Entre ficar e ser o problema, Juve decide despachar Bonucci

​Era só uma brincadeira, um motivo de riso até para Alessandro Del Piero. Horas depois, a graça se tornou aflição. Em minutos, desespero e consternação. Nesta sexta-feira (14), então, o Milan oficializou a contratação de Leonardo Bonucci. A saída do melhor zagueiro da Juventus é estranha, se vista de fora: há razão explícita no fundo mesmo que não queiramos acreditar.



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Negação e raiva


Assim, o boato jamais foi uma especulação. A transferência, porém, soa bizarra: a Juve se desfez do defensor que vive o auge da carreira enquanto permanece com Andrea Barzagli, que faz 30 jogos numa temporada com dificuldades, e Giorgio Chiellini, de problemas físicos sempre notáveis aos 32 anos, ao mesmo tempo que reforça um rival postulante às vagas nas competições europeias.


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Apenas um dia de pré-temporada na Juve antes de visitar a Casa Milan


O Milan ainda não é candidato ao título, uma vez que o time vai mudar consideravelmente e, até agora, não passa de uma teoria. O próprio falatório de pacote de reforços é discutível: Ricardo Rodríguez e Hakan Çalhanoglu vêm de temporadas decepcionantes (e o turco exímio cobrador de faltas não marca dessa forma desde 2015...), Franck Kessié caiu de produção na Atalanta desde que Roberto Gagliardini mudou para a Inter em janeiro último, Andrea Conti mostrou qualidades como ala - mas não como lateral -, André Silva ainda é só promissor e Mateo Musacchio fica entre o regular e bom.


Conseguir Bonucci por 40 milhões de euros é um roubo, e não no significado ruim da palavra. Pode até ter caído no colo rossonero, mas contratar o defensor mostra que o Diavolo não vai brincar. Não mais que de repente, o dinheiro chinês trouxe o rival de volta: bancou a passagem de titulares da Juve, Lazio (Lucas Biglia) e Atalanta para a capital da moda.


Bonucci tinha vontade de sair desde que ouviu o chamado de Pep Guardiola antes de chegar ao Manchester City. Não saiu na época passada porque, oficialmente, "ainda tinha objetivos na Juve" e, nas entrelinhas, passava por turbulências familiares - com os problemas de saúde do filho Matteo. As propostas de City e Chelsea e as sondagens de Barcelona e Real Madrid mostravam cifras maiores que o acordado com o Milan. Pagariam aproximadamente 60 milhões de euros, segundo as reportagens, 20 a mais que o Diavolo acertou esta semana. Pessoalmente, dinheiro não foi um fator determinante, visto que ele ganhará um milhão a mais por temporada de salário na Lombardia. Pesa, novamente, a vontade da família em permanecer na Itália.


Barganha e depressão


A rapidez que o negócio foi acertado pressupõe aquele "algo a mais". O Rossonero pressionou para fechar a transferência antes do embarque para a China, onde a equipe fará pré-temporada. Só que ainda há mais de mês para fechar a janela. O jornal La Stampa bancou a história de vestiário da final da Liga dos Campeões mesmo com as respostas contrárias do clube. Bonucci foi à público desmentir que algum conflito aconteceu contra o Real Madrid. A publicação contou que o defensor ficou muito nervoso com a atuação do time no primeiro tempo em Cardiff e brigou com Paulo Dybala, omisso diante da marcação de Casemiro e com medo de ser expulso. Andrea Barzagli protegeu a Joya, ouviu de Leo que estava tomando um sacode de Marcelo na lateral e respondeu ao camisa 19 que, caso tivesse cercado, Cristiano Ronaldo não marcaria o gol.


Este foi o segundo caso de desobediência do defensor no ano; em março, brigou com o técnico Massimiliano Allegri na partida ante o Palermo e foi excluído dos relacionados contra o Porto, na ida. A imprensa espanhola, contudo, diz que o problema de Bonucci não era com Allegri. A culpa para o treinador existe, entretanto, a discordância maior era com a direção juventina.


Por que raios, então, justo o Milan? Foi a proposta que mais agradou o camisa 19. Napoli jamais entraria no leilão - seria maluquice financeira - e Roma trilha seus próprios caminhos. O diretor Walter Sabatini chegou a conversar com Alessandro Lucci, agente de Bonucci e Juan Cuadrado, no início de julho. A Inter tem o poderio necessário para realizar a contratação, mas nenhum acordo foi pra frente depois da reunião. O Milan, coitado, sobrou - e venceu. A atitude em vender um dos senadores condiz com as diretrizes da Juventus. Se o jogador está infeliz e a proposta atende às exigências da agremiação, o atleta sai. Só que esse tipo de pensamento sempre blinda Allegri. É justo?


ESPN.com.br | A (ousada) opção de Bonucci: por que ele deixou a Juventus e escolheu o Milan?


Grandes clubes têm de tomar decisões desagradáveis, por vezes. Extorquir o Milan para receber mais dinheiro por Bonucci poderia melar a negociação. Aí a Juve ficaria com um jogador insatisfeito com chances reais de contaminar o elenco inteiro, assim como se rejeitasse a proposta rossonera e desse chá de banco pelo resto da época. Os resultados para qualquer das escolhas não eram agradáveis.


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Foi bom enquanto durou


Aceitação


Leo é presente somente nas partidas no Giuseppe Meazza e Allianz. De resto, é passado. O dinheiro da transferência, segundo os primeiros relatos, seria usado para trazer Toni Kroos, mas todas as outras sondagens voltaram à ativa - dos preferidos, Nemanja Matic e Blaise Matuidi, a Emre Can. Apesar de um novo meio-campista ser tentador, urge a necessidade de outro zagueiro.


Seria o momento perfeito para Daniele Rugani assumir a bronca com um papel fundamental na equipe. Faz sentido pensar que o jovem terá mais minutos à disposição, mas a Juventus não pode crer que quatro defensores (sendo três amigos do departamento médico) podem segurar a responsabilidade em três competições fatigantes. Aqui, outra discussão aparece: ir atrás do querido Kostas Manolas? Stefan de Vrij é a alternativa, porém, Mattia Caldara chega à Juve em 2018 (pedindo espaço, ao que tudo indica). Essa próxima movimentação é muito importante para direcionar as carreiras dos zagueiros que são o futuro da seleção italiana, e considerar quem pode ajudar nos objetivos de prorrogar a dominância nacional e conquistar o continente.


Bonucci faz parte do ról de atletas que trocaram Juve por Milan. O último fora Alessandro Matri, de qualidade questionável mas de carisma inegável. O caminho inverso foi feito por Andrea Pirlo, contudo, as mais importantes trocas entre os clubes aconteceram nas décadas passadas - e não podem ser usadas como comparativos. Quando Roberto Baggio foi negociado, o jovem Alessandro Del Piero era bom demais e pedia passagem. Em 2001, Filippo Inzaghi, de relação conturbada com Ale, foi vendido para permitir que David Trezeguet tivesse a química perfeita com o bandeira juventino. Desta vez, qualquer atleta que chegue para assumir a lacuna deixada por Bonucci é um retrocesso - não seria se fosse Jérôme Boateng, mas não vai acontecer.


O longo prazo tem mostrado que os movimentos da diretoria são certos, mas essa saída é muito difícil de engolir.