Juventus: rainha do mercado ou desastre completo?

Entre o torcedor de arquibancada e o simpatizante, há uma vasta seleção de adoradores de um clube. Os perfis são muitos: o fervoroso, o brando, o gastão, o chato, o de TV e até aquele que diz que torce, contudo, nem vibra tanto assim. Mas não há um tipo mais chato que o torcedor de mercado. Ele é quase um fã Schrodinger: ele está para seu clube, mas também não está. Pode até torcer, mas festeja mesmo as contratações. Ele sente tesão pelas transferências.



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Chegou alguém novo no clube? Têm, pelo menos, uns sete caras melhores que ele. Contratou um jogador de renome, pomposo? A angústia bate, pois a reclamação cessa por alguns dias - ele se sente um pouco mal em reclamar tanto, também. Ao fim da janela, entretanto, a insatisfação retorna, uma vez que o time segue necessitando de algumas compras que infelizmente não foram finalizadas. Aí os próprios novos reforços são subjugados nesse grande pacote.


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O último reforço da Juve para a temporada é um campeão mundial, ex-capitão e zagueiro que joga em qualquer posição da defesa


Me impressionou como a opinião das empresas de mídia diferem dos torcedores sobre o mercado da Juventus. O diretor Giuseppe Marotta declarou na última quarta-feira (30) que Benedikt Höwedes era o último reforço para a temporada. Por isso, o Bleacher Report comentou que o bianconero era uma espécie de rainha das transferências. Os fãs, por outro lado, chiaram demais dessa janela. A discrepância é tanta que parece que nem falamos sobre o mesmo clube e jogadores contratados.


A Juve perdeu três jogadores relevantes: Leonardo Bonucci, titular, depois de tantos conflitos com a comissão técnica (leia mais em "Entre ficar e ser o problema, Juve decide despachar Bonucci"); Daniel Alves, tão titular como reserva, que optou por não renovar contrato; Mario Lemina, da rotação, foi vendido para liberar espaço financeiro e de plantel. Entre as entradas, temos um campeão mundial, um ex-capitão do PSG, um ponta de qualidade técnica espantosa, outro de potencial alto, um meia promissor e um goleiro que evoluiu demais e provavelmente vai atingir o ápice da carreira daqui dois anos. Isso é ficar devendo?


Porque só pode ter uma falha de significado entre as análises tamanho o buraco entre as conclusões. A começar pelo ponto de vista financeiro. Não basta ser a equipe melhor remunerada da Itália, a Juventus tem colhido muita grana da Liga dos Campeões - ainda mais com as sucessivas eliminações dos times locais na competição, aumentando a fatia dos direitos de TV que lhe é oferecida. O bianconero deixa este mercado para trás com um lucro superior a 20 milhões de euros (valores de salários, premiação, etc referentes ao próximo ano fiscal). Usar o dinheiro com parcimônia é uma regra para esta diretoria, que ousa menos e joga, na média, com segurança. Se é bom ou ruim, esta é uma outra história; a Juve cumpre o que promete. E o compromisso foi visto expressivamente com as novas caras no Piemonte. O técnico Massimiliano Allegri queria opções para as pontas e meio-campo. Recebeu Douglas Costa, Federico Bernardeschi e Blaise Matuidi.


Verratti e o melhor lateral do mundo


Marco Verratti foi uma das especulações mais cantadas na quinzena final de julho, antecedendo a pré-temporada. O italiano do PSG é um jogador fantástico, porém, foi avaliado como alguém fora do perfil de meia que a Juve gostaria. Gastar quase uma centena de dinheiro num jogador "errado", segundo a avaliação da comissão técnica, seria uma insanidade. O clube também prefere não entrar em leilões, o que explica parcialmente a escusa por Corentin Tolisso (também fora do perfil de atleta desejado às funções). Blaise Matuidi foi uma oportunidade de mercado: barato em comparação aos concorrentes (mesmo que a grana parece um pouco salgada para um jogador de 30 anos que tinha apenas um ano de contrato), permissividade do time francês e contrapeso ideal (novamente segundo a cartilha de contratações) para o meio-campo.


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Lentes nele: Allegri conseguiu reforços para todas as carências que ele tinha apontado


A Juventus não sabe muito bem o que fazer com Stephan Lichtsteiner. Bem verdade que essa diretoria não tem dimensionado seus ídolos. A despedida de Alessandro Del Piero foi bonita e tal, mas o anti-clímax daquela papagaiada de "vamos liberá-lo" é surreal. O maior jogador da história juventina, o bandeira do clube, foi pra Austrália (a Roma também deu umas boas mancadas no fim da trajetória de Francesco Totti). O suíço jogou as duas partidas da época atual e não foi chamado para a Liga dos Campeões. De novo. Mas ele parece ser intransferível. Mas só vai jogar campeonato e Coppa. Justo ele, que, apesar de dois jogos surpreendentemente bons, entrou na curva de declínio da carreira.


Os torcedores de janela chiaram com certa razão - mas não total. A Velha Senhora realmente precisa de um lateral-direito. A falta do passaporte europeu de Serge Aurier e Danilo era um problema: ou escolhia um dos dois, ou Costa. Hector Bellerín não passou de um murmúrio rápido. As negociações por Matteo Darmian não avançaram. Algo que realmente foge à minha compreensão é a idolatria instantânea por Jorge Cancelo, que fechou com a Inter. O português é mais ponta que lateral, uma vez que as contribuições defensivas conseguem ser inferiores às de Alves. Reclamam que Lichtsteiner cruza mal, só que Cancelo, o "melhor lateral do mundo", é tão ruim quanto.


De Sciglio é uma incógnita que a Juve viveria igualmente se fosse em busca de Darmian. Nenhum deles vive grande fase, e Allegri busca recuperar o atleta que jogou bem pela última vez quando foi treinado por ele. Contratar e inscrever Höwedes - outra oportunidade de mercado por ser largado pelo Schalke 04 - na UCL é uma resposta para qualquer posição da defesa.


O mercado do Milan chama muita atenção exatamente porque eles quiseram (ou precisaram) montar uma nova equipe. O bianconero se assemelha mais ao Bayern que ao rival rossonero: têm seus próprios funis, pois os históricos recentes de títulos e qualidade dos elencos restringem potenciais compras. É natural. Mesmo assim, a Senhora fez uma janela digna de aplausos.


Dava para ser melhor, porém, nem sempre a grama do vizinho é mais verde. Às vezes, é só outra reclamação dessa turma que prefere contratação ao próprio time.