Até que ponto a experiência faz diferença na luta por títulos?

Nas duas derrotas napolitanas contra o Real Madrid que geraram a eliminação na Champions League, escrevi os textos "Apesar da eliminação, orgulho e uma ponta de esperança" e "Napoli pecou pela inexperiência na Champions". Em ambos, um ponto em comum: a falta de experiência ajudou na eliminação no maior torneio de clubes do mundo.


Mas as campanhas de alguns dos semifinalistas europeus, como o Monaco na Champions League e que também está próximo ao título da Ligue 1 francesa, além dos semifinalistas da Europa League, Ajax e Lyon, deixam uma questão: é possível ser campeão com um time jovem e até certo ponto inexperiente? Até que ponto é possível levar um time rodeado de jovens aos caminhos da glória?


Esta é uma questão frequentemente debatida quando times com base jovem, como o Napoli e o Borussia Dortmund, brigam por títulos em seus países, mas esbarram na experiência de outros campeões, como Juventus e Bayern. 


Com uma base jovem, o Monaco conquistou um título francês que não vinha desde 2000 e chegou a uma semifinal de Champions League. Mas justamente esbarrou na experiência de um time como a Juventus na principal comeptição europeia. 


Ajax e Lyon fizeram uma semifinal entre dois dos times mais novos da Europa. Os holandeses possuem uma média de idade por volta de 22 anos. O time francês foi à semifinal da Europa League com uma média de 24,8 anos. Embora não tenha tido tanto sucesso na Ligue 1, longe da Champions League, o time é o sexto mais jovem das 5 grandes ligas europeias. 


Mas ao Monaco há uma questão importante a se analisar: seus adversários pelo caminho possuem times tão jovens quanto. O PSG tem apenas cinco jogadores acima dos 30 anos. O Borussia Dortmund, seu adversário e quadrifinalista da Champions, tem apenas um jogador de linha com mais de 30 anos, o lateral Piszczek.


A exceção a esses adversários foi o City, adversário do Monaco nas oitavas-de-final da Champions, que tem ao todo 12 jogadores de seu elenco que atingiram os 30 anos ou mais de idade. Embora os jogadores de até 25 anos, como Sané, Gabriel Jesus, De Bruyne e Sterling, sejam constantemente utilizados por Guardiola, a predominância é de veteranos (o que certamente será oxigenado na próxima janela de transferências).


Alguns dos principais adversários dos monegascos estão entre as equipes mais jovens da Europa. O já citado Borussia Dortmund, que está na lista dentre as 25 mais jovens equipes europeias, e alguns outros adversários da Ligue 1, como o Nice, que brigou pelo título durante boa parte da temporada, e o próprio Lyon. 


Por outro lado, em relação à experiência de títulos, o Monaco tem apenas um jogador com histórico vencedor de ligas - João Moutinho, campeão português pelo Porto. Menos do que o Nice, com Dante e Balotelli, e muito menos do que o PSG, para citar dois de seus adversários na luta pelo título francês.


Quanto às campanhas de Ajax e Lyon, idem. O Lyon teve adversários de times relativamente mais jovens ou mais inexperientes, como o AZ Alkmaar e a Roma, assim como o Ajax, que enfrentou outros times de jogadores jovens e inexperientes, como o Schalke. 


A questão do Ajax pode ser confrontada com o título holandês do Feyenoord, que contou com jogadores um pouco mais experientes em termos de idade e rodagem, como Brad Jones e Dirk Kuyt.


Em relação à experiência de taças, os Godenzonen têm apenas quatro jogadores que já foram campeões, e em sua maioria pelo próprio clube, como o capitão Klaassen, o vice-capitão Veltman, o terceiro-capitão Schone, além de Riedewald - os quatro mais experientes do clube e campeões pelo clube.


Algumas ligas, com a não predominância de mesclas entre jogadores no auge e outros com experiência, podem permitir que times como Ajax e Monaco triunfem de primeira. Nas ligas pelo mundo, há exceções maiores vindas de times mais jovens e inexperientes. 


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A soma de falta de experiência com poucos campeões, inexperiência de muitos e um time com peças jovens deu em título para o Leicester de Ranieri


Mas quanto a títulos, especialmente os continentais, times vencedores se moldam com derrotas. De fato, no histórico da UEFA Champions League, poucos times apareceram "do nada" e ganharam. Na própria UEFA Europa League os casos aumentam apenas ligeiramente.


