Seremos Palmeiras!

Gazeta Press
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"Seremos campeões (mais uma vez)": que o time faça valer em campo o canto da torcida


O texto de hoje é de um dos melhores blogueiros palmeirenses e alguém que posso chamar de camarada: Rodrigo Barneschi, do Forza Palestra, que sugeriu este espaço (e eu aceitei com muita honra) para seu texto de exortação para que o Palmeiras campeão desde 1914 entre em campo nesta quarta-feira. Que assim seja!


Vila Belmiro, Santos/SP, quarta-feira à noite. Chove. Lá estamos, 824 alviverdes, pela quarta vez no ano. Chove como choveu em todas as outras vezes que lá estivemos – pelo menos é assim que registra a memória coletiva.


Somos 824, e tão acostumados estamos a representar o Palmeiras naquele desfavorecido amontoado de laje que é quase possível identificar pelo nome cada um dos que ali estão – é um sentimento de irmandade muito comum aos que viajamos para defender nossas cores por todos os lados. Daí então que, bem do meio daquele puxadinho que nos é destinado, nasce um canto (retrô) que logo vai ganhando força:“Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, Porco/ Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, Porco/ Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, Porco/ Seremos campeões! (mais uma vez)”.


Seremos?


Talvez sim. Talvez não. E cada um de nós, eu imagino, vem sendo perseguido pelas mesmas inquietações, alternando momentos de confiança extrema, de pura ansiedade e de um pessimismo de tirar o sono. Ninguém escapa: os 40 mil privilegiados que estaremos no Palestra; os milhares aglomerados do lado de fora; os milhões que, pelo mundo, gritarão em direção à zona oeste da metrópole.


Eis que minha mente viaja longe, duas décadas em direção a um passado glorioso, para lembrar de tardes e noites dos princípios da minha adolescência no estádio. Eram poucos jogos ainda, uma meia dúzia ao ano, porque a mim não se permitia mais do que isso. Eram tempos, aqueles, em que cantávamos essa mesma música com enorme naturalidade, como se fosse impossível que as coisas tomassem outro rumo: sim, seríamos campeões – e, invariavelmente, fomos.


Eis que agora já não se pode ter tanta certeza assim. A história inspira confiança; o time, nem tanto. A camisa nos precede e vai a campo; mas também a defesa que tomou gols em 29 dos últimos 30 jogos. Lá estará também a torcida que vem transformando o estádio inteiro em um Gol Norte nos jogos decisivos; mas também o treinador que parece não saber o que está fazendo. O retrospecto ajuda ou atrapalha, a depender da análise que se queira fazer. A arbitragem? Bom, trata-se de um obstáculo a mais. O adversário? É (ou está) melhor, bem sabemos. A mídia? É tão inimiga que isso pode até ser um fator de motivação.


E, sejamos pragmáticos, esse clima de desconfiança quanto à capacidade de reverter o resultado acaba até nos fortalecendo. Porque nossa história foi construída assim, à base de muita superação, de entrega, de perseverar quando nada mais nos era permitido. Como diz mestre Ezequiel: “Nunca duvidem do Palmeiras. Nunca. Enquanto existir uma camisa verde com um P no peito, deve haver respeito”.


E foi com esse espírito que, três anos atrás, a massa alviverde entrou em campo para empurrar em direção a nosso último troféu um catadão aos frangalhos: Bruno-Arthur-ThiagoHeleno-LeandroAmaro-MaurícioRamos-Juninho-Henrique-Assunção-JoãoVitor-MárcioAraújo-DanielCarvalho-Mazinho-Betinho. Um time obsceno, para dizer o mínimo. E campeão.


É a isso que devemos nos apegar para cantar que “seremos campeões! (mais uma vez)”. À festa que fizemos na noite fria de Curitiba em 2012. Aos segundos intermináveis entre o cruzamento para a área e o leve desvio de um herói improvável para fazer ecoar um estampido seco no gol de fundo do Couto Pereira. Às noites em que a Arena Barueri guardou para si muito da alma e do espírito do velho Palestra. À jornada felipônica que vivemos no saudoso Olímpico porto-alegrense. Ao petardo de Darci na semifinal de 1998. Ao tiro salvador de Agnaldo Liz em um pouco lembrado 1 a 0 contra o Botafogo. Ao gol espírita do eterno Oseas. À festa que fizemos nas molhadas arquibancadas do Morumbi naquela tarde de sábado. E, por que não, aos dois gols de Euller quando tudo já estava perdido.


E devemos, também, lembrar com carinho de cada capítulo da trajetória que nos trouxe a este 2 de dezembro de 2015. O desnecessário sufoco contra o ASA. Os arroubos geniais do menino Jesus no Mineirão – e lá estivemos, poucos e bons, a empurrar o time quando ainda nem sonhávamos com o título. O empate suado que fomos buscar em um sempre inóspito Beira-Rio. O improvável cabeceio de Girotto que fez, pela primeira vez, o novo Palestra se parecer com o velho Palestra. Seis mil palestrinos em uma noite mágica no Maracanã e um pênalti redentor. O Gol Norte se espalhando por todo o estádio diante de um rival preso na garganta desde 2009. Barrios duas vezes. A defesa de Prass. Os pênaltis. A explosão. O alívio. E a final na Baixada: o pênalti não marcado, os gols perdidos de parte a parte, as discussões, a tensão onipresente, a nossa torcida fazendo mais barulho que os mandantes já na madrugada...


Não pode ter sido à toa.


“Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, Porco/ Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, Porco/ Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, Porco/ Seremos campeões! (mais uma vez)”.


Seremos?


Certeza não se pode ter, mas lutaremos por isso. Queremos a Copa. Queremos buscar o que é nosso. E faremos, a partir da arquibancada, tudo o que for possível e imaginável para que isso aconteça.


Seremos Palmeiras. E isso, esperamos, haverá de ser o bastante.

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- Sobre o infeliz comunicado da gestora do estádio – e a conivência de um Palmeiras vítima de uma gestão elitista –, o post do Paulo Silva Jr. é mais do que necessário. De minha parte – e espero que relativizem o exagero –, a mensagem que deixo para cada palmeirense é a seguinte: “Aglomeremo-nos. Compremos todas as cervejas e lanches do comércio ambulante. E mijemos no portão de cada dona Antonieta da Pompeia. Que os vizinhos do entorno respeitem o estádio que define aquela região há mais de século.”

- Outro ponto importante: muito cuidado com a PM. Antes, durante e depois do jogo. Lembremo-nos do que aconteceu em 2008, em 2012 e agora mesmo em 2015.