Kevin Cummins: 'Ninguém que não fosse da classe trabalhadora admitia gostar de futebol'

Torcedor do City desde que se conhece por gente, Kevin Cummins é um dos mais bem sucedidos fotógrafos britânicos. Seus trabalhos mais famosos incluem registros de estrelas como Mick Jagger e David Bowie, além de bandas influentes como Stone Roses, Oasis, New Order e Joy Division.


Inclusive, Cummins é o responsável pelas mais icônicas imagens da banda liderada por Ian Curtis, morto em 1980. A mais famosa delas certamente é a foto em que Curtis e seus companheiros Peter Hook, Bernard Sumner e Stephen Morris aparecem distantes e tudo o que se vê é o grupo, uma ponte e muita neve.


Getty/Kevin Cummins
Getty/Kevin Cummins

Um jogo cancelado e um dos registros mais famosos da história da música


Uma curiosidade sobre esta foto é que tal registro só foi possível por uma razão que envolve o City – que também era o time de Curtis.


Em 6 de Janeiro de 79, o jogo do City pela terceira rodada da FA Cup foi cancelado por conta da neve. A título de informação, apenas quatro jogos desta fase foram realizados nesta data, enquanto outras vinte partidas tiveram que ser remanejadas. No caso do City, o jogo contra o Rotherham em Maine Road foi adiado para o dia 15 do mesmo mês e terminou em 0-0. No replay, apenas dois dias depois, o City bateu o Rotherham longe de seus domínios por 4 a 2 e avançou de fase.


Manchester Connection: O que você pode nos contar daquele dia em que você fotografou a Joy Division na neve? Como foi a atmosfera daquele momento? Aliás, você estava indo ver City e Rotherham ou iria também trabalhar na partida?

Kevin Cummins: Na verdade, a partida havia sido cancelada porque o Rotherham não havia jogado seu replay contra o Barnsley por causa do tempo, então nós sabíamos que não haveria jogo naquele dia – no qual eu iria com minha irmã, mas apenas para assistir à partida, e não trabalhar nela. Sobre a atmosfera, posso dizer que estava muito frio e cinza. Eu não podia gastar muito filme porque na época só podia comprar dois rolos de 35mm e, além disso, você precisa levar em conta que eles eram virtualmente desconhecidos naquela época.


MC: Porque Unknown Pleasures [disco de estreia da Joy Division] não iria sair pelo menos até junho daquele ano...
KC: Isso mesmo.


MC: Além dos Gallaghers, Ian é certamente um dos torcedores mais famosos do City. Vocês conversavam muito sobre o time?

KC: Falávamos, sim. Mas não era algo que era consumido como é hoje, sabe? Mas, claro, como todos os caras em seus vinte e poucos anos, tudo o que nós falávamos era sobre futebol, garotas, música... Na verdade, houve uma vez que Ian quis comprar uma casa perto de Maine Road, mas não chegou a fazê-lo.


MC: Falando em como o futebol é consumido, quais são as diferenças que você vê daquela época para os dias de hoje?

KC: A diferença é muito grande. É um esporte completamente diferente. O público era totalmente distinto também. Naquela época, o futebol era visto como um esporte das classes menos favorecidas. Ninguém que não fosse da classe trabalhadora admitia gostar de futebol, na verdade.


MC: Você acha que esse tipo de mudança pode ser particularmente aplicada também ao City? Nos anos 90 o time viveu uma crise financeira, chegou a jogar a terceira divisão e hoje é uma potência europeia. Como você vê essa mudança de realidade?

KC: Eu acho ótimo. É simplesmente impossível estar sempre competindo no mais alto nível sem ter dinheiro.


MC: Você documentou a última temporada do City em Maine Road e esses registros deram vida ao livro We’re Not Really Here. Eu só posso imaginar que tenha sido uma experiência muito tocante. Como você a descreveria?

KC: Foi ótimo passar toda uma temporada junto do clube que eu torço desde criança. Eu achei que muitas vezes ficaria verdadeiramente emocionado, mas, quando terminei todos os registros que tinha pra fazer, isso já no último dia da temporada, eu estava mais exausto do que emocionado.


