Napoli: chegou a hora do perdão a Quagliarella

Reprodução: Getty Images
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O tempo está fazendo a torcida napolitana perdoar Quagliarella...


Não é preciso contar a ninguém o tamanho da rivalidade entre Juventus e Napoli. Vide o jogo da última terça-feira, por exemplo. Assim como não é preciso contar o que acontece quando um jogador troca um clube por outro. Sívori, Altafini, Ferrara e, mais especificamente, Higuaín estão aí pra provar as reações.


Outro jogador transcendeu esse exemplo. Seu nome: Fabio Quagliarella. Nascido em Castellammare di Stabia, na região metropolitana de Nápoles, no dia 31 de janeiro de 1983, foi mais um dos jovens daquela região a torcer pelo Napoli e sonhar em jogar pelo clube.


Mas em meio à crise do time partenopeo e a busca fraca por talentos a partir dos anos 90 (esta que persiste até os dias de hoje), o jovem começou a carreira no Torino. Depois de passagens pela Udinese, Ascoli e Sampdoria e com a presença cada vez mais constante na seleção italiana, em 2009, Fabio pôde realizar o seu sonho.


Por 16 milhões, mais o passe de Domizzi, o Napoli contratou o jogador, que jogara a Copa das Confederações do mesmo ano com a Azzurra. Logo nos primeiros jogos pelo clube, já deixou sua marca. Sempre participava bem no ataque, criava chances e fazia quando tinha elas.


Em meio aos altos e baixos da temporada napolitana, que viveu entre o céu com vitórias em clássicos, com direito a doppietta na Juventus (no jogo do San Paolo, Quagliarella deixou sua marca), e o inferno (dois meses sem vitória), Quagliarella marcou 11 gols em 34 jogos.


Depois do fracasso da seleção italiana na Copa de 2010, em que o atacante fora convocado por Lippi, o Napoli começava seus preparativos para a temporada 2010-11 com um ataque ainda mais forte, já que trazia Cavani do Palermo. Mas em meio aos confrontos contra o Elfsborg na Europa League, uma bomba: Fabio Quagliarella estava vendido para a Juventus.


Para quem vive a rivalidade, sabe que, para um torcedor do Napoli, ver o seu ídolo sair para a Juventus é a morte. Pior ainda, um torcedor de infância do clube, nascido e crescido na região, vestir a camisa da maior rival do norte, justo ela que lhe "roubou" tantos jogadores no passado. 


Justo a grande rival, tida pelos napolitanos, a grande representação do sul da Itália, como a maior representação do norte, que lhe tomou dinheiro, força de trabalho e que sempre "retribui" todo o esforço dos sulistas com racismo e discriminação territorial (como cantado pelos juventinos na terça-feira, e exemplificado neste post aqui do blog)


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Desde a sua venda, em 27 de agosto de 2010, ele foi achincalhado como traidor pelo torcedor do Napoli. Judas nos primeiros confrontos. Vaias em todos eles, por mais que, quando marcasse contra o clube, Quagliarella nunca comemorasse. E foi assim quando ele marcou primeiro no clássico entre as duas equipes em abril de 2012 na vitória bianconera por 3 a 0.


Por outro lado, a vingança napolitana veio na mesma temporada na final da Coppa Italia. Na despedida de Del Piero, o Napoli venceu por 2 a 0, voltou a ser campeão, impediu a doppietta juventina na temporada - e, de quebra, viu Quagliarella ser expulso de campo.


A guerra entre torcida napolitana e o atacante teve diversos momentos. Foi vista já nos tempos de Torino, quando o mesmo marcou no San Paolo pela primeira vez e não comemorou, e quando jogou pela Sampdoria, já em 2017. Parecia uma relação que teria um enorme rancor até o fim da carreira.


Mas, após o fim do jogo da Sampdoria contra o Cagliari, no dia 17 de fevereiro, na saída de campo, Quagliarella, chorando, contou que ele e sua família viviam um longo momento muito difícil. E comemorou que finalmente o seu pesadelo havia acabado.


Já naquela entrevista a Sky Sport após o fim do jogo, o atacante da Sampdoria, revelou a verdade: ele e sua família eram perseguidos por um homem, o ex-agente de polícia Raffaele Piccolo, que foi condenado nos últimos dias pelo caso de "stalking" com 4 anos e 8 meses de prisão. E declarou que essa perseguição foi o motivo de ter deixado o Napoli e a sua cidade natal.


E nesta quarta-feira, no programa de entrevistas Le Iene, do canal Mediaset, ele revelou como toda a história se iniciou, como se deu a perseguição e como toda ela gerou a sua saída do Napoli para a Juventus em 2010, em uma história repleta de falsas acusações.


Sobre como começou a relação, Fabio declarou que procurou um amigo para resolver um problema de violação de sua privacidade na Internet. Este amigo repassou a um agente da Polícia Postal, que não era ninguém menos que Raffaele Piccolo.


