Donnarumma: quando a ambição e ingratidão desmedidas falam mais alto

Não muito mais o que ser dito além do que já conversamos sobre esse assunto. O risco de acontecer exatamente o que aconteceu ontem existia desde 2015 quando escrevi a primeira vez sobre isso e assim o foi. Em uma curtíssima coletiva de imprensa, Fassone, acompanhado de Mirabelli, deu fim à novela sobre a renovação do contrato de Donnarumma, informando a todos que o jogador e seus agente tomaram a decisão definitiva de recusar as propostas.



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Jogadores vêm e vão, isso é normal no velho esporte bretão e nós já deveríamos ter nos acostumado. O problema aqui não é Gianluigi deixar o Milan, não é ele estar doido de vontade de jogar pelo Real Madrid, ganhar todo o dinheiro do mundo e títulos o mais rápido possível. A questão é como se faz, e vou usar um paralelo que todos têm fresco na cabeça: Ricardo Izecson dos Santos Leite, o Kaká.


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Em 6 anos, títulos, fama, idolatria e dinheiro para ambos


Kaká, agenciado por seu pai, chegou no Milan em 2003 e se mandou para o Real Madrid em 2009. Nesses 6 anos de clube, ganhou todos os títulos que poderia, acumulou muito dinheiro, chegou ao auge de sua carreira. Em 2008, já quase engolido pelos rumores de sua ida para o Real Madrid, Kaká renovou seu contrato com o Diavolo, jogou mais uma temporada com a #22 rossonera e afirmou que mudaria de ares, indo para o Real Madrid, na busca de um sonho e de novos desafios, deixando nos cofres de Berlusconi e Galliani a bagatela de 65 milhões de Euros pela transferência. Até hoje não há um milanista que não ame de paixão il bambino d'oro.


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A camisa é linda, independente de quem a veste


Voltamos a 2017. Donnarumma, agenciado por Mino Raiola, jura amor ao Milan toda partida, beija o escudo todo jogo, atua em 72 partidas oficiais pelo rossonero, vê toda a torcida e diretoria planejarem o renascimento do clube ao seu redor. Com 18 anos, sem sequer um título importante pelo time que o o formou e faltando um ano para o fim de seu contrato, manda seu agente avisar que não pretende seguir no clube, apesar das ofertas de salário superior ao do melhor goleiro em atividade nos últimos 20 anos - sim, ele mesmo, Buffon. De quebra, ao não renovar o contrato, garante que ou o Milan receba muito menos do que poderia receber em caso de transferência, ou não receba absolutamente nada ao fim do seu contrato.



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Um outro exemplo que vem à memória é o de Gonzalo Higuaín. Ao sair do Napoli, ele abandonou uma torcida que o idolatrava e foi atrás de títulos e dinheiro. Por mais que ele não tenha sido um símbolo do respeito por trocar o time napolitano por seu rival direto e mortal, pelo menos Higuaín garantiu ao time de Sarri e De Laurentiis uma grana imensa, que foi reinvestida em contratações - uma bagatela de 90 milhões de euros.



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Volto a afirmar que renovar o contrato dessa vez não significaria que Donnarumma estaria se acorrentando ao Milan até o final de sua carreira, e sim garantiria que seu dito clube do coração seria recompensado pelo suporte, carinho e respeito que havia demonstrado desde o começo de sua carreira lá nos times de base.


Não foi por desafios profissionais. Não foi por influência de Mino Raiola apenas, não foi por ingenuidade. Donnarumma deixa o Milan por ambição desmedida, irresponsável e desconsiderada. A ele, boa sorte em sua carreira. Ao Milan, resta decidir o que fazer com ele até o dia 30 de junho de 2018, quando se encerra seu contrato. Sua transferência ao Real Madrid, segundo dizem, pode se realizar já nesta janela por 30 milhões de Euros ou - a minha opção favorita de vingança - retroceder o garoto ao Milan Primavera e deixá-lo sem jogar contra profissionais durante um ano, justamente às vesperas da Copa do Mundo em que ele poderia ser reserva imediato ou titular da seleção italiana, em caso de lesão de Buffon.