MC: Aliás, no último Derby em Maine Road, o City bateu o United numa partida que ficou marcada por diversos motivos, como o 100º gol de Goater com a camisa do time e aquela falha de Gary Neville. Quais são suas lembranças desse dia?

KC: Eu estava filmando a torcida naquele dia, mas vi muito do jogo também. A atmosfera promovida pela torcida foi algo realmente sensacional. Várias vezes eu acabei sendo puxado pro meio da torcida. No fim do jogo, estávamos todos rindo da péssima partida do United.


Getty
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A última temporada do City em Maine Road virou um livro sob as lentes de Kevin Cummins


MC: Falando no United, você chegou a trabalhar para eles em diversas oportunidades, mesmo sendo um torcedor do City. Era algo difícil pra você?

KC
: Eu nunca fui empregado por ninguém, na verdade, então, nunca trabalhei pra eles. Já tirei fotos de diversos atletas do United para clientes corporativos, como Bulova, Hublot, Audi, DHL, Adidas e Mamee Foods, na Malásia. Já tirei muitas fotos de torcedores famosos do United ao longo dos anos também, como os caras do Stone Roses, Simply Red e Terry Hall, do The Specials. Acho que isso é algo que alguns torcedores do United não conseguem entender e acabam difundindo essas informações falsas na internet.


MC: Voltando ao City, você é o tipo que vai no estádio sempre que pode ou atualmente tem preferido assistir em casa ou em um pub?

KC: Eu vou a praticamente todos os jogos, tanto em casa quanto fora – e nas competições europeias também. Sempre fiz isso. Eu tento fazer com que o meu trabalho consiga se adaptar aos compromissos do City. Nem sempre funciona, mas tudo bem também.


MC: A temporada atual começou com o City vencendo 10 jogos seguidos sob o comando de Guardiola e isso nos fez pensar que 2016/17 seria só glória. A forma como a temporada vem se desenhando mostra que as coisas não vão ser exatamente assim, ainda que o time possa vencer a FA Cup. Como você tem visto esse primeiro ano de Pep à frente do clube?

KC: Pep aprendeu que a Premier League é uma competição muito difícil. Não tem os melhores clubes do continente – provavelmente estão na Espanha e Alemanha –, mas o lance da Premier é que os times mais fracos podem realmente tirar pontos dos mais fortes. Além disso, é difícil vencer a liga quando não se tem um goleiro que seja capaz de defender os chutes que vêm ao gol. Se você não se importa em ter os chutes defendidos, mas se preocupa apenas com o jogo com os pés de seu goleiro, então coloque Gabriel Jesus no gol. [...] Estou brincando, claro, mas acho que podemos vencer a Premier League e a Champions League na próxima temporada. Estaremos muito mais fortes no ano que vem.


MC: Apesar das dificuldades neste primeiro ano, o que você espera do City de Pep pras próximas temporadas? Algum jogador específico que você gostaria de ver no clube?

KC: O City vai ficar mais forte e, não importa quanto dinheiro eles gastem, o United vai acabar mais uma vez ficando atrás da gente. Sobre algum jogador, eu não consigo pensar em nenhum agora. Acho que prefiro ver os jovens das categorias de base subindo para o time principal e se tornando estrelas do clube.


MC: O City tem uma grande torcida no Brasil que cresce a cada dia que passa. O que você sabe do nosso país e o que você acha dos jogadores brasileiros do City?

KC: Na verdade, eu já fui ao Brasil. Foi no Rock in Rio, em 91. Mas se alguém quisesse que eu voltasse por qualquer razão, eu adoraria! Seria ótimo ver um amistoso do City no Brasil, mas provavelmente seria muito caro sem bons patrocinadores. Sobre os nossos jogadores brasileiros? Eu acho eles ótimos! E são todos melhores que Jô, que foi um dos primeiros brasileiros a jogar pelo City. Ele estava mais preocupado em ir a festas do que jogar futebol.


Para saber mais sobre Kevin Cummins, você pode visitar seu site, segui-lo no Twitter, ou até mesmo pesquisar seu nome no Getty Images e entender que uma boa câmera é importante, mas o que realmente faz a diferença é um grande fotógrafo.


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