O que os 10 anos de Hamsik no Napoli podem ensinar a Donnarumma

Neste último 28 de junho, completam-se 10 anos que um jovem eslovaco chamado Marek Hamsik foi contratado pelo Napoli junto ao Brescia pela quantia de 5,5 milhões de euros. A quantia era alta pra época. Mas o tempo provou que foi uma bagatela.


Logo de cara, Marek marcou gol em sua estreia oficial na vitória diante do Cesena pela Coppa Italia e, na estreia em casa pela Serie A, marcou o seu primeiro gol diante da Sampdoria. O que já mostrou uma temporada promissora, em que ele marcou até gols em clássicos contra Milan e Roma.


A parceria com Lavezzi e outros nomes como Zalayeta, Calaiò, Pampa Sosa e Domizzi marcou a campanha em que o eslovaco foi o artilheiro do time na temporada, garantindo o retorno às copas europeias, com a vaga na Copa da UEFA. Ele também foi eleito o melhor jogador jovem do campeonato, sendo o primeiro jogador estrangeiro a conseguir o feito.


Foi quebrando recordes atrás de recordes, foi artilheiro do Napoli durante três temporadas consecutivas, só atrás de Maradona (artilheiro em quatro), enquanto classificava a sua Eslováquia para a Copa do Mundo de 2010. Contra a Fiorentina em 2009-10, virou o capitão mais jovem da história do Napoli.


Se confirmou como craque aos olhos do mundo com a chegada de Cavani. Ao lado de Lavezzi, os dois fizeram maravilhas na temporada 2010-11 e voltaram a classificar o Napoli para uma Champions League, com o terceiro lugar. Sempre como protagonista e uma das estrelas do time.


Continuou a ser estrela na temporada seguinte. Sempre fazendo a diferença nos grandes confrontos da Champions. Participando das jogadas dos gols de Cavani e Lavezzi. E fazendo os seus, como fez no jogo da classificação as oitavas contra o Villarreal fora de casa, espantando o fantasma da eliminação na edição anterior da Europa League contra o mesmo submarino amarelo.


Embora a continuação na Champions não veio com o quinto lugar na Serie A, ele foi decisivo durante toda a Coppa Italia daquele ano. E marcou o gol que assegurou o título numa vitória inesquecível contra a toda-poderosa e então invicta Juventus, na despedida de Del Piero. O primeiro título do Napoli em 22 anos tinha a marca dele.


Em 2012-13, em meio a uma excelente temporada de Cavani, também fez a sua marca com 11 gols na temporada e o vice-campeonato italiano. Com Benítez, somando-se a saída de Paolo Cannavaro, virou o capitão da equipe, embora tivesse lá seus problemas com o treinador espanhol. 


Já em 2013-14 conseguiu marcas importantes. Voltou a ser campeão da Coppa Italia, com direito a passe pra gol na final, e atingiu 300 jogos com a camisa napolitana. Em 2014-15, veio a Supercoppa com um recorde de gols - 13 vezes que o capitão encontrou as redes adversárias.


O seu melhor momento foi com Sarri. Se tornou mais assistente ainda. Embora não tenha marcado tantos gols na primeira temporada, em que distribuia muitas bolas aos atacantes, na segunda bateu seu próprio recorde, fazendo 15 gols na temporada, e não apenas servindo Mertens, Milik, Callejón e Insigne. 


Reprodução: Getty Images
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O último dos moicanos


Ele serve como um grande exemplo. Mas o que toda essa trajetória dos 10 anos de Hamsik no Napoli tem a ver com a questão de jovens jogadores como Donnarumma, frequentemente assediados, e com a cabeça feita por empresários do mundo todo? Tudo. 


É frequente a pergunta em transmissões internacionais, como se o Napoli não fosse um clube que mantém seus jogadores, sobre "o que Hamsik ainda faz no Napoli?", "como ainda não tiraram Hamsik dali?". Durante a Euro 2016, o técnico eslovaco Jan Kozak fez essa pergunta publicamente em entrevista coletiva.


A todas essas questões, o capitão napolitano sempre ignorou. Sempre declara ser feliz em Nápoles. Sempre recusou propostas para sair e sempre teve vontade de vencer mais pelo Napoli. Não à toa é ídolo da torcida. Mas para atingir esse status e esses 10 anos, foi preciso recusar muitas propostas.


Voltando a 2010-11, em que Hamsik era o craque do time napolitano, é sempre bom lembrar quem era seu empresário. O mesmo de Donnarumma, ou de outros que não são tão conhecidos pela lealdade, como Ibrahimovic (já oferecido umas 300 vezes ao Napoli) e Balotelli (oferecido outras 600).


O Napoli tinha uma proposta na mesa do Milan: dinheiro e mais Alexandre Pato por Hamsik. A negociação já foi barrada pelo próprio jogador. Houve uma tentativa de negociação com a Inter. Ele negou. Foi também especulado em Real Madrid, Manchester City e vários outros. Preferiu ficar para a Champions.