Na Europa, são raros os casos de campeões ou mesmo finalistas, como na Libertadores com o Atlético-MG, por exemplo, que estava longe da maior competição da América há 13 anos e retornou com uma conquista de maneira épica, como primeiro geral na fase de grupos e ganhando tudo em casa. 


Há quem diga que é preciso fracassar primeiro pra depois ganhar "cancha". Até mesmo em ligas essa questão é forte. Na Itália, sempre os campeões tiveram boas posições no ano anterior, ou eram equipes que já haviam vencido no passado. Além disso, dizem também que a recíproca é mais forte na Champions League e em outras copas do gênero. 


E de fato, na era Champions League, após a temporada 1992-93, muitos dos campeões bateram na trave nos anos anteriores, seja na própria Champions ou mesmo na Recopa ou na Europa League. Poucos campeões da era Champions League apareceram do nada.


Quase todos os campeões estiveram no mínimo nas quartas-de-final da edição anterior, ou mesmo com boas campanhas na Copa da UEFA, como foi o caso do Ajax (campeão da EL em 91-92 e da CL em 94-95) ou da Juventus (finalista da EL em 94-95 e campeão da CL em 95-96).


As únicas exceções foram o Real Madrid campeão de 1997-98, que não havia disputado competição europeia em 1996-97, e o Liverpool campeão em 2004-05, eliminado logo na primeira rodada diante do Olympique Marseille na Copa da UEFA de 2003-04.


É bem verdade que muitos desses times vencedores souberam também manter o seu elenco que não havia triunfado no ano anterior, com uma importante remanescência. Mas montar um time "do nada" e guiá-lo para as vitórias é muito mais difícil. Até por conta disso, o título do Leicester na Premier League pela temporada passada foi tão improvável.


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Mbappé, o astro jovem que faz muita gente se repensar quanto a questão da experiência para vencer


Há ainda a discussão sobre ter jogadores campeões para fazer a diferença. Vamos examinar duas das maiores hegemonias do futebol europeu. A Juventus, que vem pra seu hexacampeonato inédito na Itália, e o Bayern, que já garantiu o seu pentacampeonato inédito na Alemanha.


No início da hegemonia bianconera, a Juve alternou poucos jovens em seu primeiro scudetto. O mais novo era Luca Marrone, então com 24 anos. E de experiência, 12 dos seus 25 jogadores do elenco haviam sido campeões nacionais em algum lugar. Alguns pela própria Juve, outros em ligas de outros países, como Barzagli (Bundesliga pelo Wolfsburg) ou até Vidal (Chileno pelo Colo Colo).


No Bayern, 16 dos 28 jogadores bávaros já haviam sido campeões de ligas. Apenas Shaqiri e Mandzukic na primeira temporada, a do inesquecível triplete bávaro em 2012-13, não haviam sido campeões pelo próprio time da Baviera, e sim apenas em seus países. 


Analisemos seus adversários: na Itália, a Roma tem um time relativamente jovem, com apenas quatro jogadores acima dos 30 anos. Duas delas são patrimônio do clube, Totti e De Rossi pertencem a outra realidade. Mas fora essas bandeiras, os giallorossi têm apenas Vermaelen e o artilheiro Dzeko entre os acima dos 30. Três dos quatro, campeões de ligas (Vermaelen pero no mucho).


Fora estes 3 campeões, os romanistas têm no elenco outros campeões, como Paredes (Boca), Salah (Basel e Chelsea) e Manolas (Olympiakos). O Napoli entra nessa história com apenas poucos campeões, como Albiol e Callejón (Real Madrid), Rog (Dínamo Zagreb), Reina (reserva do Bayern) e Giaccherini (Juventus).  


De experiência dentro de campo por idade, então, o Napoli tem, assim como a rival Roma, quatro jogadores acima dos 30 anos. Apenas dois titulares, Reina e Albiol, embora Giaccherini e Maggio constantemente entrem no time. Mas diferentemente dos rivais, temos alguns jogadores sub-23 constantemente utilizados, como Milik, Zielinski, Rog, Diawara e o titular absoluto Hysaj. 


Dos constantemente utilizados por Sarri, a outra parte está entre os 25 e 30 anos. O capitão Hamsik, Callejón, Mertens, que logo invadirão a faixa dos acima de 30, outros mais jovens, como Allan e Ghoulam, acima dos 25, e outros que completarão acima de 25, como Insigne, Koulibaly e Jorginho.


