O que são os 'Expected Goals' e como eles explicam o bom rendimento do United

Por muitos anos tivemos certa escassez quando o assunto era análise esportiva. De não tão vastas informações disponíveis à lentidão da mídia no processo de aprofundar seus conteúdos (e o conhecimento dos profissionais), a percepção para muitos pode ter sido de estagnação. De alguns anos pra cá, porém, o cenário se transformou completamente. Materiais de qualidade podem ser encontrados na palma da mão e abrangem todas as áreas possíveis: tática, condicionamento físico, treinamento, psicologia, finanças, e por aí vai. Ironicamente, pode até se falar de um nível relativo de saturação com a gama de informações ao nosso alcance. Mas isso está longe de ser um problema e o destaque sempre será dado aos artifícios que mais agregam.


É o caso dos Expected Goals.


Conhecido como xG, esse termo que pode soar esquisito à primeira vista consiste em uma solução palpável para uma interrogação que passa na mente de todo torcedor. Quantas discussões não giram em torno de uma finalização errada que pode ser vista de várias formas? Um pensa que a culpa é do atacante, outro aponta o trabalho do goleiro e alguns se perdem para chegar a uma conclusão. Basicamente, o jogo se concentra nesse núcleo de produção de chances e precisão na execução das mesmas. Essa é a premissa que precisamos tomar para entendermos o propósito do supracitado conceito.



Michael Caley, um estudioso americano, desenvolveu a fórmula dos Expected Goals para demonstrar a qualidade das oportunidades que um time cria ou sofre. Uma série de fatores foram levados em consideração nesse processo. Todos os parâmetros saem de um chute a gol, portanto, as nuances desse fundamento se tornam nos pontos centrais para o resultado; de onde a finalização saiu (distância/ângulo)? Qual é o tipo de passe (cruzamento, bola no chão, lançamento, bola parada, lateral, rebote e etc.) que precedeu tal ação? Com qual parte do corpo foi realizada? O jogador driblou alguém antes de chutar - se sim, quantos? Qual foi a velocidade do ataque que resultou nessa conclusão?


Essa são algumas das questões que formam a estatística considerada há tempos como a queridinha da comunidade de football analytics. Na mesma linha de qualquer projeto que cause disrupção em um setor tradicionalista, o xG recebeu críticas. É plausível, por exemplo, questionarmos se a indisponibilidade da stat de 'localização dos defensores' não traz incertezas para o modelo. Um tiro de fora da área sempre vai ter uma probabilidade pequena de entrar, mas existem diferenças se havia uma onda de marcadores na frente do esférico ou absolutamente ninguém. A proporção mudaria e isso é um caso à parte, algo inclusive refinado constantemente pelos precursores da ideia.


Não vamos gastar energia nos preocupando, então, com um elemento que veio para ampliar o discernimento de uma partida. Diante deste resumo, especificaremos um pouco mais as coisas. Antes de começarmos a avaliar atuações usando tal métrica, precisamos entender o que é agradar dentro desses parâmetros. A grosso modo, uma quantia menor que 1 é ruim, entre 1 e 2 é 'ok' e acima de 2 é boa (entre 2.5 e 3 é ótima); algo além de 3 é excelente e sempre vai representar uma performance super produtiva.


Reprodução/BBC
Reprodução/BBC

Com os números de 2016/17, percebemos que Lukaku constantemente supera as expectativas de conversão de chances (Zlatan, por sua vez, nem tanto)


Aí você pode pensar que, com níveis qualitativos tão definidos, isso acaba generalizando as equipes. Certamente existem patamares mais variados nos escalões do futebol, não apenas dois ou três. Um confronto disputado pelo Barcelona, por exemplo, em tese deveria ter 7x o peso de 90 minutos jogados pelo West Brom de Tony Pulis. De alguma forma é um ponto que faz sentido, mas aí entra a grande razão dos Expected Goals: verificar a capacidade de clubes/atletas em superar ou sucumbir às expectativas.


Pegamos o triunfo do United sobre o West Ham como amostra. Os anfitriões deram início ao campeonato com uma goleada por 4 a 0, mas o xG terminou em 2.64. O que isso significa, vendo somente por esse número? Demonstra a habilidade que tivemos para ir além do esperado, transformando uma vitória que seria considerada boa nessa estatística para um resultado sublime por si. A impressão gerada nessas primeiras semanas é que, frente ao Leicester, fizemos nossa melhor aparição; em Swansea, a avalanche surgiu nos final, enquanto o embate com os hammers foi confortável. A métrica corrobora em partes tal ideia - no último sábado, tivemos 2.83 de xG e, no País de Gales, 3.69.


O jogo no Liberty Stadium se transformou a favor dos visitantes na reta derradeira, antes disso tendo equilíbrio nas ações. E a fórmula garante a clareza nesses cenários, como podemos ver na imagem abaixo. Até os 30 minutos do segundo tempo o número era de 2.58 e, dali em diante, foi crescendo exponencialmente. Sabe quando apontamos o efeito de uma substituição, mas não temos tanta base para argumentar? Pois então, a partir do momento em que Martial e Fellaini entraram no gramado (31'), a estatística foi subindo e terminou com 1,11 a mais. É lógico que os responsáveis não foram apenas eles, mas sem dúvidas é um sinal do impacto no coletivo.


Reprodução/Under Stat
Reprodução/Under Stat

Em qualidade de chances criadas, a performance do United em Swansea teve um crescimento considerável nos últimos 15 minutos


E existem diversas opiniões que se criam após entendermos a qualidade das chances criadas. Só o xG não explica completamente o que foi uma partida, mas representa um cálculo eficaz para identificarmos performances sob o ponto de vista da produtividade - e consequente eficiência, ou falta da mesma. Costumo usar o Under Stat, um site que tem sua fórmula da métrica e disponibiliza dados extensos das principais ligas europeias. Recomendo a visita e, se concorda com o valor agregado de uma estatística '2.0' (ou seja, não apenas o puro registro de um chute, passe ou qualquer fundamento que possa causar confusão se está fora de contexto), faça o uso se tornar um hábito também.


A exatidão nunca será alcançada, mas expandir a análise dos fatos e ampliar a visão sobre o esporte são práticas que devem ser perpetuadas. O que pensam sobre a relação dos jogos do United a olho nu em relação ao suporte da estatística? Pretendo trazer alguns números assim daqui em diante. Deixe sua opinião nos comentários!