Lyon: presidente Aulas, o canguru e o PSG

A janela de transferências do verão europeu 2017 se fecha nesta quinta-feira. Dentro do futebol francês, o Lyon é um dos protagonistas no quesito vendas de atletas, atrás apenas do campeão francês Monaco. Os lioneses em específico angariaram até agora quase 120 milhões de euros com negociações.


Na contramão, os lioneses fizeram mercado discreto e pontual, procurando por jogadores abaixo dos 25 anos, promissores e sem espaço em seus clubes, a possibilitarem negociações futuras por valores maiores que os de compra. Ao passo que Lacazette deixou Lyon por 53 milhões de euros, as peças mais caras adquiridas pelo Lyon até agora foram Traoré e Pape Cheikh Diop, por 10 milhões de euros cada um.


Getty
Getty

A venda mais expressiva do Lyon: Alexandre Lacazette, já atuando pelo Arsenal


No quesito aquisições Monaco (que pode passar de 200 milhões de euros em vendas até o deadline do dia 31/8), Olympique Marselha, Lille e Nice não agiram de forma tão diferente. Porém, este panorama “normal” do futebol francês não é o mesmo vivido pelo Paris Saint-Germain, o causador do estardalhaço no mercado futebolístico não apenas francês, mas europeu/mundial.


Sobre o mercado do PSG não há muito mais o que ressaltar. Despender 220 milhões de euros em apenas um atleta (Neymar, com M’bappé podendo se confirmar) foi algo sem precedentes na história do futebol.


Aulas x PSG


No último fim de semana, a imprensa francesa deu destaque às palavras de Jean-Michel Aulas, que comentou sobre mercado e o impacto causado pela gastança do PSG. 


O L’Équipe repercutiu as falas do presidente lionês, que parabenizou Khelaifi por trazer Neymar para o futebol da França. Entretanto, Aulas deixou claro seu apreço pela identidade nacional. Ressaltou que foi exagero estampar a chegada de Neymar na torre Eiffel, algo que “por tabela” enalteceu o investimento do estado catariano.


Aulas tocou um ponto delicado afirmando que o dinheiro de Khelaifi é abastecido pelo emir Tamim bin Hamad al Thani, chefe de estado do Catar. O status de Tamim é similar ao de um monarca, pois o Catar é um reino. Como todos sabemos, os investimentos do Catar no futebol ocidental visam o trabalho de sediar a Copa do Mundo de 2022.


Na última segunda-feira, Aulas retuitou um post (depois apagou e pediu desculpas publicamente), que teve efeito de querosene atirada sobre a fogueira. Tratava-se de uma simulação de um canguru se masturbando, com a mensagem “Nasser e o Fair Play financeiro”. 


L'Equipe/reprodução
L'Equipe/reprodução


Consequências futuras


Os movimentos do PSG e outros clubes geridos por iniciativas árabes (leia-se: Manchester City) já inflacionaram o mercado de transferências de forma irreversível. Jean-Michal Aulas mostrou preocupação com as forças financeiras menores do futebol francês (St. Étienne, Nice, Bordeaux), que perderão cada vez mais espaço nas copas continentais.


Segundo Aulas, o panorama é áspero para o próprio Lyon, bem como para os milionários Franck McCourt, à frente do Olympique Marselha, ou para o espanhol Gérard López , que adquiriu o Lille. Ambos compraram OM e Lille no fim de 2016, valendo ressaltar que o americano McCourt foi gestor do Los Angeles Dodgers (beisebol) e o espanhol López, que mantem negócios no ramo da tecnologia/energia, é presidente da equipe Lotus da Fórmula 1.


Aulas alertou que o poderio financeiro dos catarianos superam estes investimentos, além do fato do grupo Bein Sports, braço da Al Jazeera Media Network catariana, deter três emissoras esportivas na França e direitos de transmissão para território francês de Ligue 1, Champions League/Europa League, EURO. Segundo Aulas, todos os fundos vêm de um mesmo lugar no Catar.


Getty
Getty

Aulas nas dependências do Parc des Princes em Paris


Sem tom de bravata de cartola “macaco velho”, Aulas relembrou que, quando o Lyon buscou preponderância europeia nos anos 2000, obtendo hegemonia nacional do heptacampeonato francês, o clube o fez a partir dos fundos das suas empresas. Entretanto, por mais sólido que seja o seu capital, tudo fica aquém daquilo que os catarianos podem obter.


Aulas comprou o Lyon em 1987 e o seu Cegid Group do ramo da informática se expandiu no decorrer dos anos 2000, em grande parte devido ao avanço tecnológico do setor. Atualmente, o grupo Cegid acumula um capital de cerca de 480 milhões de euros.


A seguradora Groupama, que adquiriu o naming rights do Parc Olympique Lyonnais, detém cerca de 27% dos ativos do Cegid. O clube Olympique Lyonnais em especifico vale-se do capital de Aulas, mais os 20% de ativos adquiridos pelo IDG Group chinês no fim de 2016.


O futuro nos trará os valores que grandes clubes poderão oferecer por jogadores world class. Em contraparte, em campo, o PSG ainda não justificou a efetividade de sua gastança. Mau uso de capital e planteis desequilibrados sempre poderão ocasionar fiascos.


La balle de Lyou


- Quando Borussia Dortmund e Atlético Madrid chegaram às finais das edições 12/13 e 13/14 da Champions League, muito se enalteceu o trabalho das agremiações, ostentando 30, 40% dos capitais de Real Madrid, Bayern Munique, Barcelona. No fim da década passada, o Lyon de Aulas já vinha fazendo algo similar. Porém, seu êxito mais longínquo foi uma semifinal de UCL, na edição 09/10.


- O Lyon foi perdendo poder de fogo futebolístico continental, enquanto consequência financeira posterior à crise mundial de 2008. Outros clubes sentiram efeitos daquela crise, sobretudo aqueles geridos por presidentes/mandatários, cujos recursos vinham de negócios comerciais convencionais. No citado período, Roman Abramovich tentou vender o Chelsea pelo mundo árabe, mas sem sucesso.


Na Itália, a Internazionale do então mandatário Massimo Moratti (oriundo da indústria petrolífera/energética) obteve a tríplice coroa europeia 09/10, mais por sonho do que por razão. Ainda assim, o maior reforço adquirido por Moratti para obter tal glória não foram atletas world class caríssimos, e sim um treinador vitorioso (José Mourinho). Após aquele ciclo, Moratti abriu as portas de Appiano Gentile para investidores asiáticos. Hoje, a Inter mal consegue índice para Europa League.


- Outro fator que afetou maiores investimentos no departamento de futebol do Lyon no início desta década foi o início de construção do Groupama Stadium. Aulas deu início ao projeto ainda em 2008, qundo encontrou contratempos políticos e urbanísticos. A construção se iniciou de fato em 2013, visando sediar jogos da EURO 2016. O recinto foi inaugurado em janeiro de 2016.


- Siga o blogueiro Alexandre Kazuo no Twitter @Immortal_Kazuo