NFL, pouco controle e muito dinheiro: conheça os Glazers, donos do United

*Por Rodrigo Andrade, autor convidado


O que o Manchester United e a franquia Tampa Bay Buccaneers, da NFL, têm em comum? Ambas as equipes tiveram o mesmo dono: Malcolm Glazer. Já falecido, o empresário norte-americano deixou de legado para seus filhos os dois times e a empresa First Allied Corporation. Fundada em 1984, tem sua sede localizada em Rochester, Nova York. A instituição é uma espécie de holding, que possui diversos shopping centers em 20 estados da terra do Tio Sam. Glazer chamou atenção da mídia pela primeira vez ao fracassar quando fez uma proposta de U$ 7,6 bilhões para comprar a companhia de frete ferroviário do governo, a Conrail. E construiu um currículo de experiências gigantes e algumas menores, com resultados mistos.


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Ele também adquiriu a Zapata Corporation, instituição de gás e petróleo que foi fundada pelo ex-presidente dos Estados Unidos, George H. W. Bush. No dia 16 de janeiro de 1995, o bilionário começou a se aventurar no mundo dos negócios esportivos ao comprar a franquia de futebol americano de Tampa Bay, os Buccaneers. Com a morte do antigo dono, Hugh Culverhouse, Malcolm pagou um preço que quebrou o recorde da liga: U$192 milhões.
Os fãs da agremiação não tem muito o que reclamar com o patriarca da família.



A primeira exigência quando assumiu o controle foi a construção de um novo estádio para substituir o Tampa Stadium. Em dois anos, depois de um gasto de U$168,5 milhões do condado de Hillsborough, era inaugurado na Flórida o Raymond James Stadium, que também serve de casa para a equipe da bola oval da Universidade do Sul da Flórida e para o Outback Bowl, da NCAA Football. Em suas mãos, o ambiente de Tampa Bay passou de um dos problemáticos - antes da troca no comando - para uma organização digna de viver seu momento mais vitorioso. Com um campo e as esperanças renovadas, a franquia conquistou dois títulos de divisão e faturou o principal prêmio, o Super Bowl XXXVII (em 2003), ao bater o Oakland Raiders em San Diego.


O bilionário, buscando sempre elevar seus comandados de patamar, possibilitou em 2006 a construção de um novo centro de treinamento - que na época foi considerado o mais moderno da liga. Desde 2007, quando os Bucs ganharam o título da NFC South e perderam no Wild Card para o New York Giants por 14 a 24, o conjunto sulista tem tido dificuldades para se classificar à fase final da NFL. No entanto, com a chegada do promissor quarterback Jameis Winston, ex-Florida State, o vento anda soprando pro lado certo para os piratas de Tampa Bay.


"Tenho orgulho de dizer que ele é o único dono para quem joguei", disse Derrick Brooks, membro Hall da Fama no american football e um dos maiores ídolos da história do time. Com esse tipo de declaração, é difícil acreditar que o norte-americano não foi tão participativo nos red devils. Quando adquiriu o United por completo em 2005, Glazer trouxe consigo Ed Woodward e confiou em suas mãos a operação do clube. O vice-presidente/chairman, mesmo depois dos filhos do empresário assumirem, segue sendo responsável pelas contratações e em 2007 tomou conta do departamento comercial e das operações de mídia, onde obteve êxitos ao transformar o maior campeão britânico em uma marca extremamente valiosa.


Getty Images
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Nos Estados Unidos, os Glazers têm uma conexão muito maior com a instituição que comandam


Citado no meu primeiro texto aqui, em 2016, o processo de aquisição foi bastante conturbado por conta de suas dívidas - essas que acabaram transferidas para os ingleses. Com toda a situação gigantesca de débito e várias queixas por parte da torcida, (incluindo a fundação de um novo clube, o FC United of Manchester) surgiram inúmeros boatos sobre uma possível venda dos diabos vermelhos ao longo dos primeiros anos na administração. Em 2010, quando ainda atuava pelo Milan, David Beckham retornou ao Old Trafford e recolheu dos gramados um cachecol verde e amarelo, símbolo das reclamações contra a os norte-americanos, e colocou no pescoço para o delírio dos fãs. Esses acreditavam que tinham conseguido trazer uma figura importante para o seu lado. No entanto, o ex-camisa 7 afirmou que não estava apoiando nenhum protesto e simplesmente estava agradecendo o apoio.


Outro boato envolvendo um grande ídolo fez bastante barulho na época. Sir Alex Ferguson, um dos maiores técnicos de todos os tempos, chegou a ser especulado como um dos possíveis interessados em adquirir a equipe. O escocês, porém, negou a possibilidade (meio bizarra) de comprar o time que dirigia na época. Não só rumores envolvendo figuras famosas ameaçaram o fim da Era Glazer, mas bancários e advogados se reuniram ainda em 2010 e formaram o Red Knights, - leia sobre aqui - que também acabou não indo pra frente. Malcolm faleceu em 2014 e seus filhos continuaram com a mesma ideia do pai: deixar o clube nas confiáveis mãos de Ed Woodward.


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Em Manchester, aparições de um dos filhos (na foto, Avram - à direita) são raras e o clube é representado por Ed Woodward


Em defesa da abastada família, detentora de 90% dos direitos do Manchester United, dinheiro nunca faltou e muito menos foi problema para a gestão. Em 2016, Jose Mourinho e companhia mostraram o poderio econômico ao contratar o (agora) segundo jogador mais caro do planeta, Paul Pogba, por €105 milhões. Na atual janela de transferências, tiraram do Everton o belga Romelu Lukaku por €85,5 milhões. Além de não serem nativos do norte da Inglaterra, a imagem que os Glazers transmitem é a de donos distantes e pouco interessados com a administração direta do clube. Por outro lado, é impossível não notar que estão dispostos a abrirem os cofres em busca do melhor rendimento de seus times.


*Rodrigo Andrade é estudante de História na UFF, fã do futebol português e italiano e interessado no aspecto comercial do esporte.