De Laurentiis adora fazer o papel de inimigo do Napoli

Após a partida contra o Real Madrid, De Laurentiis deu mais um dos shows midiáticos dele. Criticou Sarri. Criticou a postura da equipe, exceto a de Insigne, que, curiosamente, foi quem fez o gol. Quis ensinar padre a rezar missa (basicamente é a única comparação que vejo após ele tentar ensinar táticas a Sarri) e falou um paiol de bobagens.


O problema em questão é que não foi a primeira vez que isso ocorreu com o presidente napolitano. Por várias vezes já falou demais com relação a técnicos. Foi assim com Benítez. Foi assim com Mazzarri. Até mesmo com Donadoni, Ventura e o maestro Reja. 


Já falou demais em relação a jogadores em vista de negociações. Já falou demais em relação a Higuaín chamando-o de gordo (ainda que não tenha mentido...) em meio a uma disputa por título. Já complicou negociações por seu jeito de querer aparecer. 


Por várias vezes ele acha que a imprensa é um meio de fazer graça. Como nas ideias de estádio de 15, 20 mil pessoas. Pequeno pro tamanho da 4ª maior torcida do país. Mas lá vai ele faz gracinha com direito a "com assentos de pele humana".


Além de sua instabilidade ideológica, sempre muda a ideia de times a cada temporada. Primeiro era com jogadores mais consagrados. Depois só valia jogador latino porque o técnico falava espanhol (!!!). Depois em jogadores de equipes de baixa. Depois em jovens, de preferência italianos.


Isso deixa claro também o quanto por vezes o Napoli foi mais indeciso ao mercado nos tempos dele, ainda que tivesse acertado em alguns casos que mostram os bons momentos de hoje. E por muitas vezes os jogadores vieram não por ele, mas porque havia um treinador por trás, especialmente com Benítez.

Desde que chegou, promete o estádio. Briga com a prefeitura por isso. Mas até agora, o pouco que foi feito no San Paolo foi obra da prefeitura. E porque investir em um estádio demoraria pelo menos cinco anos para ter um retorno claro, esquecendo que um estádio daria mais autossuficiência financeira ao clube.


Prometeu várias vezes um CT para as categorias de base. Se falou em cidade, se falou que já tinha até o terreno. Hoje, o Primavera do Napoli mal tem um campo que se diga decente pra treinar. E o resultado é que, mesmo na base do único time grande na Itália que formou um melhor do mundo da FIFA, não saem tantos bons jogadores.

Reclama o dia inteiro da Serie A, que o campeonato como está é ruim, reclama da FIGC, mas, na hora da eleição, lá estava ele sendo um dos importantes apoiadores de Tavecchio. E que possivelmente deve apoiá-lo na próxima eleição, ainda este ano. 


Até a proposta de que se faça uma TV oficial do clube não saiu do papel. Enquanto isso, Juventus, Milan, Inter, Roma, Lazio e até o Torino já tomaram dianteira em relação ao Napoli nessa área. Diria eu que até essa temporada, nem mesmo um canal do YouTube que se diga decente o Napoli tinha (a não ser pelos melhores momentos de jogos passados).


Por fim, a gota d'água foi o assunto desta quarta-feira, quando resolveu criticar Sarri pela atuação da equipe no jogo contra o Real Madrid, um jogo até bom dentro das limitações do Napoli em relação ao que era o adversário. Um jogo pra chegar vivo na próxima fase. Não para De Laurentiis.


Sobre as palavras, sobrescrevo as palavras do pessoal do movimento Sarrista, a ótima página Sarrismo - Gioia e Revoluzione (o like neles no Facebook vale E MUITO a pena). Aqui vai uma tradução do primeiro "comunicado" após as palhaçadas, respondendo as frases: 



Em resposta às declarações lançadas pelo presidente Aurelio de Laurentiis ao término de Real Madrid - Napoli: 


- "Evidentemente ele pede muito de quem foi movido para um papel que não é dele"
Houve um momento no qual se decidiu de esperar muito de Mertens: Napoli–Besiktas, 19 de outubro. Eram passados dez dias da operação de Milik e Sarri já havia encontrado a chave do problema. O belga naquela noite fez gol e assistência na sua primeira como titular no centro do ataque. Atualmente tem como ativo parcial 30 partidas e 20 gols, uma média de uma realização a cada 102 minutos: superior a aquelas de Higuaín, Benzema e Lewandowski. Evidentemente, é pedir demais por sua inteligência, Presidente?



- "Os torcedores não são estúpidos, eles entendem que algumas perdas podem chegar a testar as novas contratações. Eu não ligo para sempre ganhar no campeonato, porque algumas derrotas me permitem compreender as compras e módulos de jogo. Por mais que eu chegue ao final da temporada com gente que não joga".


