Que o espírito do Magrão de 1995 empurre o Palmeiras no dérbi

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Magrão foi apenas o sonho de uma tarde de outono, mas o "Estadão" não tinha como imaginar


O Palmeiras chegou em situação complicada para o segundo dérbi do Paulistão de 1995, marcado para o dia 21 de maio, no Pacaembu. Uma semana antes, havia perdido por 3 a 1 para o Santos, na Vila Belmiro, e demitido o técnico Valdir Espinosa, que chegara na virada do ano para o lugar de Vanderlei Luxemburgo. O técnico bicampeão paulista e brasileiro, lembramos bem, foi embora para o Rio, seduzido pelo projeto do centenário do Flamengo, e o treinador gaúcho chegou com a missão de renovar um elenco vencedor, mas que perdera muitas peças importantes.


Zinho, César Sampaio e Evair haviam sido negociados com o futebol japonês; Edmundo vivia uma de suas muitas fases instáveis, quando chegou até a chutar a câmera de um cinegrafista no Equador e se escondeu no hotel para não ser preso; reforços tidos de peso, como Mancuso e Válber, não se acertavam; e o time, antes daquele clássico, era apenas o sétimo colocado da “chave forte” na fase de classificação do Paulista – apenas seis passariam aos quadrangulares semifinais. Tinha 33 pontos, contra 38 do rival, que não vivia também um grande momento.


Edmundo já estava fora dos planos e o clube ouvia a proposta que o levaria ao Flamengo. Então o técnico interino Márcio Araújo (aquele mesmo do péssimo Paulista de 97, da desastrosa reta final do Brasileiro de 2001 e que quase dispensou Vagner Love da concentração dos juniores) resolveu levar a campo como centroavante um garoto que pintava como promessa e até então não havia vingado: Magrão.


Giuliano Tadeu Aranda, paulista de Santo André, tinha então 21 anos, mais de 1,90 m de altura e pouquíssica técnica. Sem eufemismos: era grosso para caramba. Naquela tarde, porém, viveu seu dia de craque e ídolo. Marcou três gols, de todos os jeitos, um com cada pé e um de cabeça, que decretaram a vitória do Palmeiras por 3 a 1, e por pouco não encerrou a carreira de um ídolo rival, o goleiro Ronaldo, que saiu vaiado pela torcida e deu entrevistas dizendo que aquele jogo era “uma despedida”. Ele ainda ficaria mais dois anos e meio no Parque São Jorge, saindo só no começo de 1998, logo após a chegada de Luxemburgo ao clube.


Magrão também permaneceu no Palmeiras até 1998, entre idas e vindas, e nunca se firmou. Terminou com apenas 75 jogos disputados e 16 gols marcados. Teve passagens irrelevantes por outros grandes, como Grêmio e Botafogo, e encontrou-se mais ou menos no São Caetano, fazendo parte do time vice-campeão brasileiro em 2001. Casou-se com a filha do então presidente do clube, Nairo Ferreira, e virou empresário, com bom trânsito no Palmeiras – foi ele que levou Luan e Betinho ao clube, por exemplo. Mas isso já é outra história.



As semelhanças de hoje com aquele dia são grandes. O Palmeiras começou 2017 como novo técnico, não deu certo, foi buscar o antigo de volta; perdeu jogadores, trouxe outros que ainda não vingaram e com expectativa exagerada – se hoje temos Borja nessa situação, em 1995 Mancuso veio como se fosse um armador, ganhou a camisa 10, mas não passava de um volante exageradamente voluntarioso. Como naquele ano, estamos longe da liderança, num momento de tensão porque as coisas não dão certo.


Magrão não é o único herói improvável em 100 anos de dérbi. Para ficar apenas neste século: o returno do Brasileirão de 2007, Nen marcou o gol da vitória por 1 a 0 que ajudou a empurrar o rival para a Série B; em 2010, Fernandão chegou na sexta, nem apresentado foi, e no domingo marcou o gol da virada por 2 a 1 em Presidente Prudente; e como esquecer os cinco gols do Obina (um anulado e um pênalti cobrado duas vezes) naquele 3 a 0 de 2009, também em Prudente, em que o time viajou de ônibus porque deu um problema no avião?


Dérbi é dérbi, e é por isso que, apesar de todos os nossos problemas e desconfianças, da agonia que temos sentido nos últimos dias, acreditamos em vitória. Que o espírito dos ídolos e dos heróis improváveis, como Magrão em 1995, marque presença e empurre o Palmeiras no Allianz Parque no dérbi de daqui a pouco.


Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução
Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução

Será que Borja não pode estourar? Um brilho efêmero, que seja? O dérbi é capaz de coisas improváveis...