que o jogador poderia entregar de melhor: os gols de dentro da área. O colombiano não é craque, mas poderia ser um excelente finalizador, se não houvesse uma teimosia demasiada em insistir em formação que não auxilia no trabalho. Dadas as devidas proporções e considerando as lesões que modificam o cenário, Barrios era culpado e cornetado pela torcida tanto quanto Borja, mas no Grêmio mostra que talvez o erro não fosse o seu futebol.


Gazeta Press
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Questão à parte: o 2016 de Gabriel Jesus


O time enecampeão tinha um diferencial que resolvia o jogo sozinho e, identificado com o time, se mostrava capaz de jogar em qualquer um dos lados do ataque (inclusive, centralizado). Cuca baseava aquele time em Gabriel Jesus, seu menino prodígio. Quantos craques como ele revelamos por ano? Na insistência de usar uma formação tática que saudosamente favoreceria o 33, pecamos na insistência em buscar um jogador que apresentasse características parecidas - porque isso parece mais correto do que refazer o esquema tático priorizando as qualidades individuais dos jogadores que estão hoje no elenco.


Nossa comissão técnica se entregou à insuperável perda de um menino de 19 anos.


Presidência


Paulo Nobre se mostrava um presidente centralizador, eventualmente mimado, mas particularmente dedicado em engrandecer e respeitar a história da Sociedade Esportiva Palmeiras. Em 2014, estava sentada no estádio em busca oxigênio após o apito final e o grito que se escutava, em uníssono, era: ô Paulo Nobre, seu imbecil, pega esse time e vai pra p*ta que pariu. Nos dois anos seguintes de sua gestão, ele nos fez campeões.

No último ano da presidência era notável sua presença em treinos e assuntos internos, diante das confusões, poucas eram as informações vazadas. Ok, ele podia demonstrar estar interessado em também levantar a taça de campeão junto com o capitão do time, mas nunca foi omisso ou apático, não fazia promessas baseadas em defesas de um planejamento claramente fracassado e uso de frase motivacional pós-eliminação, como Vamos ganhar a Libertadores".


Talvez o erro de Maurício Galiotte, na contramão de Nobre, tenha sido ser liberal demais, aceitando dividir o cargo democraticamente com pessoas de sua confiança que o auxiliariam em suas escolhas. Talvez fosse um ambiente interno melhor para os seus funcionários, porém com isso abriu mão do respeito da torcida, que mal vê seu rosto e, aparentemente, também de alguns jogadores. Talvez ele não tenha entendido o que é lidar com uma paixão excessiva, porque talvez não saiba qual é o gosto da arquibancada. Talvez.


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Me vejo no cenário atual, reunida com mais outros vários que compartilham da mesma angústia, diante daqueles segundos entre o hiato da bola saindo do pé do jogador e o balançar das redes. Ninguém se move, a voz cessa e, massivamente, dentro de nós se faz um silêncio absoluto.


São milésimos de segundo em que as perguntas bombardeiam à mente: a bola entrou? Quem fez a jogada? E o gol? Tava impedido? Existe uma necessidade de libertar a tensão que permanece crescente ao longo dos minutos. Só que o fato não vai se efetivar, porque nosso ano foi vivido entre esse intervalo de segundo de desespero e incerteza. A bola nunca entrou.


Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução
Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução


Estamos sem liberar a tensão há meses, como um grito entalado à espera do desfecho. A delonga é justificada e bancada sempre pelo próximo jogo, o da "arrancada" - aquele que nunca chega. Pedem calma e paciência com a falta de confiança, porque na próxima partida tudo vai mudar e um cenário diferente se apresentará diante dos nossos olhos. É sempre no próximo jogo que a tentativa vai funcionar e que o time vai apresentar, de fato, uma partida segura. Ilusão.

Acredito que a comemoração tenha começado antes de percebermos que o auxiliar levantou a bandeira do impedimento. Maldita mania de olhar sempre pro gol. É nessa hora que devolvemos a bola ao adversário e entendemos que perdemos a nossa vez.


*Mesmo diante de todo cenário que justifiquei acima, lá vamos nós enfrentar o time do Morumbi - que tem flertado há anos com a zona de rebaixamento e sentido o amargo gosto da falta de sorte que está envolta nos times grandes que se colocam diante daquele lamaçal.


Sem hipocrisia alguma, tirar pontos do nosso rival é a primeira das três últimas missões no Campeonato Brasileiro. As outras duas? Derrubar o Corinthians em Itaquera e ir para a próxima Libertadores.


Mas para isso, primeiro, precisamos lembrar que estamos ainda caminhamos para o final de agosto, mês 8, e o ano ainda não acabou como realmente parece. Só precisa avisar o Palmeiras disso.