Anderlecht 1x1 United: põe na conta do Fellaini

Você tem quase dois metros, é únicamente conhecido por ser uma figura cômica, fraca com a bola nos pés e útil com ela no ar. Entra pra garantir a segurança na própria área, que pouco foi ameaçada até então. Começa a marcar, então, o meia defensivo adversário. Ele vai se aproximando e... você desiste de acompanhá-lo, culminando em mais um empate - o décimo quarto na campanha. Inadmissível, mas não inacreditável; tudo segue o roteiro que nós assistimos há alguns meses. Só não fica tão feio porque a atuação agradou e temos totais condições de passar em Old Trafford. Mas as lições estão aí e no domingo o rival é um pouco superior, né? Contra o Chelsea, qualquer bobeira desse nível pode acabar com nossas chances na Liga. 


ESPN.com.brManchester United leva empate do Anderlecht no fim, mas joga pelo 0 x 0 para ir à semi da Liga Europa


Já chegamos naquele momento da temporada em que a escalação não se discute muito. Perspectivas de alguma sequência para os mesmos jogadores se foram, isso deve obrigatoriamente ser resolvido para 2017/18. Enquanto isso, vamos tentando entender as escolhas aleatórias de Mourinho. Esperava-se que Shaw, após dar conta do recado nas últimas duas partidas, continuasse na posição até para provar seu valor e dar um veredicto sobre a venda - ou não - na próxima janela. Só que Darmian assumiu o lugar para dar aquela contribuição previsível: nem tão bem, mas sem comprometer. Ou seja, patamar de competição secundária.



A zaga foi a melhor que temos e Bailly/Rojo se mostram capacitados para continuar no elenco. O primeiro com a titularidade garantida e o argentino ficando como backup, provavelmente. Mesmo que, hoje, a principal arma dos belgas ficou no banco; Teodorczyk, dono de 20 gols em 30 partidas, entrou apenas na etapa final e pouco pode fazer. Carrick, num double-pivot com Pogba e sem a ajuda costumeira de Herrera, foi um dos detaques. O perigo por ali vinha das passagens individuais de Tielemans, uma estrela em ascensão e extremamente ágil. Eram pernas de quem tem 19 anos contra um de 35. Natural ser superado esporadicamente.


Labile teve bom rendimento. Nos minutos iniciais, quando os dois times ainda se estudavam e não tinham entrado no ritmo, era nosso articulador no meio campo. Conseguia direcionar a bola para zonas de valor, mas quem recebia não fazia muita coisa. Conforme a intensidade subiu e as peças acordaram, melhorou ofensivamente. O que em demorou pra enfraquecer foi a marcação. Mesmo com a ausência de Ander, sempre um destaque no counterpressing, a pressão alta limitava a saída dos anfitriões e garantia uma construção mais rápida pros visitantes. Interceptando lá na frente, era reduzido o terreno a ser percorrido.



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O Anderlecht foi colocado num cenário arriscado, mas empolgante. Para criarem alguma coisa, precisavam de ações mais ousadas desde trás - não tinha outro jeito de furar a blitz alta imposta pelos red devils. E as características dos atletas combinavam com essa necessidade, tendo o jovem Dendoncker como válvula de escape, iniciando os lances de contragolpe que eram acelerados nos pés de Acheampong. O ganês, baixo e leve, causou certo pânico na intermediária mas parava no back-four. Era uma estrutura sólida da nossa parte, com o 4231 como base - e não o tradicional 433. Fomos sofrer justamente quando tal formação entrou em cena. 


Getty Images
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Entra pra ajudar na bola aérea, desiste de acompanhar o adversário dentro da área; com vocês, Marouane Fellaini


Em trama bem desenhada pela direita, Valencia recebeu de Zlatan e deu um cruzamento atípico em seu repertório. Não foi aquele chutão sem direção, mas sim um 'cutback' para a parte mais baixa da área; Rashford bateu, Rubén deu rebote e Mkhitaryan apareceu pra empurrar. O armênio que, vale dizer, se movimentava perfeitamente entre as linhas. Surgia para ligar as peças no último terço em qualquer parte do campo, horizontalmente falando. Quando recuava para conduzir verticalmente, quem flutuava da mesma forma era Lingard - o trunfo posicional que venho dizendo há tempos.


São nesses pontos sutís que percebemos o real valor do garoto, motivo de contestações frequentes. Aceitem, a comissão técnica vai continuar apostando nele. O panorama no segundo tempo era mais equilibrado, com os comandados de Rene Weiler pressionando e chegando com mais ofensividade. Carrick, que poderia se sentir sobrecarregado, fez questão de reassumir o controle e fomos avançando. Darmian passou a ser acionado e Mkhi por pouco não fez um golaço após passe do italiano. Ironicamente, levamos a pior depois da saída de Jesse.



No domingo de Páscoa, ao meio dia, United e Chelsea se enfrentam em Old Trafford. O clássico tem transmissão exclusiva da ESPN Brasil.



Martial o substituiu pra dar a habilidade no 1v1 que ele não conseguiu usar, mas a troca seguinte atrapalhou de verdade: Rashford por Fellaini. Resultado? O inútil deixando de acompanhar Dendoncker na meia-lua e permitindo, indiretamente, o empate. A única coisa que o camisa 27 sabe fazer é ser alto e sua entrada é claramente para esses fins. Jogo aéreo, punir os oponentes que geralmente são baixos e fracos. É 1,94m x 1,78m - de um volante que balançou as redes em duas partidas desde setembro de 2015. O roteiro não poderia ser mais cômico, e triste, para o United. Só não é tão cruel pois ainda somos os favoritos.