Valdivia: se quiser voltar, você está perdoado

Nota 1: eu sei que vão me xingar, mas se vocês superaram ídolos vestindo a camisa de adversários, podem superar um texto sobre um cretino apaixonante.


É indiscutível: Valdivia é um gênio da bola.


Jorge é um daqueles jogadores que pagaríamos ingresso apenas para ter o prazer de sentar na arquibancada e assistir como se trata uma bola. Três penteadas, um chute no vácuo, toque olhando para o outro lado, saída livre de três marcadores e já nos vemos de pé. Os cabelos compridos balançavam em sintonia com sua passada e quase escondiam o sorriso que revelava o que tinha de pior naquele chileno: era um canalha. O nosso azar? Adoramos eles. Destino? Seria impossível não se apaixonar.


Gazeta Press
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Nota 2: não se culpem tanto.Transformar o amor em ódio não ajuda em nada.


Em tempos em que a televisão manipula o futebol como uma marionete e vídeos montados no Youtube transformam qualquer jogador no mais novo Messi do continente, Valdivia é raridade. Hoje, se joga para as câmeras e somos ligeiramente enganados por dribles e gols surpreendentes que foram montados para serem vendidos. A revelação do Campeonato Brasileiro pode ser o seu pior pesadelo nos anos seguintes e, então, nos lembramos de cada frame mentiroso que nos foi apresentado.


Jogadores como o Valdivia não precisam seguir as lentes, elas fazem esse trabalho porque é inevitável.


As vozes das arquibancadas geram a notícia e acendem os holofotes. Essa é a essência do futebol. Durante anos em que a internet mal existia e a transmissão de jogos era completamente limitada, a forma mais eficaz de reconhecer um craque era ouvir de quem o viu jogar. Às vezes era necessário esperar quatro anos para ver o melhor do futebol do mundo reunido, poucas chances, mas a verdade se fazia diante dos olhos de milhares de pessoas.


E eu tive a chance de ver o Valdivia debaixo do meu nariz, ninguém me contou. Eu presenciei.


Quando alguém ajoelha na sua frente em cima da bola, sorri e te convida pra dançar com a mão, o atrevimento passa a ser irrecusável. Provavelmente você vai achar um desaforo, mas em poucos minutos se verá correndo atrás da bola e do insolente.


Nossos olhos correm, Valdivia é o insolente.


Gazeta Press
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Foi assim que Jorgito chegou ao Palmeiras, porque ele chamava o mundo pra dançar no Colo-Colo. Em 2008, fez mágica no meio campo, deu um tom para um time que, finalmente, parecia ter o poder de nos tirar dos anos de desgraça em que nos encontrávamos. Aquele time não foi tão longe quanto esperávamos e a classe que se encontrava no centro do meio campo foi embora em alto nível. 

Jorgito poderia ter sido grande na Europa, mas sua personalidade inquietante o levou pelo dinheiro. Nos Emirados, ele foi eleito o jogador mais valioso da liga local em 2009. E jogando no Al-Ain por duas temporadas (duas), se tornou o melhor jogador da história do clube (não que seja um grande feito, olhando para a qualidade técnica do campeonato). Desperdício de futebol? Nunca saberemos.


Já notaram a nossa reação quando um jogador resolve bancar a personalidade, partir pra cima, se livrar da culpa de perder a bola e passar livremente pela marcação, abrindo o caminho da defesa para o gol? Nossas mãos vão a cabeça, nos cutucamos e um som de incredulidade se faz presente. Não estamos acostumados.


Aprendemos a respeitar a linha imaginária do meio campo tanto quanto os jogadores. Vaiamos se a bola e perdida e corremos o risco do contra ataque, matamos nossos talentos antes mesmo de se revelarem. Segurança é a nova obrigação do futebol (pode chamar de medo, se preferir). A magia do Valdivia desafiava isso. 


Em talento e beleza futebolística, flertamos constantemente com a mediocridade. Aprendemos a nos contentar com pouco, já que tudo que temos de melhor é levado embora. A bola é maltratada em campo e ultrapassar a linha do gol é quase um alívio.


Depois da primeira passagem, o queríamos de volta.


Mago voltou e protagonizou alguns dos times mais desprezíveis que o Palmeiras já montou. Olhava para o lado e, provavelmente, se enxergava na desilusão de um toque de bola sem retorno, gols perdidos na cara do gol e um campo vazio. O 10 contra os 11.


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Sozinho no gramado, parece que a solução foi o departamento médico, as baladas e o divórcio com a torcida.


Mais do que amor, era uma relação de dependência. E ele nos traiu.


Indigesto para os rivais, imagina para nós, que, mesmo depois de anos remoendo ódio e desprezo, reconhecemos que aquele futebol era diferente.


Gênio dentro do campo, apaixonado pela bola. Um canalha fora dele, enfeitiçado pela noite.   


Em 2014, vi o mesmo jogador entrar em campo quase sem perna e tentar lutar por um último respiro que poderia mudar a nossa história. Os canalhas também amam.


Em 2015, mesmo com todo ódio vendido pela torcida, o camisa dez correu e se jogou nos nossos braços, no campo inimigo. Sem medo. Assim como partia pra cima dos adversários que o menosprezavam dentro de campo.


E pela última vez em que vi o Valdivia com a camisa do Palmeiras, ele ultrapassou as quatro linhas pra fazer algo bom.


Cesar Greco/Ag.Palmeiras
Cesar Greco/Ag.Palmeiras


Dizem que as lendas são narrativas maravilhosas de um fato amplificado e transformado pela poética de quem a conta. Ou da imaginação popular. Valdivia é isso, pelas poucas vezes em que foi visto, transformou os fatos em lendas. 


Passou sede no Palmeiras, mas transformou água em vinho (fora de campo também). Agora, talvez ele devesse desfrutar um pouco do banquete que está posto à mesa. Não dependemos mais dele pra nada, é só uma segunda chance. 




Por mim, é só bater no portão da academia, aceitar produtividade, abaixar a cabeça e entrar em campo. Diante disso, eu digo: se quiser voltar, tá perdoado.

Nota 3: Chinelinho, canalha e baladeiro, mas este jogador me deu o primeiro título da minha vida. Não me peçam para odiá-lo. 

Mas se quer que a gente ligue, veja as condições:

1. salário baixo
2. produtividade
3. tornozeleira anti-balada 😝
4. proibido ter havaianas
5. visto negado pra disney