Pogba é infinitamente melhor que Kanté

Em um processo de idealização daquilo que o esporte deve proporcionar, as opiniões do torcedor comum - e da maioria dos jornalistas - se transformaram em suas bases. Se há alguns anos o mainstream era endeusado em detrimento das narrativas de menor proporção, recentes acontecimentos inverteram o cenário. O underdog, aquela história de superação mais alternativa, tornou-se em alvo fácil para um exagero (muitas vezes indireto) na análise. Misturam demais razão com emoção e, infelizmente, somos obrigados a ler comparações que nem sempre fazem sentido. 


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Uma delas gira em torno do atleta mais caro de todos os tempos. Não preciso detalhar a introdução; Pogba foi revelado aqui, se desenvolveu profissionalmente na Juventus e voltou por £89 milhões no último mês de agosto. Deixou uma equipe que foi moldada excepcionalmente por Antonio Conte e, em certos aspectos, aperfeiçoada nas mãos de Massimiliano Allegri. Vinha de uma temporada em que participou diretamente de 23 gols, conquistando seu quarto título italiano. Teve, em 80% do seu tempo em Turin, a colaboração de Pirlo, Vidal e Marchisio no meio campo.



Na campanha que os dois primeiros haviam se transferido, explodiu como uma força produtiva na função híbrida entre meia central e camisa 10 - controlando o lado esquerdo na maioria dos jogos. Era o motorzinho, mas pra funcionar precisava de uma engrenagem habilitada ao seu redor. Olhava pra lateral e via um dos melhores na posição, Alex Sandro, pronto pra atrair a marcação ou aproveitar seus famosos lançamentos. O brasileiro oferecia a constante ameaça de uma ultrapassagem e, tecnicamente, correspondia ao nível do francês.


Atrás, peças de habilidade pouco atrativa, mas disciplina e posicionamento valorizadas por técnicos de alto escalão; Marchisio e Khedira davam o fôlego necessário para florescer o brilho do diferenciado do elenco. A zaga, muitas vezes disposta em um back-three, dispensa comentários - apenas Bonucci e Chiellini valem mais que a nossa defesa inteira. Enfim, alguns meses depois e Paul se vê em um ambiente totalmente distinto.



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Os zagueiros mudam a cada três dias, ninguém sabe quem é o LE e Herrera-Carrick representam uma queda de qualidade em relação aos seus antigos teammates. Se uma bola passa pelas costas, temos Jones e Smalling correndo como amadores. Mesmo assim, pasmem: o desempenho geral dele é positivo. Nessa situação os números reduzem o verdadeiro retorno, mas são 8 gols e 4 assistências em um conjunto que não costuma converter tantas chances.


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O sistema de Allegri favorecia o potencial de Labile, enquanto em Manchester o panorama coloca mais em suas costas


Pelo menos dez daqueles passes pornográficos, que deixam alguém na cara do goleiro, não foram aproveitados. A bola na trave vem evitando algumas pinturas desde o início de 16/17. Ninguém pode reclamar demais, mesmo se o hype ainda não foi correspondido. E isso não esconde as existentes falhas em seu jogo, como a tradicional displicência e a falta de mobilidade defensiva. Você não espera um total amadurecimento como box-to-box de um rapaz que acaba de completar 24 anos. Paciência. E onde entra Kanté nessa história?


Bem, não tenho nada contra o francês, mas a boa vontade demonstrada com suas atuações chega a incomodar. Adoraria tê-lo em Old Trafford, mas não passaria dos limites ao ponto de reverenciar um domínio horrível que virou skill depois da velocidade ter compensado. Usam os famosos heatmaps e distância percorrida como os principais parâmetros de análise. Ignoram a simplicidade de seus passes, que servem na estrutura do Chelsea, mas seriam expostos se o mesmo jogasse em outra função. Os erros básicos na construção, que são contrapostos com desarmes posteriores.


Basicamente, ele é elogiado por coisas que a maioria dos world-class não precisa fazer - pois tomam decisões lúcidas antes de tudo. Essa supremacia pintada nas últimas semanas lembra bastante da época em que colocavam Bale acima de Neymar. Forma não é tudo quando queremos analisar de modo frio, considerando fatores externos e pensando no médio e longo prazo. Façam o seguinte exercício mental: pense, por 20 segundos, como seria se os compatriotas tivessem iniciado a temporada em equipes trocadas. As opiniões seriam diferentes? Com certeza. Tem gente apontando o atleta dos Blues como Player of the Year sendo que Hazard faz, e é, muito mais. Esse é um exemplo.


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Deem tempo ao tempo: Pogba estará no patamar dos craques por muitas temporadas, apesar desse recomeço conturbado na Inglaterra


As quase 100 milhões de libras desembolsadas pelo United consistem em uma transação financeira e nada além disso. Vamos deixar de lado o dinheiro quando o assunto é campo. Mourinho resume bem: "não é culpa dele que alguns comentaristas estão cheio de problemas, enquanto Paul é um multimilionário". Já passou da hora de pararmos de relativizar desempenho por estilo de vida. Se Kanté (com seus £110k/semana) não gosta de expor seus gastos e aparentemente vive na "humildade", o problema é dele. Da mesma forma que uma Lamborghini não faz gol, eu nunca vi modéstia ganhar jogo. E, claramente, esses são aspectos sendo considerados em análises que deveriam ser futebolísticas.


No fim das contas, um está se aperfeiçoando para disputar o Ballon d’Or, enquanto o outro nunca passará de um ótimo jogador.


*Essa não é uma comparação direta entre dois jogadores com perfis claramente diferentes, até porque seria injusto. A intenção é destacar a distinção no tratamento de ambos, que no geral não reflete os respectivos repertórios individuais.