O Palmeiras é uma montanha-russa que destrói nossos corações

Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução
Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução

Paradoxos verdes: time jogou mal, mas fez os dois gols no primeiro tempo, com Guedes e Bigode


Foi mais uma atuação daquelas de mandar cardíaco pro hospital (ou pra funerária), uma montanha-russa que nos leva ao céu dos gols improváveis e ao inferno das falhas grotescas. No fim, o 2 a 2 desta noite mantém o Palmeiras ali no bolo da Libertadores, a 14 pontos do líder (que empatou a segunda seguida), e pode ser considerado um resultado bom, pela bolinha que o time jogou no primeiro tempo e pelo pênalti defendido por Jailson. Mas também dá pra sonhar que poderia ter sido melhor, pela falta de organização no segundo tempo que propiciou poucas chances reais em contra-ataques, todos eles desperdiçados.


É curioso dizer que a atuação no primeiro tempo foi pífia e no entanto foi nele que saíram os dois gols, paradoxos que o Palmeiras nos oferece. Não é exagero dizer que o time mostrou uma letalidade invejável, digna de 2016, com aproveitamento perfeito dos contra-ataques: chegou duas vezes, estocou, guardou. Mérito de Willian Bigode e Roger Guedes, e dos passes de Zé Roberto e Mina, demérito da defesa do Flamengo. O problema é que o time não fez absolutamente nada além disso, não teve uma jogada, uma troca de passes, uma tabela – enquanto a defesa deu seguidos sustos, além de cometer falhas bisonhas.


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No primeiro gol, de novo ficou todo mundo assistindo: um chutão fraco e Guerrero teve todo o tempo do mundo para girar e encontrar Pará – sim, a gente investiu trocentos milhões de reais num time que toma gol do Pará. No segundo, em vez de sentar na bola e esperar o primeiro tempo acabar para os caras irem nervosos para o intervalo, um chutão bobo pra frente resultou em outro chutão de volta e uma vacilada horrorosa de Luan, que deixou Guerrero tomar a frente e fuzilar. Fora outras duas ou três defesas de Jailson e um problema crônico: por causa da marcação individual, o time está sendo correndo atrás de quem tem a bola, o que é um pesadelo quando o rival tem meias e atacantes velozes.


A montagem da defesa melhorou um pouco no segundo tempo, também porque os caras cansaram. E o jogo se montou como eu havia previsto no texto de domingo: um Flamengo em cima, com a bola, porém sem a mesma intensidade da etapa inicial, e um Palmeiras reativo, tentando matar o jogo no contra-ataque. Só que Borja não é o jogador ideal para isso, e foi a única possibilidade após a contusão de Willian. Acho que Keno teria sido melhor opção para aquele momento.


Jorge Rodrigues/Gazeta Press
Jorge Rodrigues/Gazeta Press

Jailson salvou o emprego de Michel Bastos, que merecia ir pra rua por justa causa pelo pênalti


Mesmo assim, Borja teve duas chances em contra-ataques, a última deles um chute travado pelo goleiro no qual faltou só um pouquinho de calma – a mesma que Bigode tivera no primeiro tempo, talvez, pra dar um totozinho por cima? Keno foi pouco acionado, e sempre muito marcado, o mesmo acontecendo com Roger Guedes, que às vezes encarava até três rubro-negros sem nenhum apoio.


É nessa hora que os meias têm que participar, e é isso que precisa ser aprimorado: o Palmeiras tem um meia titular, Guerra, que foi poupado por problemas físicos. Cuca escalou dois volantes, Bruno Henrique e Tchê Tchê, que não contribuíram em nada com o ataque – piorou com a entrada de Thiago Santos - e Zé Roberto, que não pode ser armador. Aliás, não pode ser nada, a não ser puxador de reza. O lançamento para o gol do Bigode foi a Jogada do Mês que o manterá no time até agosto – em junho tinha sido o gol contra o Tucumán. Foi ótimo, representou, mas não dá mais. Mesmo no auge da carreira, Zé nunca foi armador, mas era um meia que chegava pelas pontas e hoje não consegue mais fazer isso.


Há mais dois meias no elenco, jovens, Raphael Veiga e Hyoran, que devem treinar muito mal ou mijar na cama na concentração, porque não é possível que não possam ter chances em jogos como esse em que era escancarada a carência no setor. Vamos ver se com a lamentável limpeza feita pelo juiz, que só faltou amarelar a torcida do Palmeiras, o técnico dá uma chance para um deles no domingo em Recife. 



E o que dizer sobre Michel Bastos? Muita gente comenta que ele deve ser o lateral-esquerdo, mas novamente ele não jogou nada escalado na posição. E quem comete um pênalti primário como esse merece voltar do jogo direto para o RH assinar a demissão por justa causa, sem direito a nada e com a carteira de trabalho manchada. É vergonhoso, é pênalti que a gente faz de zoeira no videogame com o jogo já decidido pra ter jogador expulso de propósito.


Por fim, Jailson. Não tem como não dizer que a decisão foi certa depois das várias defesas que fez no primeiro tempo e do pênalti defendido com uma categoria que lembrou Ele mesmo, São Marcos. Mas acho que Cuca poderia ter poupado Fernando Prass do banco de reservas, deixado que ele ficasse em São Paulo treinando, e alegar cansaço, esgotamento ou qualquer coisa assim. Um ídolo merece ser preservado. Menos mal que Prass tem um caráter gigante, mas um chá de banco nesse caso é desnecessário.


Enfim, mais um jogo para o otimista se animar e o pessimista se preocupar. O Palmeiras de 2017 continua em construção, e os pedreiros parecem não se importar com os equipamentos de segurança. Você já marcou sua visita ao cardiologista?