A fundação e os primeiros anos de vida do Napoli

Para entender o nascimento do Napoli em 1º de agosto em 1926, é preciso entender como se construiu o futebol na cidade de Nápoles. Tudo começou quando no Campo de Marte, uma espécie de Jockey Club napolitano, em 1896, com um amistoso entre o Circolo Canottieri Italia, clube de canoístas e velejadores, contra um time de demais atletas de esportes náuticos.


Mas a popularidade do futebol em Nápoles começou em 1904, quando foi criado o Naples Foot-Ball & Cricket Club, por ingleses da região. O Naples teve sucesso, conquistando algumas competições menores e sendo uma força regional. Por outro lado, em 1911, foi fundada a Unione Sportiva Internazionale Napoli, que virou concorrente do Naples na região.


Naquele tempo, o campeonato italiano era organizado da seguinte forma: haviam categorias regionais no norte, e os vencedores regionais se classificavam para um grupo nacional. No centro-sul, duas categorias, a romana e a toscana, os vencedores se juntavam aos dois campanos, Naples e Internazionale Napoli, para jogar a fase final da sua liga.


Os vencedores gerais, como se fossem os vencedores de cada "conferência", se enfrentavam na final em busca do título nacional de campeão italiano, semelhante ao estilo que é consagrado até hoje pelas grandes ligas americanas de beisebol (MLB), hóquei no gelo (NHL), basquete (NBA) e futebol americano (NFL).


Entre 1915 e 1919, o campeonato não foi disputado por conta da Primeira Guerra Mundial. Após o fim da guerra, o campeonato regional campano passou a ter mais equipes, de repente o campeonato passou a ter também equipes como a Puteolana (sim), a Bagnolese, a Pro-Napoli, entre outros times.


Deste período, o Savoia, de Torre Annunziata (região metropolitana de Nápoles), foi o mais bem sucedido, chegando a fazer uma final de campeonato com o Genoa na temporada 1923-24. Enquanto isso, em 1922, Naples e Internazionale Napoli se fundiram e formaram o Internaples.


Mas na temporada 1925-26, o Savoia deixou de existir. E nessa temporada, com a contratação de alguns jogadores e do técnico do extinto Savoia, o Internaples chegou até a final da Liga Sul. Perdeu o jogo de ida para o Alba por 6 a 1, não conseguiu reverter na volta, e após a revoltada invasão de campo dos tifosi, o campo foi interditado e jogadores saíram do clube.

Domínio público
Domínio público

Uma rara imagem do primeiro time da história do Napoli


O então presidente do clube, Giorgio Ascarelli, via ali uma oportunidade de crescer. Ascarelli era um jovem industrial de sucesso na região, foi vice-prefeito de Nápoles no passado, e foi proprietário de uma grande indústria têxtil, além de ser também dono de uma loja maçônica.


Acima de tudo, Ascarelli é um homem até hoje respeitado pela comunidade hebraica napolitana. Afinal, ele foi o protagonista do "renascimento hebraico napolitano", movimento que só foi interrompido com a promulgação das leis raciais fascistas aprovadas pelo governo Mussolini em 1938.


Ascarelli acima de tudo notava que o futebol estava crescendo. Mas aos poucos, notava que as garras do regime fascista cresciam. E assim, após assembleia dos sócios, no dia 1º de agosto de 1926, o Internaples viraria a Associazione Calcio Napoli, como um novo clube, do zero.


Na fundação, se comenta o motivo da escolha pela troca de nomes. Inter poderia remeter a Internazionale, logo, ao comunismo, razão em que a Internazionale de Milão teve de trocar o seu nome no período fascista para Ambrosiana-Inter.


Outro problema no nome: o Naples de Internaples poderia remeter a uma influência estrangeira, e o governo também era contra os nomes estrangeiros. Tanto que naquele período, Genoa e Milan viraram Genova e Milano, e a Juventus deixou de utilizar o "Football Club".


A fundação do Napoli fez parte de um contexto importante para o futebol italiano. No dia seguinte a fundação do clube, foi publicada a Carta de Viareggio, que organizou o profissionalismo no país, e que instituiu, além de um bloqueio para jogadores estrangeiros, uma nacionalização do campeonato, sem os grupos regionais. 


Nos primeiros anos de Napoli, o clube foi aos poucos se tornando competitivo. Nas três primeiras temporada, os partenopei se mantiveram na primeira divisão em meio a grupos diferentes, e apenas três equipes do sul militando no topo da Divisione Nazionale.


Até que em 1929, aproveitando o seu prestígio, Giorgio Ascarelli idealizou um campeonato aumentado para 18 equipes, e que esse campeonato tivesse um grupo único, com turno e returno. Nascia assim, a Serie A italiana como conhecemos hoje.


Para aquela temporada, o Napoli se reforçou bem. Para jogar com Attila Sallustro, ítalo-paraguaio que desde o início da história do clube era o principal artilheiro do time, os azzurri contrataram Vojak junto a Juventus, e o inglês William Garbutt, campeão pelo Genoa, para o comando do time.


