Liga Europa: cinco motivos para o Lyon respeitar o Ajax

Nesta quarta-feira, o Lyon irá a Amsterdã (Holanda) visitar o tradicional Ajax, em partida de ida válida pelas semifinais da Europa League. Apesar de alguns prováveis desfalques, o Lyon detém algum favoritismo, em nome do elenco jovem, porém mais maduro que os integrantes do plantel da equipe holandesa.


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Formação titular do Ajax que enfrentou o Schalke 04 pela Europa League, no último dia 13/4


Por outro lado, o Ajax ostenta tradição inquestionável em torneios europeus, ainda que tenha experimentado diminuição de poderio financeiro nas últimas décadas. No aspecto formador, as categorias de base do clube, bem como de outras agremiações holandesas, ainda demonstra potencial e revelações.


Confira cinco motivos para o Lyon respeitar o Ajax:


1 – Centro de formação centenário


O Amsterdamsche Football Club Ajax é um clube centenário, tendo sido fundado em 18 de março de 1900. A equipe completou recentemente 117 anos de existência. Desde seu início a formação de atletas é a característica que tornou a agremiação relevante no cenário mundial.


Mentor da Holanda vice-campeã da Copa de 1974, o treinador Rinus Michels (1928–2005) jogou e treinou o Ajax, assim como o ídolo Johan Cruyff (1947–2016), protagonista da era dourada da equipe de Amsterdã, na primeira metade da década de 1970.


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Rinus Michels comemorando a conquista da EURO 1988, vencida pela Holanda sob seu comando


O número de atletas world class revelados/projetados pelo Ajax é enorme: Johan Neeskens, Johnny Rep, Danny Blind, Marco van Basten, Frank Rijkaard, Ronald Koeman, Clarence Seedorf, Edgar Davids, Dennis Bergkamp, Marc Overmars, Jari Litmanen, Patrick Kluivert, Edwin van der Sar. Mais recentemente: Rafael van der Vaart, Wesley Sneijder, Zlatan Ibrahimović, Luís Suárez.


2 – Tradição


Junto a PSV Eindhoven e Feyenoord, o Ajax é um dos três grandes do futebol holandês. A equipe de Amsterdã conquistou 33 edições da Eredivisie holandesa e 18 edições da Copa da Holanda. Na atual edição da Eredivisie, o Ajax é o vice-líder, quatro pontos atrás do líder Feyenoord. O torneio está a duas rodadas do fim.


Em âmbito internacional, o clube elenca quatro conquistas da Champions League, três consecutivas nas edições 70/71, 71/72 e 72/73, ainda sob nomenclatura Copa dos Campeões. A última conquista se deu na edição 1994/1995, sob comando do técnico Louis Van Gaal, conduzindo a equipe que trazia Bergkamp, Davids, Seedorf, Frank de Boer e o goleiro van der Sar.


O Ajax conquistou ainda a edição 1991/1992 da Europa League, ainda Taça UEFA. Sua sala de troféus também guarda duas taças de campeão mundial de clubes, sendo que o time venceu a antiga Taça Intercontinental nas edições 1972 e 1995, derrotando Independiente (Argentina) e o brasileiro Grêmio, respectivamente. 


3 – Filosofia de futebol: futebol total


O conceito do “futebol total” personificado pela Holanda de 74 foi concebida pelo citado treinador Rinus Michels, no início da década de 1970. O laboratório para a seleção foi o próprio Ajax, que o técnico comandou em 1961 e 1975. Michels chegou à seleção holandesa em 1974, após quatro anos no Barcelona.


O “futebol total” compreende o jogo coletivo pleno, algo entranhado na cultura futebolística do Ajax (e também Barcelona). A princípio Rinus Michels valia-se da “linha de impedimento”, algo que já pressupunha o encurtamento de espaços ao adversário, com as linhas postadas adiantadas.


O adversário que poderia se encontrar em impedimento era consequência, uma vez que a “linha de impedimento” era um meio de se aproximar à área oposta. A prioridade da linha não era a finalidade defensiva de inutilizar o centroavante oponente. Pensava-se a linha da perspectiva ofensiva, detendo-se a posse de bola.


A filosofia do “futebol total” perdura no Ajax. No documentário “Becoming Zlatan...” (2016), que registra os primeiros anos de carreira do sueco Ibrahimović, temos depoimentos do ex-atacante egípcio Mido (hoje técnico) e do treinador à época Ronald Koeman (atual Everton), explicitando a virtude do jogo coletivo.


