​Bernadeschi na Juve coloca ainda mais ódio na rivalidade com a Fiorentina

Somente a morte e impostos são mais certos que algumas situações do futebol, como a lei do ex. Para esta temporada, a única certeza era que Federico Bernardeschi deixaria a Fiorentina para rumar ao Norte. A dúvida era quando ele faria exames médicos e se apresentaria na Juventus. Nesta segunda-feira (24), o fim chegou: o meia-atacante foi confirmado no bianconero. A confirmação da transferência enfurece a Viola e provoca ainda mais uma rivalidade esculpida no ódio.



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Aos 23 anos, Bernardeschi é um dos muitos talentos que a Itália apresentou nas últimas temporadas. O ponto especial - e que pode ser uma desvantagem, também - é a confirmação de ser o protótipo de fantasista desta geração. A saída da Fiorentina já o provoca nesse sentido: se permanecesse na Toscana, ele buscaria ser o homem-chave na equipe que o criou e numa posição central em jogo, armando e concluindo jogadas. Na última edição da Serie A, Fede criou mais lances perigosos que Paulo Dybala e Miralem Pjanic e marcou 11 gols (a mesma quantidade do argentino). 


Getty Images
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Parecia que a ideia era contratar ou Douglas Costa, ou Bernardeschi. Juve fechou com ambos


A debandada viola e a vontade de Bernadeschi em seguir para a Juventus, contudo, dá ingredientes novos para um relacionamento que só começou. No Piemonte, o jogador e o treinador ganham. O jovem consegue, assim, completar o crescimento técnico, mental e sobretudo tático no nível mais alto do futebol nacional, enquanto Massimiliano Allegri recebe um atleta moldado para o estilo de jogo preferido dele.


Teoricamente, Bernardeschi é o titular do lado direito do ataque, mas consegue jogar perfeitamente - e terminou a temporada na Fiorentina dessa maneira - atuando atrás do atacante, na posição preferida de Dybala. De qualquer forma, um camisa 10 da Toscana aceita a proposta da Juventus depois de 30 anos, refazendo-mas-não-muito os passos de Roberto Baggio. Quem vai aproveitar bastante é a Adidas, que sonhava noutro dono da camisa lendária para subir as vendas. (Ao que tudo indica, esse é número que ele vai escolher). 


O pênalti irlandês


Historiadores italianos costumam dizer que o futebol turinês é parecido com o de Manchester. Enquanto a Juventus não se limitou a ganhar fãs fora da comuna e do país, assim como o United, o Torino concentrou a maior parte dos torcedores na própria região local, em referência paralela ao City. O Toro é o rival de explicação simples da Juve, pois são da mesma região. Milan e, especialmente, Inter disputam são os clássicos da grandeza. A Fiorentina é o rival do ódio.


ESPN.com.br | Bernardeschi assina com a Juventus até 2022


O campanilismo é algo sério na Itália. Sem uma palavra que o defina em português, o conceito é de explicação nada complicada: identificação à região na qual nasceu. Durante os anos 70, Florença começou a ver um crescimento de torcedores da Juventus, clube que terminou a década com 19 títulos italianos. O campeonato de 1982 decidido por Liam Brady, então, intensificou os sentimentos nas comunas.


A briga pelo scudetto terminou somente na última rodada, com os dois times empatados no dia final. A Fiorentina encararia o Cagliari, fora de casa, enquanto a Juventus receberia o Catanzaro. Em Turim, o time visitante teve um pênalti negado e o bianconero venceu exatamente na marca da cal: Liam Brady, já vendido para a Sampdoria para que a equipe pudesse inscrever Michel Platini, converteu. A torcida da Fiorentina viu o irlandês como uma figura desprezível, assim como o árbitro Maurizio Mattei, que anulou um gol da Viola na partida decisiva. "Meglio secondi che ladri" (ou "melhor sermos segundos que ladrões") foi iniciado.


O último fantasista


Os que aceitaram a Juventus no fim da década de 1980 estavam pressionados. Continuar o período vitorioso com Giovanni Trappatoni era muito difícil (sete Italianos, duas Coppa, Copas da Uefa, dos Campeões, das Copas, Supercopa e Intercontinental). Rino Marchesi bem que tentou, alcançando o vice nacional em 1987. O momento era de crescimento das outras forças, como o Milan de Arrigo Sacchi, Inter de Trap e Napoli do trio Magica (Diego Maradona, Bruno Giordano e Careca). A chance de vencer um campeonato aconteceu justamente contra a Fiorentina. Na Europa, a rivalidade foi cimentada.


