Há 18 anos, um grito de alívio e o Palmeiras pintava a América de verde

Gazeta Press
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Felipão veio com a missão de conquistar a Libertadores, pelo preço que custasse, e assim o fez


Em 16 de junho de 1999, Michel Temer amanheceu como presidente do Brasil. Era então o presidente da Câmara e substituía o presidente FHC e o vice Marco Maciel, ambos em viagens distintas pelo exterior. A capa do Estadão daquele dia registra uma turra do então deputado federal com o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães.  A manchete do jornal registrava, no entanto, outro assunto: os resultados do primeiro leilão para privatização de áreas de exploração de petróleo pelo Petrobras. Problemas com o novo diretor da Polícia Federal e outras questões políticas dominavam as capas do jornal. 


Ao palmeirense, porém, a manchete mais importante daquela página estava escondida no canto inferior direito, sem texto, somente uma chamada: "Palmeiras decide hoje a Libertadores às 21h40, com TV". Sem foto, sem adversário, sem nada mais. Curioso, não me lembrava que em 1999 ainda havia essa incerteza quanto às transmissões de TV. Na capa do caderno de Esportes, Felipão com um apito orienta Evair e Júnior durante um treino e a manchete avisa "Palmeiras faz pressão total por título inédito". O nome do rival, o Deportivo Cali, aparece poucas vezes, em nenhum dos títulos da página.


Em Botucatu, no interior de São Paulo, um jovem estudante de Jornalismo cumpria seu dia de trabalho no Banco do Brasil com a cabeça na lua. Cadastros, pedidos de empréstimo, cálculos de seguro, nada daquilo foi feito com a devida atenção e espero que ninguém tenha tido muito prejuízo. Na hora do almoço, a comida desceu em meio a engasgos de ansiedade. Talvez eu tenha comprado um dos jornais esportivos, não me lembro. Talvez o outro palmeirense do setor tenha almoçado comigo, não me lembro. Eu só queria que as 21h40 chegassem logo.


Voltei a Bauru, onde morava e estudava, mais ou menos uma hora de carro que eu dividia com alguns colegas do banco, mas nem fui à faculdade naquele dia. Não me lembro do que comi, do que fiz até que começasse o jogo. Não me lembro de como reagi aos lances da partida, apenas de que estava uma pilha de nervos e que, ao final, com o pênalti para fora de Zapata, soltei um grito que misturava tensão, felicidades e, acima de tudo, alívio. Foi um alívio parecido com a moça que aparece nas arquibancadas do Palestra aos 22 minutos deste vídeo abaixo.



A verdade é que, muito antes de a torcida gritar nas arquibancadas, a Libertadores já era uma obsessão quase irracional para o Palmeiras. Talvez por termos perdido a final na segunda edição do torneio, e depois visto o Santos ganhar duas em seguida. Talvez pela segunda derrota, em 1968, e depois por ver Cruzeiro, Flamengo e Grêmio serem campeões. Mas, provavelmente, porque o São Paulo de Telê ganhou duas, no começo dos anos 90, e ainda nos venceu numa oitava de final azedíssima, para depois perder o título para o Vélez. Atire a primeira pedra quem nunca secou, secamos muito e vibramos com Chilavert e "El Turco" Asad.


Já éramos obcecados e ficamos ainda mais, pois na sequência Grêmio e Cruzeiro voltaram a ganhar, assim como nossos camaradas vascaínos, e era preciso que a gente também ganhasse - de preferência antes do Corinthians -para evitar a zoação. Então chamamos um especialista, Scolari, e, em tempos de vacas gordas, demos a ele carta branca para contratar quem quisesse e transformar nosso estilo de jogo. A Academia foi-se embora, deu seu último suspiro com o time dos 100 gols campeão paulista de 1996. Voltou a prevalecer o Palmeiras brigador, raçudo, mais Jair Rosa Pinto e menos Ademir da Guia, e enfim o sonho estava por se realizar.


Mas ainda havia 90 minutos contra o desconhecido e encardido Deportivo Cali, e ainda havia a desvantagem de um gol - que na verdade tinha saído barata, pois no jogo de ida, duas semanas antes, o Palmeiras teve uma péssima atuação, especialmente no primeiro tempo, e só não perdeu de mais porque Marcos vivia dias abençoados naquele outono de 1999 em que finalmente ganhara sua chance de ser titular com a lesão de Velloso.


Acervo/Gazeta Press
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A canonização de Marcos começou durante a conquista da Libertadores de 99


E foram duas horas extenuantes e de pura angústia, para os 14 jogadores utilizados em campo, os gandulas, os reservas, os 32 mil nas arquibancadas, os milhões de palmeirenses em todo o mundo. Foi um inferno de jogo, contra um time catimbeiro, inteligente, diante de um Palmeiras pressionado, obcecado e intranquilo. Alex, que brilhara contra o River nas semifinais, perdeu um gol incrível com pouco mais de 10 minutos de jogo. Bonilla quase marcou num contra-ataque, e só tivemos um pouco de paz com o gol de Evair, sempre ele, já com 19 minutos de segundo tempo. 


Uma paz que durou cinco minutos, tempo para que Junior Baiano acertasse o enésimo carrinho cretino de sua carreira (contra o Giggs, meses depois, ele nem tentou) e Zapata empatasse o jogo. E lá ficamos sofrendo de novo até que Oséas desempatou e, tempo depois, Euller cobrou o quinto pênalti - o primeiro momento naquela noite em que tivemos na mão um resultado que nos dava o título. Então veio Zapata e mandou a bola da fora.


Alegria, festa, explosão, acima de tudo alívio. E a América enfim fez-se verde. Faz 18 anos, parece que foi ontem. Que seja eterno. E que sirva de boa memória na briga para ganhar essa taça de novo. Que o time esteja pronto para isso desde já até novembro.