A temporada do United se define por margens pequenas

Se tornou natural, apesar de não ser tão saudável: gostamos de enquadrar qualquer ponto desse esporte dentro de algum rótulo qualitativo. Geralmente extremistas, dado que o poder de instantaneidade das coisas trouxe consigo o imediatismo. Portanto, o normal desde alguns anos atrás é abrirmos páginas da internet prontos para tratarmos de intangíveis com uma certeza inexistente.

Jogador tal é um fracasso. Time Y "acabou" por conta de acontecimento X. Determinado treinador nada mais é do que uma figura retrógrada criada pela mídia. São tantas as formas exageradas de análise que, muitas vezes, nos faz bem pararmos um pouco.



Aproveitemos essa pausa na Premier League - que só volta no dia 4 de março - para refletirmos com consciência. Fale o que quiser, mostre o que quiser… o fato é que a temporada em Old Trafford está sendo e será definida por margens consideravelmente curtas. A realidade bizarra de não perdermos desde outubro de 2016 e ainda estarmos na sexta colocação resume o sentimento. Além de não termos o sabor da derrota depois daquele massacre azul em Stamford Bridge, somente o próprio Chelsea somou mais pontos - 41 a 34.


São duas vitórias e um empate separando o aproveitamento de ambas as equipes - após a fatídica data que mudou, de certa forma, o nosso destino. Os primeiros meses de Mourinho eram vistos com estranheza e sem tanto ânimo, abrindo espaço e razões para uma hipotética crise generalizada. Em vez disso, o chefe soube reatar os laços da melhor maneira e os jogadores passaram a corresponder em um nível próximo da expectativa inicial. Alguns até passando dos limites criados por eles mesmos anteriormente (Valencia, Rojo, Jones), outros simplesmente dando conta do recado original (Pogba, Herrera, Mkhitaryan).



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Entraram em cena também as peças dos altos e baixos e alvos de opiniões sempre divergentes. Martial é um bom exemplo, surpreendendo em sua campanha de estreia e começando essa sem conseguir pisar no acelerador. Aos poucos vai mostrando o valor único que possui ao plantel, como pudemos ver no triunfo sobre o Watford. Ibrahimovic continua provando que é diferenciado, sendo o primeiro atleta a marcar 15 gols na competição tendo 35 anos ou mais. Só que tem dias esquisitos, finalizando sem frieza e tentando (geralmente com sucesso) compensar com ajuda na articulação. Outra: quem diria que Mata teria a sua produtividade finalmente reconhecida em ampla dimensão quando seu comandante é o responsável por tirá-lo dos blues?


Pogba sempre será um capítulo à parte, causando repercussões estratosféricas nos dois lados da moeda. Não é o melhor meio campista do mundo - ainda precisa seguir um caminho significativo -, mas passa longe de decepcionar. Isso, felizmente, deixou de ser o foco em Manchester; a maioria hoje aceita que o francês traz ótimos sinais em seu retorno ao país. O tempo nos contará o resto. Para fins de perspectiva, vejam esse vídeo. É curto e mostra apenas quatro das chances criadas do nada pelo camisa 6, mas dá uma noção do "quase" infinito que vivemos em 16/17. Isso aqui também ajuda, embora seja digno de irritação. Como podemos ter evoluído tanto sem exatamente sair do lugar?


Getty Images
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O processo pode estranhar e a tabela "mentir", mas os pontos vão se acertando e não podemos ter desespero


Por detalhes mínimos, seja por falta de capricho ou confiança, não explodimos e brigamos de verdade lá no topo. Os números corroboram essa tese e, fundamentalmente, o olho do espectador também. É inegável que, comparando com os outros, não estamos tão longe assim. Se trouxermos a velha frase de que "falta resultado", vale dizer também que uma invencibilidade de 4 meses não se cria sozinha. Dois ou três empates bobos a menos e o humor seria totalmente distinto. As manchetes, os rivais e nosso próprio cérebro nos condicionam a pensarmos com pessimismo. A realidade, porém, não é escura e vai se esclarecer conforme os pilares da reconstrução pós-Ferguson se alinham. As margens, finas como nunca, nos dão a esperança necessária para seguirmos sem desespero. Uma pausa consciente e positiva faz bem.