Falta de consistência da Juventus merece atenção especial

Foi uma experiência bem interessante ler sobre o jogo antes de assistir o VT – já que vi ao vivo somente 20 minutos do primeiro tempo. Era alguém falando que Gonzalo Higuaín pipoca, outro que o time sente falta de Leonardo Bonucci e mais um dizendo que Douglas Costa não vale o investimento. A derrota de 3 a 0 para o Barcelona é sonora, mas retrata exatamente onde a Juventus precisa prestar atenção: na falta de consistência.



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Pois a Juve não jogou tão mal assim. Os erros saíram ali e acolá e, em suma, foram 45 minutos de futebol convincente e outros 45 esquecíveis. Como tem sido essa montanha-russa de adaptação em 2017-18, com uma apresentação delirante contra o Genoa e uma vitória (também por 3 a 0) jogando no limite ante o Chievo.


Meu maior receio era enfrentar um Lionel Messi endiabrado, aquele que não se mostrou presente nas quartas de final da Liga dos Campeões passada e foi coadjuvante na decisão de 2015. Para a Velha Senhora, ele infelizmente estava lá. O técnico Massimiliano Allegri reclamou da liberdade que o argentino teve. Tudo bem que a Pulga resolve sozinho, mas precisa de tanta facilidade?



O treinador adversário, Ernesto Valverde, teve a brilhante sacada de abrir Luis Suárez pela esquerda para que Messi criasse a partir do meio. Assim, como no renascimento do falso 9 com Pep Guardiola, o argentino ia em direção do gol na maior parte das investidas. Até os minutos finais do primeiro tempo, tudo certo para a Juve: Miralem Pjanic estava muito bem e Rodrigo Bentancur, a surpresa na escalação, trabalhava bem. Eis que o uruguaio se desgarrou de Messi e pronto. Finito.


Todos os gols do Barcelona aconteceram em momentos de desatenção do sistema defensivo do bianconero. Naquele primeiro, Allegri frisou que ninguém fez falta no camisa 10 enquanto puxava contra-ataque. O segundo, também armado por Messi, aconteceu em erro na saída de bola de Mehdi Benatia e falha na cobertura de Blaisi Matuidi em Ivan Rakitic. Similarmente em contra-golpe, o último foi uma saraivada de Messi.


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Uma viagem ao Coliseu catalão nunca é fácil – sobretudo com seis desfalques –, mas o comandante italiano ficou bravo muito mais com a ineficiência ofensiva que com os erros da retaguarda. “Eles jogaram bem, mas quando você têm chances aqui, você precisa convertê-las”, declarou, na coletiva pós-jogo. Matuidi, Bentancur, Benatia, Pjanic, Paulo Dybala, Mattia De Sciglio e Federico Bernardeschi tiveram chances de marcar. O argentino, então, a melhor delas: na grande área, livre, após rebatida.


Ver De Sciglio entre os 11 iniciais é uma diversão à parte, já que é sempre criticado pelo histórico recente. Ele teve uma partida extremamente satisfatória e, pena, teve de sair machucado antes do intervalo – seria uma grande recuperação de confiança. A experiência de Stefano Sturaro na lateral é desconhecida para quem não acompanha as ideias de Allegri, que já vislumbrava redefinir ou agregar a função ao repertório nem tão completo do meia. Foi aquele negócio: não comprometeu, mas pareceu desajustado e mostrou pouca aptidão para a posição.


Matuidi é um paradoxo, pois equilibra o meio de campo com o físico e o descompensa no técnico. A bola que chega redonda de Pjanic sai quadrada dos pés do francês para qualquer lado. Só que a habilidade nunca foi o forte do ex-PSG, exatamente o oposto de Alex Sandro. Acompanhar Ousmane Dembelé e Nelson Semedo não é fácil, mas o lateral não tem jogado bem desde maio. Vai dizer que é mais difícil marcar os Diegos Farías e Laxalt e Roberto Inglese, vai. A principal contribuição do brasileiro, a vocação ofensiva, ainda não voltou das férias.


Getty Images
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Cinco chutes no gol, três tentos: complicado


Depois da partida contra o Chievo, Allegri disse que Douglas Costa precisa se adaptar ao futebol italiano. Em Turim, o Ceo buscava interromper qualquer iniciativa dele com marcação dupla, fosse com Radovanovic fechando ou Massimo Gobbi e Perparim Hetemaj cobrindo. Era uma explicação para os dribles errados. O que explica, então, o individualismo contra o Barça? É bom quando dá certo e péssimo quando dá errado. A finta a mais, aliás, é irritante. Vale também o momento do time: no primeiro, assistiu em dois lances perigosos; na etapa final, só ciscou.


Para o amanhã, o cerne da questão é a zaga titular. Até quando Allegri vai preservar Daniele Rugani, o “próximo grande defensor italiano”? A Juve conseguiu sofrer seis gols nas duas partidas sem o zagueiro no time titular, mas vale continuar com Benatia e Andrea Barzagli enquanto Giorgio Chiellini se recupera de lesão? Se o problema é a idade, o que explica Bentancur, três anos mais novo, iniciando um jogo de Liga no primeiro ano de carreira em bianconero. Enquanto Rugani é criado numa bolha, afastado dos perigos que o esporte propõe, Raphaël Varane, Samuel Umtiti e Eric Bailly, todos da mesma geração, estão jogando por aí. A discussão pode se alongar ao incluir Benedikt Höwedes, fora da partida porque está aprimorando a parte física. A tendência é que ele limite a preferência pelos defensores que atuaram contra o Barça.


Ao futuro próximo, o trabalho consiste em rever essa falta de regularidade. As chances perdidas na Catalunha não podem ser repetidas com frequência.