Libertadores: ninguém vai te ensinar a jogar esse jogo

O futebol, como a vida, nos faz classificar as coisas por ordem de importância. Mesmo que elas mudem durante o tempo. Parece incoerente acreditar que em algum momento ganhar o Campeonato Paulista trazia um status maior ao clube do que ser Campeão da América, mas as letras garrafais que estampavam e garantiam essa informação para a opinião pública, hoje comunicam exatamente o oposto. Entre formatos, organizações e anos de mudanças, as nossas crenças se transformam. Isso não se trata apenas de valor e reconhecimento da imagem que transmitimos ao mundo, é mais sobre emoção e limite.


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Dudu capitão, monstro sagrado!


A Libertadores se tornou, ao longo dos anos, um dos símbolos da nossa identidade coletiva. Quase um folclore particular. Instintivamente nos unimos e nos reconhecemos desde o início, porque temos um mesmo objetivo.


Dentro de todas as outras simbologias, sejam elas um único dialeto, a cor que expõe e representa ou o mesmo ambiente reconhecido como casa, a vinculação quase profana entre nós todos existe porque estamos predispostos a fazer parte dessa entrega. O consenso se funda nas nossas próprias razões. Neste caso, especificamente, a obsessão pela taça.


Independentemente das características (visivelmente opostas) que cada setor do estádio apresenta, são nas quartas-feiras à noite quando nos tornamos iguais. Um só.


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Palmeiras x Chapecoense - Allianz Parque


Na impossibilidade de se fazer fisicamente presente, muitas vezes temos que escolher entre desligar a transmissão, esperando o resultado, ou sofrer, a cada segundo, a angústia da narração. Lá e cá, entre pausas, ataques, toques, faltas e a retranca que insiste em impedir a máxima do futebol: o gol. 


Até o juiz levantar os braços e dizer que acabou, continuamos lá, aficionados e entregues emocionalmente, presencialmente ou não. O nosso grito de “acabou, professor", com as mãos gesticulando para cima, não resolve o jogo. Alguém nos escuta? 


Repetimos o ato incansavelmente até que o apito se faça ouvir. Enfim, respiramos. Mas só por aquela noite.


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Ninguém vai te ensinar a jogar esse jogo. Algumas partidas vão durar o tempo regulamentar, outras vão te levar ao limite, e ao êxtase, por mais de 97.


Algumas formações nascem destinadas a serem grandes e fazerem história. E isso leva tempo para acontecer. Por isso, quando, entre tantos momentos e elencos fracos, encontramos a combinação ideal, aceitamos ultrapassar o limite.


Aqui, com os meus 22 anos, eu talvez saiba muito menos de Libertadores e futebol do que muitos de vocês. Mas entendo de sentir e, pra viver isso, não é preciso muito mais. Acredito até que, algumas vezes, a ingenuidade futebolística me permite uma entrega tão grande que beira a ilusão.


Nesta quarta-feira, quando o horário estiver chegando, o nervosismo tomar conta e nos encontrarmos de frente para o gramado, vamos nos lembrar do que nos faz sair de casa e ir pra lá tantas vezes. Porque o jogo vai acabar, as luzes vão se apagar e o seu único desejo, independentemente do resultado ser favorável ou não, vai ser que tivesse durado mais. É assim que sempre procuramos um motivo pra voltar.


Brasil, Colômbia e Venezuela: nós somos a própria América. E esse time é a cara da Libertadores. Somos incansáveis. Vamos viver a quarta-feira com todas as dores, emoções e sonhos que esse campeonato nos proporcionou até aqui.


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