A torcida entende a derrota de ontem, na casa dos campeões europeus empolgados. Duvidamos que os torcedores podem, por sua vez, entender suas "derrotas de teste". Nós também duvidamos que você mesmo está disposto a aceitar transformar a Serie A em seu balcão de negócios, uma vez que o nosso crescimento e participação no cenário internacional dependem precisamente dos resultados no campeonato. Também sabe melhor do que nós, que na Itália temos uma desvantagem competitiva em relação aos concorrentes mais ricos e estruturados; não sabemos até que ponto o que se pode esperar da exposição internacional.


- "Se procura defender muito as próprias posições, quando a única que conta é a do Napoli"


Não há nenhuma posição a defender quando se discute uma equipe que não perdia uma partida de futebol desde 29 de outubro.


- Eu tenho investido dinheiro em alguns jogadores e não sei se fiz bem porque não jogam"


Dos sete jogadores contratados no verão, três já entraram de cara no time titular. Dois destes garotos - classes 1994 e 1997 - saíram da luta contra o rebaixamento ao Bernabéu em seis meses, dobrando o seu próprio valor de mercado. Outras contratações têm um tempo de jogo justo em relação ao valor e desempenho, e são inseridos em rotações sistemáticas. Entre as suas propostas futuristas para o mundo de rejuvenescimento de futebol poderia entrar no aumento do número de jogadores em campo, de 11 para 16 por equipe; temos certeza de que isso traria um retorno econômico ainda maior. Com as regras atuais, não é fácil para conceder 40 aparições por temporada para todos.


Independente das considerações sobre os seus jogadores, que, asseguramos, gozam de excelentes estimativas econômicas, gostaríamos de convidá-lo a refletir sobre a oportunidade de atacar na imprensa o seu treinador e jogadores individuais após uma data tão delicada. A imprensa mundial reconheceu a dignidade de nosso desempenho e atestou o reconhecimento de um projeto técnico significativo, em que todos estão trabalhando com paixão, impulsionado por excelentes resultados em todas as frentes. Porque acreditamos que você está informado da situação do Napoli, nós preferimos pensar que sua autolesiva explosão de ontem seja um ato concurso de ciúme de um treinador que, apesar de si mesmo, ele foi eleito pela cidade para orientar: o que você nunca foi capaz de ser. Estamos confiantes de que, como um bom homem de negócios que é, seja capaz de entender que entrar na gestão técnica não é propício para a equipe, para o ambiente e sobretudo para ele mesmo: que cada vez mais está confinado ao papel de chefe assediador, líder ausente, homem do dinheiro, inimigo da beleza.



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É ruim para todo mundo esse papel assediador que De Laurentiis faz com os treinadores do Napoli. Até mesmo para os jogadores. Não é incomum ídolos saírem brigados. Foi assim com Lavezzi, Cavani, e culminou em traições, como nos casos de Quagliarella e Higuaín.


Para completar, é bom lembrar de como é vital não encher o saco do seu treinador: Moratti em 2010 comprou Quaresma por 40 milhões de euros. Encheu o saco de Mourinho pra colocá-lo em campo? Não. E o resultado deu no triplete inesquecível para os nerazzurri.


Talvez Sarri não seja a melhor das pessoas para De Laurentiis. Não era a primeira opção. Foi a quarta tentativa depois de fracassar com Emery, Klopp e Mihajlovic. Talvez não seria nem opção se Montella tivesse rescindido antes com a Fiorentina. 


Por vezes quis se aproveitar do sucesso de Sarri pra dizer que "ele tinha bancado" (quando tínhamos apenas 3 jogos sem vitória no começo de 2015-16 e os loucos criavam caso) e que "ele tinha sugerido a mudança tática" a partir dos jogos com Brugge e Lazio em setembro de 2015. 


Já tentou colocar Sarri contra a torcida quando no meio de uma crise no ataque, em que Mertens não havia se firmado de vez, Gabbiadini ainda sofria e Milik estava lesionado, disse que o treinador havia rejeitado Aubameyang. Mas curiosamente ele não fala que naquele momento estava negociando com Icardi...

A sorte para o torcedor napolitano é que Sarri costuma ignorar as merdas que o presidente diz. Mas até quando vai aceitar? Ficará como Hamsik ou terá o fim de outros, deixando o clube? Ou De Laurentiis resolve trabalhar calado, ou ele deve voltar pra Los Angeles pra fazer seus filmes. 


Porque Aurelio De Laurentiis calado é um grande poeta. E é um grande gestor, queira ou não, um dos maiores responsáveis pelo retorno do Napoli do inferno da terceira divisão ao céu da luta pelo Scudetto e na Champions. O problema é quando ele tem que abrir a boca, especialmente fora de hora... 


Em tempo: esse texto não quer dizer que eu não reconheça o que ele fez pelo Napoli desde 2004. O problema é que, quando se quer roubar os holofotes, se esquece de fazer o mais importante: trabalhar para fazer o Napoli ser o centro das atenções. Como é com Sarri.


Reprodução: Getty Images
Reprodução: Getty Images

Até quando De Laurentiis vai querer ser o centro das atenções?