Napoli: o que significa a 'aliança' entre De Laurentiis e Agnelli?

No último dia 5 de setembro, o presidente juventino Andrea Agnelli foi eleito para o lugar do presidente e ex-atacante do Bayern (e da Inter), Karl-Heinz Rummenigge, como presidente da European Club Association, a associação dos clubes europeus.


Agnelli possui grandes projetos, como um novo fair play financeiro, uma menor janela de transferências (que já será executado na Inglaterra, e a Itália estuda fazer o mesmo), uma reforma do calendário de seleções e uma adoção maior do sistema de VAR na arbitragem europeia. 


Em meio a essas promessas, Agnelli já elegeu seu grupo de trabalho. Escolheu Van der Sar, do Ajax, para os trabalhos de divisões de base, Ivan Gazidis, do Arsenal, para relações institucionais, Michael Verschueren, do Anderlecht, para as finanças, Umberto Gandini, da Roma, para as competições, e, por fim, Aurelio De Laurentiis para dirigir o marketing e a comunicação. 


Nascido em 2008, do finado G-14 e dos fóruns dos clubes europeus feitos pela UEFA, a European Club Association é a única organização que representa os clubes nos contatos com a UEFA. O objetivo, segundo dito no site, é de criar um modelo de governança mais democrático, que reflita o papel fundamental dos clubes.


A Associação é composta por um grupo atual de 230 clubes membros, representando cerca de 54 países. Do futebol italiano, Fiorentina, Inter, Juventus, Lazio, Milan e Napoli são os membros ordinários da ECA. Dos grandes italianos, apenas a Roma não é um clube membro ordinário da ECA. Ao lado dos giallorossi, Udinese e Sampdoria completam os membros associados.


Em meio a isso tudo, evidentemente, a relação entre Agnelli e De Laurentiis viraria polêmica. Primeiro, pela óbvia rivalidade mortal entre juventinos e napolitanos. Em seguida, os napolitanos não gostam da figura de Agnelli por razões um tanto quanto clássicas, em relação ao que ele e sua família representam no futebol, e acima de tudo, na sociedade italiana, que dispensam apresentações. 


Os juventinos e, sobretudo, alguns napolitanos já não gostam da figura de De Laurentiis, por conta de suas bobagens midiáticas (mais o caso dos juventinos), ou até um pouco por tratamento com a torcida e uma certa falta de ambição (parte da torcida napolitana, os chamados "papponisti").


Reprodução: Getty Images
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Agnelli resolveu delegar a função de aumentar o faturamento de clubes europeus com as copas europeias a De Laurentiis


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Voltando ao critério da escolha, Agnelli escolheu De Laurentiis pelo fato do presidente napolitano ter experiência no mundo do marketing, pela sua relação com o lado cinematográfico e as suas intuições, que deram certo nos últimos anos, tanto no cinema quanto no futebol. 


Segundo o Corriere dello Sport, De Laurentiis presidirá um grupo composto por 20 pessoas, que serão escolhidas nas próximas semanas, e trabalhará para melhorar a visibilidade e o faturamento dos clubes com a Champions League e a Europa League, em um mundo que se procura cada vez mais novos perfis e campanhas de marketing em nível global.


Convenhamos, entregar a parte de comunicação a De Laurentiis parece como entregar um cargo na comissão de direitos humanos da ONU para a Arábia Saudita. Especialmente pelos trinta silêncios à imprensa que o Napoli faz por temporada (nesse momento estamos no meio de um).


Quanto ao marketing, a coisa tem melhorado, mas isso é algo a se abordar por aqui em outra oportunidade, para avaliar melhor o trabalho de Andrea Chiavelli nas finanças e o de Alessandro Formisano com o marketing, especialmente na parte do tratamento com os "tifosi stranieri".


E o presidente napolitano tem assumido uma postura de aproximação com o poder. Não somente dentro de campo, com doações ao partido Democrático do ex-premiê italiano Matteo Renzi. Depois do apoio a Tavecchio na FIGC, agora é vez de Agnelli na ECA. De Laurentiis não costuma ser um grande opositor. 


Mas se aproximar dos clubes rivais, por mais doloroso que pareça, é uma boa forma de crescer junto, fomentar o campeonato e conseguir mais dinheiro dentro e fora do seu país. Se aproximar do poder pode gerar frutos ao Napoli. Ou pode não gerar absolutamente nada. Como foi o caso de quando o Napoli se juntou com Tavecchio na FIGC e agora silencia quanto a ele.


Por outro lado, a escolha de Agnelli pode ter problemas, caso a FIGC resolva puni-lo por infringir o artigo 12 no caso da relação dele no esquema de prática abusiva da venda de ingressos para os jogos da Juventus entre torcidas organizadas e a máfia calabresa, a 'Ndrangheta, embora já se noticie que ele possivelmente deve ser absolvido em julgamento no próximo dia 15. 


O fato é que, se fosse condenado, poderia criar uma incrível situação: dentro da Itália, Agnelli não poderia exercer o cargo de presidente juventino. Mas, fora dela, em Genebra, poderia atuar como presidente da ECA e gerenciando clubes italianos. 


Independente disso, não é coincidência que Milan e Napoli tenham dado congratulações a Andrea Agnelli pela conquista da presidência da associação dos clubes. Situações que envolvem questões financeiras dos clubes os, possivelmente, um olhar maior para os italianos, já que muita gente na ECA aumenta o fato de que "foi Agnelli quem conseguiu que os italianos voltassem a ter quatro times na Champions League".


Por outro lado, a entrada do Napoli no grupo "executivo" da ECA não é somente um reflexo de uma certa habilidade de bastidores. Dentro de campo, o clube é uma realidade em âmbito europeu, tendo feito semifinal continental recentemente, por exemplo. Realidade também na questão financeira, um dos raros clubes que se sustentam sozinhos na Europa.


Além de ter resultados dentro de campo, os resultados no ranking UEFA fazem mostrar o crescimento da importância, com o Napoli tendo ultrapassado o Manchester United, e próximo de outros grandes como Chelsea e Porto, e não muito longe do décimo colocado Benfica (batido duas vezes na temporada passada).


Por fim, a entrada de De Laurentiis no grupo de Agnelli na ECA pode significar acima de tudo uma cravada definitiva do Napoli no status quo do futebol europeu. A frase do ex-presidente Corrado Ferlaino, que disse "é preciso entrar nas graças do palácio, ser amigo dos poderoso dos futebol, sentar com eles na mesma mesa", pode se tornar cada vez mais válida.


Mas o que poderia significar uma relação mais estreita de De Laurentiis não apenas com o presidente juventino Agnelli, mas com os outros presidentes da Serie A? De qualquer forma, em meio a essas questões de bastidores, só o futuro poderá dizer se o Napoli ganha ou perde com isso. Mas, ainda assim, se o trabalho do presidente frente a sua parte na ECA for bom, nós só temos a ganhar.


Reprodução: Getty Images
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A entrada de De Laurentiis na ECA pode demonstrar a realidade do clube dentro e fora de campo