A Juve tem uma equipe completa de experientes. Dentre os seus defensores, apenas Alex Sandro e Rugani não têm mais de 30 anos ou estão por ultrapassar essa faixa. Em comparação com rivais, a velha senhora tem apenas Dybala e Rugani de jogadores sub-23 constantemente utilizados. 


Além disso, o time juventino possui em seu elenco 10 jogadores entre os mais de 30 anos e os que estão por ultrapassar essa faixa. Em compensação, no grupo juventino, apenas o recém-contratado Pjanic nunca ganhou um título de liga na carreira em algum país.  


Na Alemanha, temos o caso já citado neste texto do Borussia Dortmund. Nesta temporada, de adversários no grupo dos quatro primeiros, tivemos o Hoffenheim e seu adversário mais próximo, o RB Leipzig, que possui uma filosofia de apenas apostar em garotos com menos de 25 anos de idade.


Já no caso do Bayern, embora se fale em um envelhecimento das peças por conta das aposentadorias de Xabi Alonso e Lahm, o elenco bávaro não é tão envelhecido, apesar que boa parte do seu plantel está na faixa entre os 25 e 30 anos - dos menores de 25 anos, apenas Alaba, Bernat, Kimmich, Coman e Renato Sanches jogaram nesta temporada.


Agora, vamos mudar para outro supercampeão que não vence há algum tempo sua Liga. O Real Madrid deve quebrar o jejum e vencer La Liga após 5 temporadas em branco. Tempo longo para um dos clubes de maior camisa do futebol mundial. Apenas seis dos 24 jogadores madridistas venceram a Liga pelo clube merengue - outros quatro venceram fora do clube (James, Danilo, Coentrão e Kroos).  


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Já no seu eterno rival Barcelona, há um grupo de base jovem, com poucos jogadores acima ou na faixa dos 30 anos de idade. Do elenco blaugraná, apenas Paco Alcácer, Umtiti e André Gomes, que chegaram nessa temporada, não foram campeões de liga.


Na Premier League, temos o fato do campeão Chelsea ser um time mais veterano em relação aos adversários, embora só tenha dois jogadores com mais de 30 anos (os zagueiros Terry e Cahill). Apenas o goleiro reserva Begovic, Batshuayi e o titular Marcos Alonso não foram campeões entre os jogadores do elenco dos blues. 


Enquanto isso, seus principais adversários, como Tottenham e Liverpool, possuem times jovens e com poucos jogadores campeões no elenco. O Arsenal tem uma política baseada em times jovens e com menos campeões no elenco. Destes, apenas Cech, Alexis Sánchez e Ozil foram campeões de ligas. 


Usando times mais antigos que foram campeões na Europa: o time do Chelsea campeão inglês em 2004-05 mesclava experiência de alguns campeões, como Kezman e Robben no PSV, os portugueses Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho, campeões da Champions League no Porto, e alguns outros jovens. 


Mas qual a verdadeira conclusão disso? O ideal é sempre mesclar os dois: a experiência de vencedores, com a juventude de jovens que buscam novas conquistas. A experiência não está aliada necessariamente à idade. E a busca de novas conquistas também não é restrita aos jovens. Os experientes ajudam a juventude a trilhar o caminho das vitórias; a juventude dá mais gás nos momentos necessários para vencer. 


Ainda assim, em casos como o do Leicester na temporada passada na Premier League, ou em diversos casos históricos em que um time jovem tem boas chances de título, fica a questão, que nunca terá uma resposta definitiva: até que ponto a experiência faz diferença na luta por títulos?


São questões que interessam o torcedor não só do Napoli, do Borussia Dortmund, do Tottenham, de equipes jovens, ou de times mais veteranos, como o Bayern, o Feyenoord, a Juventus, além de torcedores de todo o mundo, que sonham diariamente com títulos de seus times.


E acima de tudo, como no futebol, nunca terá uma resposta definitiva, ainda mais hoje em dia, em que um título vindo do nada parece tão perto quando se vê o Leicester e tão longe quando se vê o quarteto Real Madrid, Barcelona, Bayern e Juventus. 


Site oficial: SSC Napoli
Site oficial: SSC Napoli

Diawara, jogador do Napoli, 19 anos, titular em uma partida contra o Real Madrid pela Champions League