Nem Bernardeschi nem Dybala merecem usar a 10 da Juve

Federico Bernardeschi acertou em não aceitar a camisa 10 da Juventus. Dizer que tem de merecê-la é um sopro de humildade naquele que vestiu o número de Rui Costa, Giancarlo Antognoni e Roberto Baggio na Fiorentina. Também é positivo saber que Paulo Dybala continuará com a 21 para a próxima temporada, recusando a vestimenta que trajou pela última vez Paul Pogba. Nenhum deles a pode ter – ainda.



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A época começa de forma meio estranha, sem qualquer 10 memorável. Principalmente para nós, brasileiros, em relação ao nosso apego para com a vestimenta. A aposentadoria de Francesco Totti pode trazer a nostalgia à tona, mas nenhum dos grandes clubes da Serie A terá um 10 de profundo respeito: enquanto existem as lacunas na Juve e Fiorentina, João Mário veste a da Inter e, no Milan, Çalhanoglu. Os outros que detêm o número na Serie A são Amato Ciciretti, Mattia Destro, Alessandro Matri, Sergio Floccari, Adem Ljajic, Rodrigo De Paul e Alessio Cerci. Destes, nenhum tem afetividade com as equipes que representam. Três casos, contudo, são diferentes: João Pedro, identificado com o Cagliari, mas ainda com idolatria na crescente; Papu Gómez, capitão da Atalanta e que provou que pode ganhar jogos sozinho; e Felipe Anderson, o 10 “mais velho” (está desde 2013 na Lazio) e inconsistente apesar de ser aquele que melhor compreende as características da função.


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Dybala: promissor, mas vamos com calma


Particularmente, vou contra a entidade mística da camisa e não mudo o opinativo “Eu quero que se dane a camisa 10”. Por outro lado, reconheço a importância desta na história juventina. A Itália tem um misticismo mais brando com a camisa que o Brasil: a tradição do Belpaese valoriza outras posições também e a numeração fixa na Serie A já tem 20 anos. O conceito melhor atribuído ao número é o de fantasia. Quem o veste, igualmente meio-campista e atacante, precisa levar a magia aos olhos do público pela qualidade técnica.


Nem sempre significou que o 10 representasse o conceito fechado. O próprio Baggio, por exemplo. Pela fantasia, jamais um atacante puro em essência; pela forma que finalizava, não era um trequartista de dicionário. Por isso Michel Platini dizia que ele era um “nove e meio”. Se Diego Maradona é o maior ídolo do Napoli e teve a camisa aposentada, a Inter retirou a 3 de Giacinto Facchetti e a 4 de Javier Zanetti, e a mais importante do Cagliari, único campeão insular do país, é a 11 de Luigi Riva – mostrando a valorização de posições além meia.


Alessandro Del Piero foi um marco bianconero, pois ressignificou a numeração. A começar que se tornou um fantasista enquanto envelhecia. Era um seconda punta, aquele que oferece ajuda ao centroavante pela capacidade técnica e rapidez, entretanto, as lesões e a idade permitiram que ele atuasse um pouco mais recuado, caminho parecido com o trilhado por Roberto Mancini e Totti. Acima de tudo, ele se tornou uma extensão do clube. Ale nunca foi o melhor jogador. Contemporâneo ao atacante, a magia de Maradona se sobressai por muito e a precisão nas finalizações de Marco van Basten, Gabriel Batistuta e até Filippo Inzaghi superam o bandeira da Juve. Só que ele transcende o esporte: Del Piero foi o profissional leal e determinado que chegou ao topo no fim da década de 90, se viu em segundo plano na metade dos anos 2000, não reclamou, quebrou todos os recordes possíveis e venceu tudo pela Juve. O atacante foi uma identidade, uma explicação do stilo Juve se não maior, tão grande quanto a existência da lenda Giampiero Boniperti.


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O mito, o gênio, praticamente a Juventus inteira


Foi um erro, portanto, dar a camisa para Pogba em 2015-16, assim como seria errado deixá-la com Bernardeschi ou Dybala. O argentino é quem mais se assemelha ao tipo fantasista, porém, ainda está a alguns passos de merecê-la da mesma forma que o italiano opinou na própria apresentação. Outrossim, a Joya parece interessada em elevar a carreira com o número 21.


Os outros números


Pogba é uma potência midiática. Na linha tênue da confusão, a qualidade, carisma e a irreverência sobrepõem a arrogância. O francês vende – e muito. Nesta ótica, a camisa 10 da Juventus era e foi perfeita para ele. O clube fechou a última temporada do Polvo entre os dez maiores comércios de camisas exatamente porque ele o alavancou. Um perde, outro ganha…


A saída do meio-campista em 2016 foi ótima para o Manchester United, que permaneceu na liderança de vendas e ainda viu a contratação mais cara da história do futebol puxar as compras de uniforme. Grandes transações também auxiliam no marketing. Somando o ano inteiro, Gonzalo Higuaín foi o líder de vendas na Juve de 7ª colocação. Os dados das empresas Kitbag e Sportsdirect mostraram que a Velha Senhora comercializou 850 mil camisas. Enquanto isso, apostar no mercado asiático tem se tornado um foco importante: o Milan só ficou no top 10 porque a presença de Keisuke Honda elevou a venda fora do continente.


A última análise comercial divulgada internacionalmente foi a da PR Marketing, agora em 2017. A Juve é a única equipe italiana que aparece entre as que mais vende camisas, na 9ª posição. Exemplifica bem como é difícil uma equipe do Belpaese adentrar o grupo comercialmente próspero dos ingleses (Manchester United, Chelsea, Arsenal e Liverpool), Bayern de Munique, Real Madrid e Barcelona.


Dybala, para a publicidade, é um presente de ouro embalado e deixado sob as árvores de natal bianconeras. É um potencial 10 para estimular as vendas da Juventus, mesmo que ainda não tenha a identificação de Claudio Marchisio. E apesar do não-tradicionalismo italiano, essa camisa vende mesmo.