Guardiola, pontas e poder de adaptação: qual é o perfil de Allegri?

​Gol de Mario Mandzukic para manter a Juventus invicta no campeonato. Partida bastante importante para Juan Cuadrado e Stefano Sturaro recuperarem a confiança. Jogo de dominância absoluta de Rodrigo Bentancur, mostrando porque está na lista dos melhores jogadores jovens de 2017. Acima de tudo, a vitória contra a Fiorentina, nesta quarta-feira (20), pontua quase perfeitamente o que essa Velha Senhora é no perfil definido por Massimiliano Allegri.



Curta o Gazzebra no Facebook. Siga Murillo Moret no Twitter.



Ler o livro de Martí Perarnau sobre Pep, "Guardiola Confidencial", te deixa com um sabor meio amargo na boca. Conhecemos treinadores e métodos, mas poucos, - e são poucos mesmo - são os que falam abertamente de filosofia; de como enxergam, entendem e anseiam o futebol. Essa clareza sobre aproximação do técnico com os próprios conceitos é algo tão diferente que destoa do resto. E aí, vez ou outra, me pego pensando quais são as ideias de outros treinadores. Como Zinedine Zidane vê o jogo? E Carlo Ancelotti? José Mourinho? E, óbvio, Allegri?



Ouvi algumas pessoas acerca desse tema. Uma mesma palavra apareceu nas mais diversas respostas, seja ela um adjetivo (adaptável) ou substantivada (adaptabilidade). Allegri é esse tipo de treinador que tem a premissa de modificar a maneira de jogar em razão do adversário. Esse é o destino e trunfo. Como ante a Viola, no J Stadium, de marcação cerrada e linhas próximas demais no primeiro tempo, e passividade na etapa final.


O treinador juventino é um exemplar fiel da escola italiana de treinadores, de ideias mais maleáveis de equipe e formação de elenco em relação a Guardiola. Trazendo um dos técnicos mais vitoriosos à discussão, qual é a cara de Ancelotti? O amigo Arthur Barcelos, do La Beneamata, resumiu: “Milan, Chelsea, Real Madrid, Bayern München: em cada time foi um estilo. Ele se adapta. Allegri tem este perfil. Não é um cara adepto de uma visão”.


Estrategista foi outro adjetivo que usaram para dar significado ao estilo Allegri. Concordo que possa ser, mas creio que isso diz pouca coisa - todo treinador de elite têm de compreender que os jogos são estratégicos. Guardiola é, Mourinho também, Tite, Eusebio di Francesco e Vincenzo Montella, igualmente, em maior ou menor grau.


A fluidez do jogo e a força do meio-campo podem ser fatores importantes para compreender o perfil allegriano. O Milan dele, o último campeão italiano antes do domínio bianconero, era exatamente assim porque tinha peças que lhe permitiam esse uso - e ainda floresceu um jovem Stephan El Shaarawy para aterrorizar os adversários entrando em diagonal a partir dos lados.


Getty Images
Getty Images

Mandzukic é o craque menos craque que um time pode ter


Voltando ao livro. Guardiola também é adaptável. Na Espanha, reviveu o falso 9 naquele espetáculo contra o Real Madrid e trilhou a carreira de Lionel Messi. Nesse Barça, preferia usar a faixa central do campo exatamente para ativar o argentino. Em Munique, optou por usar os lados porque detinha Arjen Robben e Franck Ribéry. Jamais conseguiria - e nem teria razão para tal - reviver um blaugrana. Momentos diferentes, jogadores diferentes. De toda forma, se adepta no universo compreendido como ideal. O raciocínio do discípulo cruyffista é baseado em três premissas: defesa orquestrada, compactação e ataque a todo o momento.


Para conseguir o que propõe, os times de Pep precisam da bola. Precisam, querem e encerram 11 em cada 10 partidas nos últimos sete anos com mais posse de bola que o adversário. Dominar não é uma regra juventina, contudo, foi o que a equipe conseguiu diante os florentinos: teve o jogo para si do primeiro ao último minuto. Só que veja um confronto da Juve fora de casa. Digo, nem é preciso ir tão além. A decisão da Supercoppa contra a Lazio foi a antítese do jogo contra a Viola: reativo em um, ativo noutro.


Características que são visíveis nesta Juventus são a marcação dura - e muitas vezes com dobras, auxiliadas pelos ponteiros -, pressão no campo de ataque e verticalidade quando possível. Traços de Allegri. Os passes são mistos e a variação tática é tremenda. (Sobre tática, preferi não usar números porque eles podem ser mentirosos. Aos que não acompanham a Velha Senhora, digamos que a equipe tem a tendência de se portar num 4-3-1-2, mas, como mencionado acima, a variação é tão rápida e cômoda que, às vezes, cinco defendem na última linha, ponteiros abrem para dar profundidade para os avanços dos laterais, etc.)


Esse futebol reativo pode ser confundido com defensivo - mito derrubado neste post. A questão é que Allegri talvez queira mais atividade proposta frequentemente, porém, lhe falte material para esta fórmula. O que tem hoje, portanto, seria o suficiente para se impor em determinados cenários, como nos jogos em Turim ou equipes mais fracas/retrancadas.


Mesmo que esse texto tente solucionar o quebra-cabeça Allegri, somente ele pode dizer o que se passa atrás daquele sorriso bonito. Têm coisas que o jornalismo diário, também, deixa passar por ”não serem tão importantes”. Quem quer falar sobre maneira de pensar futebol ao invés de descobrir a escalação do próximo jogo? O ideal seria um livro como a biografia de Arrigo Sacchi ("Calcio totale: La mia vita raccontata a Guido Conti") ou a própria publicação de Marti.