A primeira partida da final da Copa da Uefa foi disputada sob os rumores da transferência do prodígio Baggio à Velha Senhora. Após a vitória juventina por 3 a 1, o zagueiro da Viola Celeste Pin passou atrás de Dino Zoff, técnico adversário, e gritou para a transmissão da Rai: "ladrões!" O jogo de volta teve mais brigas que futebol, e o empate sem gols deu o título para a Juve. O prêmio final veio duas semanas depois, com um novo camisa 10 por transferência recorde - 25 bilhões de liras (ou 13 milhões de euros, em moeda corrente).




O presidente florentino, Flavio Pontello, decidiu que precisava aproveitar o rapaz para lucrar. Ao invés de resguardar o atleta que carregou a equipe à final da Uefa e transformá-lo no herdeiro do lendário Giancarlo Antognoni, a Viola embalou Baggio e presenteou a Juve. Para a torcida, aquilo foi assinar um pacto com o Diabo. Os fãs protestaram nas ruas, formaram um cerco na sede do clube por três dias - Pontello se refugiou no estádio -, 50 pessoas ficaram feridas e nove foram presos na cidade renascentista que não acreditava que seu filho tinha rumado ao rival. Eles insultaram Baggio também na preparação italiana na base próxima a Coverciano, na região sudeste de Florença, para a Copa do Mundo de 1990.


No retorno do fantasista ao Artemio Franchi, ele se recusou a cobrar o pênalti que empataria a partida e Gigi de Agostini errou. Baggio, que não quis usar um cachecol da Juve na apresentação ao clube, foi substituído dez minutos depois do lance, no segundo tempo, e colocou um viola que lhe foi arremessado à beira do campo.


Campanilismo e o novo 10


A família Della Valle, em 2012, afirmou que "os rivais não tinham valores de honestidade, fair play e ética esportiva" quando a Juventus fez uma proposta de última hora para assinar com Dimitar Berbatov - no fim, o ex-artilheiro do Manchester United optou por fechar com o Fulham. Para alguns torcedores da Juve, a rivalidade é mais unilateral que de ambas as partes, porém...


Enquanto treinador bianconero, Antonio Conte veio à público dizer que Milan e Inter são rivais. "Não achamos que os jogos contra a Fiorentina são assim, porque seria uma maneira de nos tornamos provincianos", declarou em 2012. Justo ele, que comemorou o gol da vitória em 1999, no Delle Alpi, junto ao escanteio, com a comemoração icônica de Gabriel Batistuta. Em 2013, Paul Pogba e Carlos Tévez celebraram os tentos na derrota por 4 a 2 da mesma forma.


Ainda que as diretorias tentaram amenizar situações com os negócios por Angelo di Livio, Felipe Melo e Giorgio Chiellini entre 1999 e 2009, a rivalidade prevaleceu. A Juventus namorou o técnico Cesare Prandelli em 2010, a contra-gosto da Viola; a troca de Sebastian Giovinco por Stefan Savic não foi pra frente; e a Fiorentina proibiu a transferência promissora de Stevan Jovetic para Turim, enviando o atacante ao Manchester City.


A Piazza del Duomo é o coração do centro histórico de Florença. Os moradores, lutando constantemente contra as instalações modernas em detrimento aos produtos locais ou típicos, conseguiram proibir a entrada do McDonald's na praça - a empresa chegou a processar a cidade em 18 milhões de euros. Torcedores viola, também contra o "futebol moderno", vê nos Della Valle o oposto: para a família, o clube é somente um vendedor.


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Pensa em alguém que está feliz com a transferência


Sob o campanilismo, a camisa roxa da Fiorentina vale muito; Federico Bernardeschi, um filho da Toscana, é preciso. Ou era.


Poucas quadras afastado do centro, o bar Antico Beccaria é um dos locais que melhor define a rivalidade entre os times. Pedindo ou não uma garrafa de Birra Fiorentina, cerveja de coloração violeta, os clientes jamais ouvem um "até logo" ao pagarem a conta. "Juve merda" é o cumprimento padrão. É nesse universo que se encontra Bernardeschi, o excelente jogador que pediu a camisa 10 para honrar Baggio, Antognoni e Rui Costa e se tornar um bandiera florentino e, na temporada seguinte, só queria se transferir para o arquirrival.


Que venha o primeiro clássico da temporada.