No meio da temporada, um grande salto para a equipe: a inauguração do estádio Vesúvio, que depois viraria o estádio Partenopeo, de propriedade privada do clube. Construído em sete meses, foi um símbolo da modernidade da época. Ascarelli pode inaugurá-lo na vitória por 4 a 1 diante da Triestina pela Serie A de 1929-30.


Mas infelizmente não pode desfrutá-lo por tanto tempo. Giorgio Ascarelli morreu jovem, antes de completar 36 anos, no dia 12 de março de 1930. Morreu com uma peritonite, uma inflamação na região intestinal. O estádio Partenopeo viria a ser rebatizado com o seu nome.


Reprodução: Extranapoli
Reprodução: Extranapoli

Giorgio Ascarelli, ao lado de um dos maiores artilheiros do Napoli até hoje: Attila Sallustro.


Durante a década de 30, o Napoli continuou brigando pelo título. A dupla de Sallustro e Vojak continuava prolífica, a ponto de os dois servirem a seleção italiana, e o ítalo-brasileiro Paulo Innocenti ainda capitanearia por muito tempo a equipe.  


O sucesso técnico era grande, em 1932-33 pela primeira vez o Napoli brigou pelo Scudetto, terminando em 3º lugar, posto pelo qual terminou na temporada seguinte, em ambas as vezes se classificando para a Copa Mitropa, uma espécie de Champions League da época.


Quanto ao estádio, em 1934 as coisas começariam a ficar estranhas. O estádio foi requisitado pelo regime fascista para a disputa da Copa do Mundo, e de uma hora pra outra, passou a ser estádio da prefeitura de Nápoles, e voltou a ser batizado com o nome de Partenopeo.


Giorgio Ascarelli não era mais vivo, mas se via ali que a homenagem a ele se perdeu com o fato de em vida, ser judeu. Por outro lado, o regime não fez propaganda com o seu nome, como fez com o nome do estádio que sediou dois jogos da Copa do Mundo de 1934, que era tratado como símbolo de progresso do sul do país pelo governo Mussolini.


Por outro lado, o estádio seguiu sendo palco das partidas do Napoli, que em 1937, chegou a experimentar, de maneira pioneira, a entrada gratuita de mulheres para os jogos do clube. 


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Enquanto isso, dentro de campo, o Napoli a partir de 1936, com a chegada de Achille Lauro na presidência, passou a rever a política de contratar jogadores caros, e assim, foram embora jogadores como Vojak e Sallustro, que se mantém até hoje entre os maiores artilheiros da história, e outros como Enrico Colombari também deixaram o clube.


De repente, o Napoli que flertava com a briga pelo título, passou a flertar com o rebaixamento em 1939-40, com uma leve recuperação nas temporadas seguintes, mas a temporada 1941-42 foi caótica para o clube, dentro e fora de campo.


Dentro de campo, o clube não conseguiu evitar o primeiro rebaixamento da sua história. Fora de campo, no ano de 1942, por causa dos bombardeios dos Aliados na segunda guerra mundial, o estádio Partenopeo teve de deixar de ser usado, e posteriormente seria destruído e demolido. 


Depois do terceiro lugar na Serie B em 1942-43, insuficiente para o acesso, o futebol teve de parar por um tempo na Itália. As forças alemãs nazistas chegaram a invadir a cidade, e fazer o então novo campo do Napoli, o estádio Arturo Collana, como campo de concentração, no início de setembro de 1943.


Entre 27 e 30 de setembro de 1943, houve um movimento chamado "Le quattro giornate di Napoli" ("Os quatro dias de Nápoles"), nos quais os napolitanos se rebelaram contra a dominação das forças alemãs, e em um movimento meio descordenado, começaram a atacar quem os oprimia.


Haviam notícias que os alemães executavam os prisioneiros da cidade. De repente, os habitantes se rebelaram, levantam barricadas nas ruas da cidade, colocam atiradores nos telhados e estacionamentos e jogam granadas nos tanques. Quatro dias mais tarde, a Wehrmacht alemã foi forçada a abandonar Nápoles. A população napolitana expulsou os nazistas da cidade.


Com o fim da guerra e do regime fascista em 1945, o Napoli pode recomeçar sendo líder do seu grupo e ficando em 5º lugar na fase final da Serie A de 1945-46, que foi uma espécie de Copa João Havelange da época, com times da B se cruzando para fazer a fase final com equipes da A. Com o fim da guerra, o Napoli poderia finalmente recomeçar em paz a sua história.


Domínio público
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O estádio Partenopeo, inaugurado como Vesúvio, e que teve o nome de Giorgio Ascarelli



"Enquanto estamos gratos aos que têm sido nossa matriz, a importância do momento e da maior dignidade que nossa parceria é chamada, me sugerem um novo nome, novo e velho como a terra que nos sustenta, um nome que abrange todo no coração da cidade para a qual estamos gratos por ter nos dado à luz, trabalho e riqueza. Proponho que o Internaples a partir de agora, e para sempre, seja chamado de Associazione Calcio Napoli" - Giorgio Ascarelli, 1º de agosto de 1926