Mido e Koeman explicam que no Ajax é preciso jogar para o time, caracteristica que nunca foi a maior virtude de Ibrahimović. Este aspecto foi algo que o Ajax também se prontificou a lapidar no sueco, ao recontratar em 2002 o finlandês Jari Litmanen, ídolo dos anos 90.


No documentário, Litmanen afirma que, de início, Ibrahimović observou-o enquanto concorrência por sua posição de atacante de área. Coube ao finlandês dizer ao sueco que estava ali “para ajudá-lo”, para atuar como segundo atacante em movimentação, passando-lhe a bola. O intento do clube foi utilizar Litmanen como tutor de Ibrahimović.


4 – O desenho tático em 4-3-3


Com a posse de bola, o Ajax desenha-se em 4-3-3, valendo ressaltar que a Holanda-74 se caracterizou pela versatilidade de seus atletas. A ideia do tridente ofensivo já pressupunha meia-atacantes pelos lados, mais homem referência na área adversária, que também pode se movimentar.


A versatilidade propagada por aquela seleção já revelava a ideia do “falso centroavante”, em trocas na área do oponente com os pontas esquerdo e direito. Aquele que recebesse a bola de frente para a meta adversária tinha que saber finalizar. Pep Guardiola não inventou isso ao ordenar Messi sair da ponta direita para atuar dentro da área adversária.


No livro “Futebol Total” (ed. Nova Fronteira/1974), uma espécie de autobiografia de Johan Cruyff escrita após derrota da Holanda na final do Mundial de 1974, o próprio explica de forma curiosa que o objetivo do “futebol total”, é a criação do maior número possível de ocasiões de gol: “Eu penso que futebol é acertar e criar as ocasiões de gol. Marcar gol é um tanto quanto casual e está fora do futebol. Mas como a única maneira de ganhar é marcar gols em cada equipe há que ter um ou dois homens com habilidade suficiente para empurrar o balão para as redes. Embora insista que isso nada tem a ver com futebol.” 


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Cruyff (à direita) em partida do Ajax contra o português Benfica em março de 1969


Cruyff continua: “Jogar futebol é combinar com eficacia e profundidade de maneira que se criem as oportunidades. Marcar gols, como já disse, depende de muitas outras coisas: sangue frio, causalidade, sorte, falha contrária.”


5 – Jovens promissores procurando espaço


Após vice-campeonato Mundial em 2010 e terceira colocação em 2014, a seleção da Holanda tem dificuldade em renovar suas peças. Os jovens jogadores do atual elenco do Ajax buscam espaço e apresentam-se na presente edição da Europa League querendo mostrar serviço.


O meia Davy Klaassen (24 anos) é o cérebro criativo do atual Ajax, já tendo partidas disputadas pela Holanda. Na presente temporada, o atleta contabiliza 45 partidas, 19 gols e 12 assistências pelo time de Amsterdã.


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Klaassen (à frente) contra o Schalke 04, nas quartas de final da Europa League


Com apenas 17 anos, Justin Kluivert foi lançado no time principal agora em 2016/2017. Justin é um right winger, elencando 38 jogos, 9 gols e 15 assistências na presente temporada. O atacante é filho do ídolo Patrick Kluivert, hoje gestor do francês PSG.


No último ciclo vitorioso de 1995, o plantel do Ajax trazia Seedorf, Patrick Kluivert, Davids, Marc Overmars e Frank de Boer ainda em baixa faixa etária. Seedorf e Kluivert tinham 19 anos, Davids e Overmars tinham 22 anos e de Boer 25 anos.


Coup d’oeil des rivaux


- Como afirmamos, o Ajax se encontra na 2ª colocação da Eredivisie holandesa 2016/2017. A equipe de Amsterdã tem 75 pontos, atrás do líder Feyenoord com 79 pontos. O PSV é o terceiro colocado, com 72 pontos.


- Na última rodada da Eredivisie, o Ajax foi derrotado pelo PSV por 1x0.


- No último fim de semana não houve rodada da Eredivisie, uma vez que foi realizada a final da Copa da Holanda, no último domingo. O Vitesse bateu o AZ por 2x0, sagrando-se campeão.


- A ESPN Brasil transmitirá Ajax x Lyon pelas semifinais da Europa League nesta quarta-feira, às 13h45 (horário de Brasília).


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