A Libertadores não merece a obsessão do Palmeiras

Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução
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Esse palhaço não aguentaria meia hora de jogo numa quebrada aqui em Sorocaba


Quem chama de várzea a Conmebol e seus torneios, a Libertadores à frente, está cometendo uma ofensa. Contra a várzea.


A várzea é organizada. Na várzea o juiz e o quarto árbitro sabem que jogador está suspenso e não pode atuar e não tem risco de um jogador entrar de forma irregular em campo. Na várzea o campo de jogo é sagrado e ninguém vem com paninho para cobrir a placa que a empresa paga 15 milhões de dinheiros por ano pra colocar ali. Na várzea ninguém vem te obrigar a fazer aquecimento com o colete da Liga da Várzea em vez do seu.


Na várzea nenhum juiz apita como o juiz de Palmeiras x Peñarol apitou - até porque não sairia vivo de campo para contar a história.


O futebol é tão inexplicável, no entanto, que ano após ano os times se matam em campo e veem como fator de sucesso a possibilidade de disputar um torneio que é pior que um campeonato de várzea. Jogadores canalhas, árbitros mal-intencionados que prejudicam o time de forma cirúrgica, viagens intermináveis, torcida adversária hostil, gramados em petição de miséria, prêmios que até o ano passado eram inferiores ao do Paulistão.


"Ah, mas isso é espírito de Libertadores. É assim", justificamos. E cantamos: "A Taça Libertadores é obsessão / Tem que jogar com a alma e o coração". E nos desgastamos emocionalmente como ontem, e saímos moídos de campo, como se tivéssemos corrido 99 minutos como os jogadores, e deixamos quatro meses de vida em cada jogo.


Claro que é lindo, claro que é emocionante, claro que a gente adora e que a vitória sofrida parece ter um gosto melhor.


Mas, na boa: a Libertadores não merece toda essa obsessão.


Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução
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Expulso por um juiz mal-intencionado, Dudu vai fazer falta em sabe-se lá quantos jogos


A Libertadores não merece que um clube pague 30 milhões num jogador para ter que enfrentar times que apelam para a violência desleal desde o primeiro minuto - a coxa de Prass pisoteada que o diga -, sob a omissão de árbitros que parecem ter a intenção de irritar nossos jogadores o tempo todo, passando pano para a violência e a cera dos adversários e anotando faltas inexistentes, como a que gerou o segundo gol do Peñarol e a que provocou a expulsão do Vitor Hugo na Argentina. 


"Ah, mas tem que ter maturidade porque é um futebol diferente. Oras, futebol é futebol, deveria ser igual em todo lugar, 11 contra 11, vence quem fizer mais gols do que o outro. Isso é conversa fiada, desculpa esfarrapada para a falta de talento. Jogar com raça e determinação é uma coisa, entrar como se fosse o octógono do UFC é outra bem diferente.


Dizem que a Libertadores mudou, que foi muito pior, que hoje ao menos tem antidoping. Bom, jogos como o de ontem me dão a impressão de que o futebol sul-americano parou no tempo. De nada adianta ter uma arena padrão Fifa com ingressos que custam um fígado e um rim se dentro de campo um time se comporta como um bando de selvagens, o outro entra no jogo deles e o torcedor fica ali esperando dois minutos pela cobrança de um lateral.


Não se trata de dizer "bom é a Champions". Nem quero que façam todo o rapapé que cerca um jogo europeu. Só acho que, se o futebol sul-americano não avançar em profissionalismo - e isso passa por clubes, federações e arbitragem -, os times daqui vão continuar dando vexame no Mundial de Clubes e as seleções sul-americanas só vão ganhar Copa na base do talento individual ou de uma geração inspirada. Enquanto isso, sério mesmo, eu prefiro o Paulistão.



Mas e o Palmeiras?


Ontem, após a expulsão do Dudu, eu fiquei mais transtornado que nosso capitão e, se tivesse algum poder, tinha tirado o time de campo e abandonado o campeonato e ainda dado uns tapas no juiz e no delegado da Conmebol. Não é possível que se passem QUATRO MINUTOS entre a marcação de uma falta e sua cobrança e que o jogador seja expulso porque tentou acelerar a cobrança, enquanto o cara que estava fazendo cera tenha ficado na boa.


Mas, enfim, ganhamos o jogo graças a San Gennaro, que anda fazendo hora extra. E é claro que eu fiquei feliz, porque, já que o Palmeiras está em campo, eu quero é vitória. E, como não temos outra saída, que tentemos ganhar essa merda de campeonato fazendo o que a gente sabe, que é JOGAR BOLA.


Isso inclui ter a tal da "maturidade" para deixar os cretinos fazerem a cera que quiserem. Não entrar em confusões desnecessárias e, em vez de fazer reclamações ostensivas ao juiz, chamá-lo de cantinho. Não revidar violência com violência. Não dar ouvidos a provocações baratas e criminosas.


E, tecnicamente, entrar mais acordado no jogo, ao contrário do que fizemos ontem, e não perder tantos gols na cara: só ontem, foram dois do Borja, contando o pênalti, o do Tchê Tchê e o do Willian, que poderiam ter tornado a tarefa bem mais fácil e evitado tanta confusão no fim do jogo.


Obsessão não tem lógica, não tem sentido. No dia 26 lá estaremos em Montevidéu, o time e alguns milhares de malucos (eu cheguei a orçar preço de passagem, mas não deu certo porque perderia muitos dias de trabalho), os outros tantos milhões colados na tela da TV, torcendo desesperadamente e xingando essa "várzea".


Mas que a Libertadores não merece isso, não merece.


Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução
Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução

Fabiano nos fez recuperar alguns meses de vida; vai ter que ser sempre assim?


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