Raffaele logo lhe ajudaria a resolver a questão e, como retribuição, passara a pedir muitas coisas. Ingressos para os jogos, camisetas, autógrafos. Até que em um certo momento, Fabio passara a não cumpri-las. Resultado: ali começara o stalking e a perseguição.



"Quando eu estava fora de casa, o meu pai recebia mensagens em que dizia: "Seu filho está perto de Castellammare e agora vou quebrar suas pernas, vou matá-lo". Às vezes, eu estava fora da casa e tinha duas ou três chamadas não atendidas de meu pai. Quando saía ea casa, em algum momento ele olhou ao redor, sentiu-se observado, sentiu-se ameaçado. Sem saber quem ele era, ele olhou para todos com diferentes olhos, com olhar cético", declarou Quagliarella na entrevista.


"Toda vez que eu tinha que ir para Nápoles, tentava me esconder, disfarçar. Chapéus, óculos de proteção para evitar que alguém me dissesse alguma coisa - diz ele. Meus amigos me diziam: "Vamos lá, vamos para um passeio em algum lugar", mas eu dizia que não. Mas eu sempre quero dizer que nem todas as pessoas são assim, porque eu não gostaria de passar uma imagem ruim da minha terra. De fato. Eu não poderia ir a qualquer lugar, eu não poderia desfrutar a minha gente", completou.



Durante cinco anos de sua vida, Fabio sequer poderia caminhar por Nápoles sem temer o homem que assediava ele e sua família. E declarou que o stalker foi o responsável por destruir a sua reputação no Napoli a ponto de De Laurentiis considerar as ofertas para vendê-lo.


Para contar a história, Quagliarella exemplificou o que acontecia: Raffaele Piccolo enviava cartas anônimas ao clube com diversas acusações. Como acusações de pedofilia, que tinha ligações com a Camorra, com o tráfico de drogas e, por fim, com apostas, em meio ao escândalo do Calcioscommesse.


As cartas, que segundo o atacante, eram centenas, foram recebidas pelo Napoli e influenciaram na venda do jogador para a maior rival: 



"A Juventus já tinha me procurado antes, mas eu recusei. Eles disseram que eu estava me mudando para a Juventus pelo dinheiro, mas eu levei o mesmo dinheiro que eu ganhava em Nápoles", diz ele. "Eu me lembro que estávamos indo jogar na Suécia. Eu era um dos titulares. Antes da partida, me chamaram e disseram: 'Não, você não vai jogar porque lhe vendemos para a Juve, então é melhor não jogar'. Foi um momento de choque", completou.



Inclusive amigos de infância do atacante eram vítimas do torturador. Mas Raffaele cometeria um erro: disse ao pai de Quagliarella que também começara a receber mensagens intimidatórias. Pai e filho conversaram, e foram a polícia denunciá-las. Mas depois de algum tempo, descobriram que a denúncia nunca fora depositada. Justamente porque quem eles queriam ajudar era o "stalker".


Depois de um longo calvário, a condenação chegou nos últimos dias, com os 4 anos e 8 meses de prisão de pena para o torturador. Ainda que o pai de Quagliarella tenha achado pouco, afinal, a lei italiana prevê que cabe recurso, tempos longos de julgamento e que este pode cair na prescrição.



"Meu pai fez sacrifícios consideráveis, como muitas famílias no Sul. Às vezes eu dizia a ele que, com todas as oportunidades que eu tenho agora, graças ao Senhor que me deu meu dom, eu não sei se eu seria capaz de fazer os sacrifícios que ele fez. Quatro crianças crescem sem nunca nos faltar nada. Quando eu falo sobre ele falo orgulhosamente. Ter um filho que jogava no Napoli", completou, o emocionado Quagliarella.



O tempo fez todos perderem. Perdeu Quagliarella a idolatria e a chance de realizar seu sonho de ser capitão do Napoli. Perdeu o Napoli (que, cego pelas acusações e as centenas de cartas, não deu chance de defesa a Fabio) a oportunidade de ter mais um ótimo jogador.


Ainda que ambos tenham se dado bem depois disso, ganhando títulos cada um por si, seja Fabio pela Juve, ou o Napoli com jogadores como Cavani, que veio na sua esteira e também ganhou títulos e marcou muitos gols com a camisa azzurra.


Um dia a verdade sempre vem à tona. E a verdade do caso Quagliarella finalmente chegou. O culpado está pagando pelo seu crime na cadeia. E finalmente ele fez as pazes com a torcida napolitana. Depois de um sofrimento desses, ele e sua família merecem paz.


Já se fala até em uma volta dele ao clube no próximo verão, o que deixaria Quagliarella feliz, segundo o próprio. Alguns torcedores pedem o seu retorno, como forma de acerto de contas. Ninguém pensaria nisso há alguns anos. O que mostra cada vez mais que o tempo é mesmo o senhor da razão.