Durante a temporada, seu agente queria forçar uma venda. Houve assédios claros na época também de uma outra proposta da Internazionale e Manchester United, esta que poderia balançar mais o coração do eslovaco, pois o United era um de seus "times de infância" ao lado do Barcelona e do Slovan Bratislava. Ele negou.


Mino, preparando o terreno pra uma tentativa de venda, já disse as vésperas de um jogo contra o Bayern pela Champions, em 2011, que o ambiente napolitano não era muito bom, o que o próprio Hamsik desmentiu. Ali, os dois começaram a romper, e a relação de jogador e empresário terminou definitivamente em 2012. 


Mino Raiola, em meio a todo o fim da história, dizia publicamente que Hamsik deveria sair do Napoli para se tornar grande no futebol. Um jogador como Marek não era comum para se lidar para um empresário do calibre de Raiola. Não à toa que, entre os agenciados dele, não há nenhum jogador que seja uma "bandeira" de seu clube.


O maior exemplo da escolha de vida que Hamsik fez é que somente um jogador se igualou a ele entre os que "deram um pé na bunda" de Mino Raiola. O grande ídolo de Marek e, ironicamente, da odiada rival napolitana, a Juventus: Pavel Nedved, que recusou uma grande oferta do Chelsea para ficar na Juve em tempos de Serie B.


Lealdade que o próprio Nedved, como vice-presidente da Juventus, viu em 2015, quando os bianconeri fizeram propostas a Hamsik, e o capitão negou. O tcheco lamenta, dizendo que "se Hamsik tivesse ido para a Juventus, viraria Bola de Ouro, mas sua carreira é fantástica mesmo assim".


Embora Nedved esteja aumentando a história, tendo em vista que o próprio diretor-esportivo Marotta na época disse que o Napoli também recusou a proposta, com direito a uma "contraoferta" de 50 milhões mais os jovens Rugani e Sturaro, isso mostra o quanto a lealdade de um jogador incomoda muita gente. Principalmente empresários.


Mino Raiola já provou que nunca aceitou muito bem essa situação. Já lamentou publicamente que "Hamsik poderia ser um jogador de 60, 70 milhões, agora eu nem sei quanto ele vale". No que foi prontamente respondido por Marek: "Ele tem o seu pensamento, eu tenho o meu. Estou contente aqui", declarou.


Hamsik é um jogador que é respeitado na bola e respeitado fora de campo. Um dos maiores exemplos foi visto em meio a este imbróglio entre Donnarumma e o Milan. A Curva Sud, a maior organizada de um dos maiores rivais napolitanos, o citou como exemplo do que Donnarumma deveria fazer.


Quando um capitão do Napoli é exaltado pela torcida do Milan como exemplo de lealdade ao seu clube, é porque se tem o exemplo de um jogador que respeita as suas cores. Em tempos que o futebol fica órfão de pessoas como Totti e Del Piero, de amor à camisa, jogadores que se mantêm fiéis a uma paixão por vários anos sempre são o exemplo. E as exceções hão de ser sempre bem lembradas. 


Terceiro jogador com mais jogos com a camisa do Napoli e atualmente o segundo maior artilheiro do clube, com perspectivas de que passe Maradona já em 2017-18, sendo campeão pelo clube, embora talvez tenha deixado de ganhar mais títulos e dinheiro. Não dá pra dizer que a escolha dele não valeu a pena.


O próprio jogador disse ao Players' Tribune algo que define o que é vencer em Nápoles: "Quando você vence aqui, é melhor do que vencer em qualquer outro lugar no mundo. Porque não só nós como jogadores vencemos. Uma cidade, um povo vence. 



“Tenho tudo que eu sempre precisei em Nápoles e na Itália. O futebol é importante para mim, e poder jogar pelo Napoli por dez anos tem sido uma das maiores honras da minha vida. Mas a razão pela qual eu fiquei tanto tempo é mais do que futebol. Em Nápoles, eu sou parte de uma comunidade – uma família – que tem um lugar muito especial dentro do meu coração. Preciso ter mais do que ter um salário e taças. Eu preciso sentir algo na minha alma. Nápoles me deu isso, e eu sou eternamente grato. Obrigado”. - Marek Hamsik ao "The Players' Tribune"



Por fim, o que Hamsik pode ensinar a vários jovens do futebol atual e, principalmente, a Donnarumma, é que a lealdade, a paixão, e o respeito ao clube por onde você veste a camisa e a massa lhe idolatra são o que no fim vale a pena.


É bem verdade que o dinheiro faz diferença. Jogador não é mais escravo de clube como era antigamente. Mas também não pode ser escravo de empresários ou escravo do dinheiro. E idolatrias como a de Hamsik mostram a consequência de optar por não ser refém de empresários. E que a paixão sempre recompensa. Sempre vale a pena ser herói de uma camisa.


Obrigado, Marek Hamsik, pelos 10 anos em que honra a camisa do Napoli. E que venham mais 10, se possível. 


Site oficial: SSC Napoli
Site oficial: SSC Napoli

Só existe um capitão